sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Porquês...

Há muitos adultos na idade dos porquês. Viver aos quarenta aquilo que é ajustado viver aos quatro anos é muito mais comum do que imaginava... Com estes adultos em “período pré-operatório” (roubado a Piaget) é impossível manter uma conversa linear que cresça e se aprofunde na confiança e na partilha. Todo o discurso é interrompido pela suspeita...
Sim, aquilo que me parece que distingue estes adultos das crianças é a suspeita… Quando uma criança nesta altura pergunta alguma coisa move-a a vontade de conhecer coisas novas, aceita a resposta, mesmo que não a retenha ou compreenda. É uma identidade em construção, um adulto na mesma fase é uma identidade em afirmação. Quando um adulto está nesta fase de desenvolvimento, mesmo que retenha ou compreenda, nunca ficará satisfeito com a resposta e voltará ao porquê como se nada houvesse sido explicado ou partilhado.
Claro que é dos porquês que se alimenta a ciência, o conhecimento e quem sabe a evolução da espécie. E ainda assim problematizar tudo de forma autista que pouco interesse mantém nas respostas que não sejam aquelas que certificam uma teoria previamente definida, é um pouco cansativo e não leva à evolução de nenhuma das áreas do conhecimento humano... a não ser a ironia ou a paciência.
Sim, porque nesta altura não é a curiosidade do cientista nem da criança de quatro anos que alavanca o "porquê"… É antes a busca de protagonismo, e um afirmar de um sistema previamente estudado que se quer ver edificado não pelo diálogo mas pela força. Não se procuram debates mas confrontos, não se procura partilha mas imposição, não se procura o outro mas a si mesmo.
O porquê do Natal, das diferenças de género, do mal no mundo, o porquê da fé, do amor, de haver ou não haver gente feia, bonita ou assim assim, (…) ou da cor rosada nos camarões depois de cozidos. O “porque sim” é algo impensável e uma resposta com base no que pensas, defendes, vives ou diz a ciência, é sempre rebatível… Todas podem estar erradas para estes adultos que têm em si as únicas respostas possíveis aos seus porquês, embora tenham a generosidade e a insistência em “ouvir” a opinião dos outros.
Tenho cá para mim que, a grande vantagem de crescermos é aceitarmos que nem tudo se explica… Que há coisas que podem ser assim porque sim ou porque não. Sem palavras ou teorias. Que há espaços entre as respirações. Que há silêncios.
Acredito (de crença) que aceitar o abstracto da vida seja um acto de maturidade.
Também começo a pensar que estes adultos (pseudo) curiosos talvez tenham sido muito enganados quando tinham quatro anos. Não sei, mas cheira-me… E se me perguntares o porquê desta ideia, direi que é pura imaginação. Posso?


3 comentários:

  1. Cláudia fizeste me imaginar um sem número de histórias. Sim, adultos com porquês de 4 anos há tantos!...Eu sou um deles. E aos 4 anos ninguém me aturava com tanta pergunta! Até parecia que seria cientista ou assim. Mas não. As perguntas acumulam-se e ciência não é comigo. Sou mais de questionar pelas palavras escritas...
    (Esta lareira precisa de mais lenha. Vou buscar)

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    1. Isabel, traz também um pouco mais de chá, por favor, que o meu está a acabar. Obrigada pela partilha e pela conversa! :-*

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    2. Ora ia eu buscar a lenha quando me lembrei que uns bolinhos ficariam bem com o chá que pediste. Daí a demora...Tive que ir longe. Mas cheguei. Ora, aqui temos chá de gengibre e mel (não sei se gostas, eu não sou muito fã de chás..) e uns boletos sortidos. Incluiem alguns de alfarroba o que é ótimo para quem nao pode ou não gosta de chocolate...
      Perguntas...Pois....Os porquês...Continuo a dizer que os porquês nos deram a roda, o vinho, o chá, a fogueira, you name it...
      Olha, Obrigada por este bocadinho.Agora é que vou mesmo embora mas prometo voltar. É sempre um prazer conversar contigo. Beijinhos

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