sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Perguntas secretas…

O site das finanças tem uma forma muito "humanizada" e profunda para confirmar a nossa identidade e recuperar dados. Louvo as escolhas das "perguntas secretas" que incidem na sua maioria em matéria cultural e recreativa normalmente não dedutivel em sede de IRS. Talvez estejam a pensar em algum incentivo fiscal às artes, ou seja um estudo a longo prazo para justificar o 1% do próximo orçamento de estado para a cultura. Seja como for parece-me inteligente a estratégia de usar como alavanca na identificação singular no sistema tributário a literatura, o teatro, a música, ou o cinema tão desprezados noutras opções estatais.  
Confesso que ficaria muito mais aborrecida que me perguntassem pelo mecânico ou cabeleireiro preferido, marca de carro ou hipermercado de eleição ou animal de estimação, podendo parecer mais coerente, encontro lógica não se seguir por este caminho, afinal estas não seria perguntas secretas, porque as finanças teriam alguma forma de saber a resposta.
Voltando às perguntas reais, colocam-nos de facto mais perto do que nos caracteriza e distingue enquanto pessoas, e atrevo-me a dizer que, no que toca ao que se pode fruir, nos aproxima do que é essencial para alimentar o corpo e o espírito, contudo no meu entender parte de um princípio um pouco perverso. Imaginam os senhores das finanças que nós nunca mudamos.
Devem partir do principio que entrando nós num sistema justo de redistribuição de riqueza nunca teremos poder de compra ou liberdade mental para superar o ordinário dos dias e vislumbrarmos novos horizontes.
Isto tudo porque eu já não sabia que pergunta tinha escolhido há 13 anos, a quando do meu registo na plataforma. O meu destino de férias preferido em 2004 pode ser o mesmo hoje?
Qual a minha cor preferida? E se estava naqueles dias em que me apetecia "atrapalhar e ser engraçada" e dizer todas, ou arco-íris… Naquela altura eu gostava de amarelo, hoje talvez esteja indecisa entre um amarelo torrado e um verde seco, o que escreverei daqui a 5 anos?
E se a pergunta é, qual o meu livro preferido? Em nenhum sítio aparece o ano em que fiz esta escolha (a menos que consiga entrar para alterar os dados e aí já não preciso desta resposta). Bom, de 2004 para cá já li pelo menos mais de 30 livros dos quais gostei, muitos deles melhores do que tinha lido até então e de certeza a minha resposta de hoje está aqui neste conjunto e não no noutro.
A pergunta devia ser: qual o seu livro preferido até 2004? E pronto eu faria imediatamente outro exercício de flashback e upsss! Talvez nunca chegasse à resposta certa porque hoje raleio livros que li quando era jovem e uns surpreendem-me mais que na altura e outros me desiludem profundamente. Claro isto só acontece comigo e o problema é inteiramente meu, porque não se pode agradar a todos os excêntricos da vida,muito menos num site das finanças. Ninguém me manda reler nada e o que eu tenho de fazer é escolher uma pergunta simples uma resposta para toda a vida, e não estar aqui com devaneios.

A pergunta que eu escolhi foi: Qual a minha peça preferida? Acho que ninguém ia pensar que seria a peça de roupa, pois não?
Em 2004 teria mais ou menos oito anos de visitas regulares a teatros, de 2004 até agora passaram treze anos… Em treze anos vi mais espectáculos, felizmente tive mais poder de compra (sempre reflectido nas declarações anuais de IRS) para ver outras produções e mais liberdade para entrar em propostas mais arriscadas ou fora dos circuitos. Mas pronto Tchekov é Tchekov e As Três Irmãs, ainda um texto que ecoa emocionalmente em mim sempre que volto a ele, e em todos os palcos. Confesso que se não fosse um amigo a lembrar-me da resposta talvez ainda hoje procurasse os critérios que usei naquela altura, e por isso é que ajuda (mesmo on line) ir às finanças acompanhada. É a história da humanização...

O que eu gostava de dizer aos senhores das finanças ou pelo menos o que os senhores das finanças suscitaram em mim própria, é que as perguntas são bonitas, sim senhora, ajudam a humanizar um site que é funcional e cómodo, mas que infelizmente tem a perversidade de substituir muito do apoio que pode ser dado com um sorriso àqueles que não têm internet. Por outro lado, e este é que o ponto que mais me toca, prevê que nós nos mantenhamos os mesmos, ignora que crescemos, evoluímos e que em 10 ou tantos anos possamos ter mudado de gostos, de autores e de destinos preferidos. No meu entender, seria um óptimo sinal para a economia portuguesa que tal acontecesse.
Por isso uma das sugestões é de que os programadores programem estas perguntas para que em algum lado apareça o ano em que foram respondidas, a outra sugestão é que tenhamos a possibilidade simples de as alterar assumindo e desejando que nos possamos reinventar e espantar a cada dia com novos destinos, cores, espectáculos ou livros, que cada vez nos surpreendam mais e que amemos mais. 
Também podem deixar tudo na mesma, afinal as pessoas não mudam assim tanto e como diz o meu amigo daqui a uns tempos seremos identificados para íris (e eu imagino que pelo cheiro), ou apenas incluir estas perguntas que talvez sejam mais difíceis de responder:
"Qual é a repartição de finanças preferida?" ou "Sabe para onde vão os seus impostos?"

Para o caso de alguém ficar com dúvidas ou ideias parvas informo que mudei a minha pergunta e claro está a resposta. Espero não me esquecer disso e voltar a mudar em breve.



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