domingo, 24 de março de 2019

O meu tio e o ciclone...


Hoje o meu tio mais novo faz anos, faria hoje a festa dos 52 de vida, se fosse vivo, assim fazemos a festa dos 52 anos de nascimento, com a mesma importância que este ano celebramos o centenário de nascimento de Sophia de Mello Breyner. O meu tio não escreveu poesia e a sua história talvez tenha mais de dramático que de lírico pois partiu cedo de mais, vítima (também) das consequências do mau tempo que por esta altura do ano atinge (desde há alguns anos) o centro e norte de Moçambique. Este ano o Ciclone Idai trouxe mais informação (ainda assim escassa e incompleta), mas noutros anos os cortes de estradas, o isolamento, a falta de alimentos ou as doenças endémicas também se fizeram sentir neste território, assim aconteceu em 2015 em Nampula e nesse ano a malária ganhou a batalha derrubando um dos nossos, mais um homem bom em pleno século XXI.
Os meus actos de homenagem são solitários, secretos e individuais, como sou colecionadora de coisas, encontro nas coisas a forma de me ligar aos outros tanto vivos como mortos. Quando há uma festa de família por exemplo, sem que ninguém saiba levo comigo a última prenda que ele me enviou de Moçambique, quando a coloco sorrio e sei que vamos juntos para a festa.
Tenho vários objectos assim, vários objectos para os quais sorrio e digo, sem que ninguém saiba: Vamos juntos! E são tantos os afectos que transporto nas viagens, nos caminhos, nas festas, que é quase impossível sentir-me sozinha.
Este é o desejo que tenho para todos os que na Beira (Moçambique) são vítimas das alterações climáticas, para todos os que ficaram sem chão e por todo o "futuro" que foi levado pelo vento. No imediato estas pessoas precisam de cuidados de saúde, precisam que a epidemias e as doenças como a malária e a cólera sejam controladas, precisam de ser vistos por profissionais especializados e habituados a situações de emergência. Eu e a minha família optámos por apoiar nesta fase da catástrofe os Médicos Sem Fronteiras e por isso hoje o presente de aniversário do meu tio vai para os profissionais especializados que em regime de voluntariado (remunerado), estão a trabalhar naquela região e que podem com a nossa ajuda fazer a diferença entre a vida e a morte.

Os Médicos Sem Fronteiras têm um fundo de emergência para o Ciclone Idai e actuam na região, porque este não é só um problema de Moçambique, é também do Zimbabue e do Malawi. Escolho os MSF porque conheço o trabalho e pela transparência que nos comunicam. Sabemos que o nosso donativo há-se ser utilizado em 83% e que o remanescente é repartido em despesas de estrutura (5%) e de angariação de fundos (12%). Sabemos também que sem estrutura e sem fundos os trabalhos não podem ser executados.
Opto pelo site francês, porque ainda não está operacional o site português, e porque foi o mais simples de fazer o donativo directamente para o Fundo de Emergência do Ciclone Idai. Comecei pelo espanhol mas não consegui formalizar o donativo por causa do NIF e por isso passei ao país seguinte, como faço de carro. Optei pelo pagamento por cartão de crédito e depois de formalizada a transação recebi um agradecimento do presidente dos MSF.
Assim nós celebramos a vida e agradecemos a presença do meu tio António! Desejamos que as vítimas do Ciclone Idai resistam às águas e às doenças e que a saúde volte para que uma região inteira tenha a força de reconstruir o que o vento arrancou com violência. Nós também sabemos o que é isto. Que a força e a esperança nunca nos faltem.
Parabéns e obrigada Titó!
https://www.msf.fr/actualites/cyclone-idai-au-mozambique-zimbabwe-et-malawi-les-equipes-de-msf-mobilisees-sur-place
Filme Human:
https://www.youtube.com/watch?v=ShttAt5xtto





quarta-feira, 6 de março de 2019

Vejo-te passar todos os dias...

O que escrevo em baixo passou-se em Bissau há umas semanas! E hoje estava aqui a pensar na vida que se cumpre e não se cumpre... A olhar para os últimos sete anos de uma história que conheço por dentro e veio-me este episódio à cabeça, como me vieram todas as pessoas que me amam, todas as que permanecem e todas as que habitam o meu coração (pelas quais sou tão grata e feliz).

Chegava a casa depois de um jantar de amigas carregada, sem sacos (porque os plásticos são coisas que evito e os sacos de pano nem sempre estão à mão), trazia as compras de artesãos locais nos braços e uma fatia de bolo que acompanharia o antibiótico tomado a meio da noite.

O guarda da casa abriu a porta, disse-me boa noite e informou-me que havia um rapaz que queria falar comigo! Eu, que não tinha visto se não as mesmas pessoas que costumam ver filmes no computador em frente ao meu portão, fiquei espantada! Já um dia a irmã de um amigo me esperara por horas, quem teria hoje aguentado até à meia noite o meu regresso a casa? 
Voltei à rua e ele apontou para um dos seguranças que se levantou com tranquilidade. Mantive-me na rua em pé com a minha trouxa nos braços, cumprimentei-o e fiquei de ouvidos. Eu e todos os guardas das casas da rua que se juntam ali para passar o tempo.
Disse-me que queria falar em privado, o que não é inédito, já a semana passada uma das mulheres que trabalha num projecto que eu acompanho me pedia, em privado, ajuda para chegar a Portugal. Convidei-o para o lado de dentro do portão e ele disse que se chamava António, que me via passar todos os dias, que eu sou uma mulher muito bonita, alegre e que gostava muito de mim. Por isso queria ser meu namorado. A conjugação dos verbos é minha interpretação livre para resumir a conversa, contudo o conteúdo era exactamente este. E depois disto ficou calado, como se me estivesse a vender uns metros de pano e agora era só preciso eu escolher o padrão.
Sorri-lhe meio aparvalhada porque não queria comprar nada e não fazia a mínima ideia o que responder... Estava grata a tudo o que trazia nos braços e que sentia como protecção de um amor que me era estranho e desconfortável. Abordagens destas não são novas e não há quem não tenha uma história num táxi, no mercado ou na vida do dia a dia! Mas de um "desconhecido" que me via todos os dias, sabia os meus horários e a minha forma de andar, pareceu-me um tanto ou quanto "original" e isso deixou-me desconfortável.
Se me distraio tenho a tentação de pensar que é possível que ele saiba mais de mim que eu própria, afinal isto também é terra de feiticeiros heheh!
Estendi-lhe a mão num "passou-bem", mais espantada com o pragmatismo que pela declaração.
Agradeci a coragem e a objectividade da abordagem e disse-lhe que já tinha namorado (que é como se resolvem as coisas aqui, não por opção mas por falta de espaço...) e disse também que naquela rua passam mulheres muito bonitas e que ele vai encontrar uma mulher que goste de verdade (descartando logo a veracidade daquele sentimento...).
Ele reagiu, não ao facto da possibilidade de eu ter namorado mas, ao facto de ele não estar interessado em mais nenhuma das mulheres que passavam. Claro que eu identifiquei logo esta minha velha mania de arranjar soluções para os problemas que não são meus... Só depois me dou conta desta reacção quase inconsciente e fico com vontade de morder a língua. - Estavas tão bem calada, digo para os meus botões.
Tocou-me o gesto deste homem. Esta coragem naif de alguém se dirigir ao desconhecido e simplesmente dizer-lhe: gosto de ti, quero ser teu namorado, "quero comprometer-me contigo". (Bom, claro que aqui o sentido de comprometimento é muito diferente do que eu estou habituada e isto é uma outra longa conversa que para o caso não interessa nada.) E também me tocou a minha tentação de quase lhe querer provar que ele estava enganado... E também para esta faz sentido olhar.
Confesso que nunca tinha visto o António, e nem imaginava que era vista por ele.
Nas minhas orações peço para o António o mesmo que peço para mim, que o amor o encontre e que ele se deixe encontrar. É o efeito que este acto de descaramento e coragem tem em mim.
Que dizer-lhe, se não, sorrir-lhe desejar-lhe uma noite feliz e todo o bem do mundo?
Falar-lhe que cada dia acredito mais que as relações precisam de fortes denominadores comuns, de propósitos que são maiores que a soma das partes e que para isso precisamos de ver e ser vistos... seria uma perda de tempo para ambos ainda para mais, estando eu tão carregada de tralhas, de febre e de sonhos!
Passei a cumprimentar o António sempre que passava por ele na rua, a sorrir-lhe e a tratá-lo pelo nome, e sempre que me cruzei desejei aprender com ele a não ter medo de dizer o que me vai no coração e a acreditar nos corações dos outros!

E depois de contar a história deste e doutro António à Marta ela escreveu:
"...aparecerão mil e um Antónios como as mil e uma noites mágicas em que te seja importante escutares essa voz de dentro: um grande Amor está em Ti! Entre TU e a tua Alma!! E nós os Anjos dançamos e celebramos contigo!!" 
Está tudo perfeito, não há falta alguma, os anjos, esses, veem-me todos os dias sem que eu tenha a capacidade de os ver ;-)





sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Andar...


Parei com a certeza que faltava o par. 
Um esquecimento na poética do espaço...
Olhei melhor e entendi "por dentro" que em movimento, os pés não andam lado a lado. Nunca num movimento paralelo. Equilibram-se sem se tocarem... Cruzam-se e não param, alternando a carga com confiança um no outro. Um exercício dinâmico de equilíbrio e foco. 
Sorri para a calçada a pensar que por aquela porta se entra com o pé direito e que efectivamente está tudo certo, e nada falta a quem caminha.
Segui para casa feliz, pé ante pé... para não acordar desta poesia urbana.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Violência doméstica...

Violência doméstica é aquela que é praticada em casa contra conjures, crianças ou idosos num contexto "familiar" ou de "casa". Toda a violência é condenável e esta, que ocorre em contextos privados merece uma atenção especial até porque os exemplos de abusos, ineficácia da proteção social e injustiça são cada vez mais visíveis.
A violência a que a UMAR (ver edição do Jornal de Leiria de 7 de Fevereiro de 2019) se refere é baseada em questões de género e aqui as fronteiras vão muito para lá do doméstico. O importante no meu entender é que os juízes julguem os casos enquadrados nas limites máximos das penas e não nos mínimos (que possibilitam penas suspensas e outras situações de aparente impunidade), que se abandone este clima de injustiça e que a justiça e os sistemas de proteção social sejam cada vez mais céleres nos processos, no cuidado e nas respostas às vitimas. A verdade é que sabemos que as penas graves não são, por si só, dissuasoras de comportamentos ilícitos, por isso muito há a fazer em todos os sectores da sociedade.
O mais importante é que todos ganhemos consciência que a violência não é caminho para nada nem para ninguém. Assumindo que em diferentes fases da vida, todos somos potenciais vítimas e/ou agressores, ou estaremos perto de vítimas e/ou agressores, teremos de estar atentos a comportamentos compulsivos e percebermos que não podemos tolerar abusos nem infringir abusos de nenhuma espécie, combatendo e abandonando o padrão de normalidade que a violência ocupa, ainda hoje, na nossa sociedade.
Colectivamente é importante que condenemos este tipo de comportamento (e aqui o sentido colectivo é fundamental) que sejamos alavanca para uma efectiva mudança social, consistente e continuada. Denunciar situações, apoiar as partes, estar perto das vítimas, não desresponsabilizar o agressor, são caminhos possíveis para a construção de uma sociedade mais pacífica e respeitadora da diferença e onde as relações de poder sejam justas, equilibradas e geradoras de bem estar.
A mutilação genital feminina, a violência no namoro, o assédio, os salários desiguais para o mesmo trabalho, os abusos sexuais de várias espécies, a violência doméstica, têm de sair da esfera privada ou da responsabilidade do "outro" e serem assumidos como um problema de todos, que todos somos chamados a actuar, condenar e principalmente prevenir, falando sobre ele, trazendo-o à luz e educando homens e mulheres, em todas as idades, para o respeito próprio, para o respeito mútuo, para o feminismo e para o cuidado com a pessoa humana independentemente de género, condição social, recursos, origem geográfica entre outras.

Nota:
Jornal de Leiria pediu-me um comentário para o Fórum da Semana, que na edição de 7 de Fevereiro de 2019 foi sobre "Moldura penal mais dura para crimes de violência doméstica?". Lá usei com parcimónia os 450 caracteres com espaços... Mas sobraram-me muitos que arquivo aqui em "casa" (para que todos possam ver), afinal a opinião era sobre coisas domésticas (que não podem ser caladas, escondidas ou dissimuladas)!


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

6x7...


Hoje faço anos! Simbolicamente 
inicia também um novo ciclo (ai como eu gosto disto heheh). Parabéns a mim e a todos os que celebram comigo, que sejam de festa todos os dias.

O primeiro texto deste ano conta um episódio que vivi durante o ano que passou. É uma espécie de metáfora que resume a aprendizagem e a confiança que a vida me proporcionou nos últimos anos ou a disponibilidade que fui treinando, (ou acolhendo), para parar, entrar em relação, mudar os meus planos e seguir fazendo grandes amigos e juntos chegarmos aos sítios que desejamos, que nos fazem mais felizes... Para juntos chegarmos mais rapidamente a casa. 
Conheci o João num dia de Outono em pleno centro de Leiria, num dia antes de uma viagem de regresso a Bissau! O João estava parado no meio de uma passadeira com o sinal vermelho para peões e carros à distância de braços. Eu quase corria no passeio perpendicular à passadeira mas chamou-me a atenção aquela cena, travei, voltei para trás e perguntei se precisava de alguma coisa. Estava desorientado. Procurava uma direcção. 
Já no passeio conversámos um pouco, disse-me para onde queria ir e não consegui dizer simplesmente que era em frente, atravessando quatro estradas, nem todas no mesmo sentido, e percebi na pele o quanto é difícil explicar o caminho a um cego. Disse o levava lá, e com isto aprendi a guiar um invisual. Percebendo que estava com presa, explicou-me que não chegaríamos lá, com rapidez, com o meu braço na posição onde segurava o dele, seria ele a segurar o meu. Tinha confiança quando falava do que dominava. Ri-me com ele dizendo: “quem não sabe é como quem não vê"! Naquela disciplina claramente a cega era eu. Na verdade era ele que queria ser guiado e não eu que o guiava, o caminho era do dele, o destino era o dele, a vontade era a dele... Guiar ou deixar-se ser guiado, um surpreendente jogo de diferenças.
Guiar um cego é como uma dança e o João sabe dançar bem. Anda no IPL mas não é de Leiria, está a fazer um trabalho sobre acessibilidades nos transportes públicos e tinha ido a uma reunião por causa disso. Deixei o João junto da vizinha com quem ia apanhar boleia para casa e o último gesto que lhe vi foi o de apertar o relógio e o levar ao ouvido para ouvir as horas. Tinha chegado a tempo.
Continuei correndo muito feliz por conseguir parar frente ao desconhecido sempre que é preciso. E aprendo tanto quando paro ou quando me deixo guiar pela vida e mudo o rumo para chegar mais perto de casa.
Obrigada de coração, querido João, fizeste-me ver coisas que nunca tinha visto.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Viajantes...







Uma tímida miúda de 19 anos, finlandesa, que não sabe o que estudar nem como cumprimentar com dois beijos e um abraço, e um historiador de arte espanhol que a vida transformou em professor de cozinha, viajam pelo mundo de bicicleta. Por acaso estão juntos no caminho, mas não o iniciaram assim, nem sabem que etapas se seguirão depois disto. Por agora pedem, em dupla, o visto para a Guiné-Conacri que alcançarão dentro de três ou quatro dias e procuram para os dois, um tecto por uma noite em Bissau. 

Ele começou a viajar de bicicleta ocasionalmente com o pai, aproveitando dois bilhetes baratos para Bari, ela é todos os dias chamada a casa pelo respectivo pai que a informa dos voos directos à partir dos países que pisa. 
Ambos fazem da bicicleta a sua casa, vivendo ao ritmo da estrada e dos acolhimentos que encontram. Nem sempre é fácil, nem sempre é difícil e por um mês ou um ano não pretendem atalhar caminho em lado nenhum.
Para mim este é o espanto da vida, de nos fazer cruzar com gente bonita e de me confirmar sonhos antigos. Terei um hostel um dia, terei uma casa de acolhimento de viajantes num conceito que ainda estou para descobrir e desenhar. A minha segunda experiência de coushsurfing (trazidas sempre por amigos), confirma-me o desejo e faz-me acreditar que tudo é possível! 
Durante alguns meses, vivi, em Lisboa numa casa com um quarto disponível, que representava, para mim, uma esperança animadora, materializada no acolhimento de amigos e de uma mulher suíça desconhecida de nome Bernadette de quem aprendi com a história de vida, admirei as viagens, de quem recebi companhia nos passos, ombro nas lágrimas e apoio nas gargalhadas. Ficámos amigas! Hoje, noutro continente, esta dupla improvável e tão funcional pela completa diferença alimenta os mesmos desejos. 
Rio com as histórias de quem recebe roupa interior de presente ao sair do banho numa aldeia perdida em Marrocos (Aguelmouss) e aceita com gratidão uma tanga mesmo só usando boxers. Admiro os sons e ritmos partilhados ou as aulas dadas em ONGDs que apoiam comunidades remotas, tal como a Bernadette. 
Nesta pausa por Bissau cozinhou-se bacalhau português com sabor a Guiné e pasta com sabor a mundo, descansou-se o corpo, lavou-se a roupa e arranjou-se o fogão de campanha que há-de alimentar o resto da viagem. 
Um dia terei uma casa grande com quartos para receber viajantes e com eles partilhar nutrição e sabores, conhecer mais este mundo belo que desejamos construir juntos, a partir de dentro com tudo o que se vê e faz por fora. 
Obrigada viajantes, boa viagem Juan e Sophie! 
.
.
.
Visitem e acompanhem a viagem do Juanjo com muitas aventuras pelo continente africano a caminho da África do Sul: https://afrikakeke.wordpress.com/
Acompanhem também as Boleias da Marta que é adorável no caminho que faz e nas possibilidades de encontro que promove: http://www.boleiasdamarta.pt/

Aos meus amigos em viagem eu desejo bom caminho em especial à Maria João Freixo, ao João Lousada, à Bernadette. Ao Rui Daniel eu desejo que a escrita do livro lhe corra bem e nos faça viajar nas suas aventuras muito em breve. À Ana e ao Hugo eu desejo uma boa viagem na gestação e acolhimento do novo companheiro de caminho!

E aqui neste final de ano deixo por escrito os nomes e a profunda gratidão de quem me recebeu em casa com alegria e generosidade e me fez experimentar com todos os sentidos o quão importante e bom é a oferta de uma refeição preparada com amor, de uma cama lavada, de um sofá improvisado, de uma boleia segura, de um postal com o nosso nome ou de uma flor... Obrigada de coração à minha família que é grande e grandemente generosa, à Ana Limpinho, Ana Cristina Estrelo, Patrícia Raposo, Susana Mota, Maria João Freixo, Maria João Castelo, Marcel Steiner, Isménia, Ana Baptista, Hugo Dourado, Helga Esteves, Susana Fernandes, Carlos e Inês Azeredo, Rita Marques, Andreia Carvalho, Guilhermina Rebelo, Manuela Santos, Andreia Pires, Luís Osório, Sofia Baptista, Paula Oliveira, monges de Bose, Ângela Coelho, Graça Lameiro, Fausta Cardoso, Rui Sá, Cadidjato Candé, Filipa Gonçalves, Pedro Figueiredo, Marta Brites, TóZé... e tantos sorrisos que foram tecto e alimento generoso em tantos e diferentes caminhos. Obrigada de coração! Seguimos juntos.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Cinema...

Entrei num cinema abandonado... Um cinema à porta do qual passo quase todos os dias, ao lado do qual já bebi muitas cervejas e "caipirinhas" e onde como a melhor maionese de alho do mundo, transportada em "espetadinhas" de porco ou batas fritas que na penumbra da noite me parecem um manjar dos deuses. Em qualquer outro sitio esta comida seria uma sensaboria, aqui é prazer, acompanhado com molho de malagueta e limão.
Há poucos dias, no caminho de casa, ganhei coragem e entrei num espaço privado sem ser convidada, sem ser acompanhada por ninguém, sem nenhum tipo de legitimidade que não fosse a minha curiosidade. Às vezes precisamos de muitos gestos repetidos por fora para tomarmos coragem para entrar no desconhecido...
Atravessei a porta aberta com a timidez que combato todos os dias, pragmática nos gestos e atenção nos sentidos.
Entrei primeiro numa antecâmara de tecto baixo e chão em mosaico de pedra, sete passos e três degraus depois estava de baixo do balcão de um cinema antigo. Passava o balcão e o tecto abria-se como se de um carro descapotável estivesse-me a falar. Apenas a metade da sala em direcção à tela tinha a estrutura coberta de telhas. O palco mantinha estendida uma tela branca com alguns rasgões como se a chuva nunca por ali tivesse importunado o tempo e apenas regasse a vegetação amante de cinema e vestidos com corte de princesa. Sentia-me a entrar numa cena do realismo fantástico sul americano e imagino-me ser uma personagem do Gabriel Garcia Marques ou da Isabel Allende encontrando poderes inatos e desconhecidos em mim.
Mas estou em África, numa África que não é assim tão una, estou na Africa Ocidental e nela, numa antiga colónia Portuguesa que hoje é um país jovem que se chama Guiné-Bissau.
À minha frente tinha um senhor que acabava de comer arroz com um molho que não identifiquei e me acolheu com os olhos. Deixou-me passar a proteção do balcão, pisar "céu aberto" e disse-me com a mão que podia entrar.
O espaço era definitivamente mais dele que meu e este acolhimento deu-me segurança aos passos e ânimo para o circular, pegar no telemóvel e fotografar. 
Passeava a minha personagem. Nestas alturas não me apetece falar, entro num espaço sem tempo e fico nele a gravitar desejando conhecer com os sentidos as histórias dos musgos, das manchas, dos buracos... E nisto dou de caras com o meu "anfitrião" que me diz: foi o 7 de Junho. 
Fico mais atenta e ele repete, 7 de Junho de 1998, com os olhos postos nas nuvens que se veem daqui.
É a única coisa que ele tem para me dizer, foi a guerra.
A única coisa que eu penso é que foi um cinema. 
O gesto que ele faz mostra bombas a cair, os passos que eu dou mostram cadeiras e imaginam pessoas de cores pastel sentadas a ver o Casablanca.
Como faz parte de mim, sorri-lhe, agradeci-lhe com os olhos, e usei as únicas palavras que me pareceram ajustadas para o momento, obrigada e boa tarde. Olhava para ele e pensava que estávamos os dois no mesmo sítio ao mesmo tempo e ambos víamos coisas diferentes.  Segui o meu caminho de volta à rua que me levaria a casa naquele fim de dia. 
Hoje não há nenhuma sala de cinema em Bissau, não há nenhuma tela estendida e sem rasgões e isso faz-me muita falta. O que imaginei daquele encontro com um desconhecido, é que para ele, a realidade é que hoje não há guerra em Bissau e que isso não lhe faz falta nenhuma.




sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Check...


Há dias em que tens muito trabalho, em que tudo flui e tu consegues fazer mais itens do que aqueles que tens na lista de tarefas. E depois há aqueles dias quem que todos os checks estão dependentes, não sabes bem de quê ou de quem. Claro que nestes dias, diz a lei da produtividade que deves assumir com maior responsabilidade e energia tarefas que não são tuas, o pior é quando esses coincidem com dias em que a força não abunda e o teu corpo e a tua cabeça estão noutro sítio, num universo longe daqui.
Hoje é um dia destes, um dia em que me apetece namorar, dançar, beber uns copos com amigos! Posso dizer com clareza o que me apetece fazer, como, onde e com quem. Dias em que a cabeça é de vento e não há dor que me atrapalhe o sentir apaixonada pela vida. Dias em que há amor no ar, que não depende de nada nem de ninguém ao contrário dos checks que quero fazer nas minhas listas. 
Bom fim de semana!!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Vegetarianismo...

Hoje a empregada da casa onde vivo levou uma outra amiga para a ajudar! É comum este tipo de partilha embora eu tenha alguma dificuldade em me habituar a tantas formas de estender a roupa! Quando saía de casa, assim como que envolvida num mistério e aproveitando que eu passava ao seu lado com a efectiva, a auxiliar, perguntou-me a medo e em surdina se vegetariano era uma religião.
Eis uma pergunta surpreendente antes da oito da manhã, fiquei deliciada, e não fosse eu estar a caminho do trabalho, nós as três teríamos ali algum tempo de boa conversa! Por isso tentei resumir a resposta e perceber as motivações.
Não, ser vegetariano não é uma religião embora haja algumas religiões que promovam este tipo de alimentação. Confusas? Um vegetariano commumente não come carne de animais. Depois há aqueles que não comem peixe (que também são animais) e há ainda os que não comem nenhum alimento de origem animal como ovos, leite ou mel (bom aqui os olhos ficaram tão regalados que pareceu que eu confessei um crime horrível). Pode ser uma filosofia de vida e normalmente as pessoas optam por razões de saúde, respeito pelos animais, questões ambientais, de responsabilidade de consumo, gosto ou religião.
Elas ficaram caladas. Conhecem alguém que é vegetariano, mas pelas caras delas continuaram sem perceber as misteriosas razões que levam a essa opção e claro que a religião é a que mais facilmente apreendem. Claramente não lhes tirei todas as dúvidas, fui o mais clara que consegui mas apresentei uma realidade que pura e simplesmente não faz parte do seu referencial e eu nem sequer falei das dietas cruas ou por exemplo das minhas opções alimentares. 
Se alguém estivesse a filmar a cena e lhe tirasse o som, de certo a legandaria como uma reunião secreta de conspiração política, alimentava isto o facto de eu estar com uma dor de garganta monstra e de a Wiliana estar afónica. Afinal estávamos só a falar de opções e possibilidades de escolha que são lógicas e comuns nuns contextos e estranhas e desajustadas noutros. 
Adoro estas diferenças só me aborrece quando elas se reflectem em quase 15 euros por uma embalagem de Mebocaína, estou com esperança de conseguir o mesmo efeito com Moringa, afinal começa pela mesma letra!



quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Direitos...

Trabalho em comunicação para a área da Proteção da Criança num país que ocupa o lugar 177 em 188 países no Relatório Mundial sobre Desenvolvimento Humano de 2016.  
A Guiné-Bissau não chega a ter 2 milhões e habitantes mas tem certamente mais problemas que esses.
Este ano, e já estamos no Natal, as escolas ainda não abriram por paralisação dos professores. Apenas as escolas que não dependem do estado funcionam. 
É possível que as passagens administrativas tenham começado, no princípio deste século, quando Kumba Yalá ordenou que "se passem os alunos e se chumbem os professores", mas a verdade é que não me lembro de um ano escolar sem as paralisações que comprometem, há décadas, a aprendizagem e a progressão dos alunos, condicionando, claro está, aqueles que serão os futuros professores. 
Ontem falava com o Maurício, o guarda nocturno da casa onde vivo, tem três filhos a crescer em Ziguinchor, uma cidade senegalesa próxima da Guiné-Bissau (a mais de 4 horas de carro). E porque estão lá os meninos? Porque lá, há escolas e podem viver com a irmã dele. Falam wolof, aprendem francês e talvez não voltem a Bissau penso eu enquanto o vejo sorrir porque vêm cá passar o Natal.
Claro que a parentalidade é vivida de forma diferente aqui... O filho não é o absoluto que vivemos na Europa, já ser mãe tem um peso para a feminilidade que não reconheço na minha geografia... Há muito mais tias que em Cascais mas garanto-vos que a postura é bem diferente. Este é um processo de socialização e adaptação diferente do meu referencial e sabendo que (o meu), não é o "único" ou o "certo", questiono-me como reagir quando num Centro de Saúde quando mais do que uma mãe se queixa do pai não assumir o filho. "Os homens só querem saber de fazer, não querem saber de mais nada"... Quero acreditar que não será universal esta postura masculina mas é representativa de um tipo de matchundade, porque várias mulheres a verbalizam.
O Maurício diz que tem saudades dos seus gémeos machos e da filha fêmea e eu partilho com ele as saudades dos meus sobrinhos, da pequena Valentina e do energético Salvador, digo-lhe que eles crescem muito rápido. Num português que não domina, assegura-me, com firmeza e doçura que os brancos crescem mais depressa que os pretos. Não quero argumentar sobre formulações que me causam desconforto e calo-me perante a sua convicção. 
Nestes momentos de conversa informal, seja no Centro de Saúde, seja à porta de casa, o que sei é que trabalhar pelos "direitos" das crianças, das mulheres e dos homens é relevante em qualquer parte do mundo. Como tornar esse trabalho, ele próprio, relevante e ajustado é o grande desafio. Ouvir é um passo de gigante que exercito todos os dias. Já era tempo de vivermos todos num mundo que "cresce" ao mesmo ritmo, não vos parece?

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Filme mudo...

Po di sangui é um filme lindíssimo. Vi a primeira vez o filme dobrado em francês sem legendas. Rápido me dei conta que não ir perceber nada daqueles diálogos nem apanhar a complexidade daquela poesia. Não percebi nada de facto.
Pensei que mudaria de filme uns minutos depois mas, surpreendentemente, mantive-me presa à imagem. Um filme belo, com planos lindíssimos que agarram pela qualidade cromática, pelo rigor estético, pelo ritmo e pela beleza cuidada. Uma narrativa feita de imagem e de movimento. Dei por mim a ver um filme "mudo" deliciada com os planos e com as cores. O cinema literalmente como tela.
Realizado por Flora Gomes em 1996, Po di sangui é uma ficção que mostra uma Guiné-Bissau que não existe, transporta-nos antes para um lugar que existe no interior de nós que respiramos este tchon. As cabaças, os panos, as tabancas, as pessoas, os rios, e principalmente as árvores... Um sítio em que por cada pessoa nascida se planta uma árvore, uma árvore gémea de humanos que a eles dá conselho. Um "país" antes dos cajueiros, onde as mulheres se podem apaixonar pelo sol, onde há casamentos por herança e onde os velhos balobeiros não aparecem nas fotografias. Vemos para lá da matéria e ao mesmo tempo cruzamo-nos com almas visíveis como visível é o sangue das árvores que choram a sorte dos seus irmãos humanos.
Visitar esta Guiné é visitar um espaço que existe para lá do constrangimento físico. Ainda assim feito a partir da fisicalidade do trabalho de barro, do cozer dos "pote", do lavar da roupa ou dos caminhos no deserto que nos levam à terra prometida e, no caso do filme, nos levam também à fecundidade e ao colhimento de uma nova vida. Vale a pena ver este filme da mesma forma que vale a pena ver um pôr do sol! Não são precisas palavras, só é preciso estar. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Tatuagens...

Um destes dias uma historiadora com uma vida cheia de histórias disse-me em pleno tchon di Guiné, que não percebia as pessoas que se tatuavam. Disse-me que não percebia a moda, que nunca a percebeu.
Talvez a tenham marcado as descrições da PIDE e as buscas de sinais distintivos para identificar indivíduos suspeitos. Na juventude fora militante de partido Maoista e acérrima lutadora contra o regime, cedo percebeu enquanto investigadora, que as tatuagens não eram uma mais valia para ninguém, principalmente para quem vive a resistência ou a clandestinidade. É uma visão curiosa, esta, a de se resguardar de uma identificação fácil dos PIDES.
Desconhecia ela que no meu corpo habitavam desenhos. Não tenho a memória de nenhuma polícia política, e as tatuagens para mim são uma forma de o corpo me contar histórias, de o ver com cor e formas que gosto e me falam da minha história e de alguns momentos que elegi. São talvez como cicatrizes que faço conscientemente num determinado contexto. Nunca fiz uma tatuagem só por fruição plástica. Até gostava, confesso, mas ainda não me aconteceu. Há sempre uma intencionalidade de contexto, uma marca que quero deixar em mim, uma história minha e da qual só eu sei o enredo.
A última que fiz foi para marcar um novo tempo, redesenhando sonhos do passado. A base é a antiga contudo o envolvimento é fluído e agora é uma forma orgânica, feminina, mais bela, mais minha. É assim também que vejo o novo momento em contraponto ao antigo sobre o qual edifico uma nova e pulsante natureza.
Esta mesma senhora, e nova amiga, perguntou-me com muita naturalidade se tinha namorado ou namorada. Achei tão querida a pergunta e desejei ter eu a mesma naturalidade para a fazer aos futuros desconhecidos com quem me cruzar. Uma outra pessoa, bem mais nova, perguntou-me hoje e sem mais nenhum enquadramento, em que trabalhava o meu marido. Eu ri e apeteceu-me responder, ainda não sei, não o conheço!
Mas depois não fosse ela achar tonta a resposta, respondi claramente que não tinha marido, e à cara de surpresa atalhei, para fim de conversa que vivia sozinha, o que nem sequer é verdade pois se há coisa que eu não vivo, de todo, é sozinha. Enfim, andamos todos a tentar ler-nos, saber-nos, desenhar-nos... Mas não há tatuagem, nem resposta que nos defina ou nos apresente. Há coisas que só o tempo permite ler ou ver, como na história.