sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Check...


Há dias em que tens muito trabalho, em que tudo flui e tu consegues fazer mais items do que aqueles que tens na lista de tarefas. E depois há aqueles dias quem que todos os checks estão dependentes, não sabes bem de quê ou de quem. Claro que nestes dias é a tua responsabilidade que entra em jogo, o pior é quando esses coincidem com dias em que a força não abunda e o teu corpo e a tua cabeça estão noutro sítio, num universo longe daqui.
Hoje é um dia destes, um dia em que me apetece namorar, dançar, beber uns copos com amigos! Posso dizer com clareza o que me apetece fazer, como, onde e com quem. Dias em que a cabeça é de vento e não há dor que me atrapalhe o sentir apaixonada pela vida. Não há um novo amor no ar, há amor no ar, que é uma coisa diferente que não depende de nada nem de ninguém ao contrário dos checks que quero fazer nas minhas listas. 
Bom fim de semana!!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Vegetarianismo...

Hoje a empregada da casa onde vivo levou uma outra amiga para a ajudar! É comum este tipo de partilha embora eu tenha alguma dificuldade em me habituar a tantas formas de estender a roupa! Quando saía de casa, assim como que envolvida num mistério e aproveitando que eu passava ao seu lado com a efectiva, a auxiliar, perguntou-me a medo e em surdina se vegetariano era uma religião.
Eis uma pergunta surpreendente antes da oito da manhã, fiquei deliciada, e não fosse eu estar a caminho do trabalho, nós as três teríamos ali algum tempo de boa conversa! Por isso tentei resumir a resposta e perceber as motivações.
Não, ser vegetariano não é uma religião embora haja algumas religiões que promovam este tipo de alimentação. Confusas? Um vegetariano commumente não come carne de animais. Depois há aqueles que não comem peixe (que também são animais) e há ainda os que não comem nenhum alimento de origem animal como ovos, leite ou mel (bom aqui os olhos ficaram tão regalados que pareceu que eu confessei um crime horrível). Pode ser uma filosofia de vida e normalmente as pessoas optam por razões de saúde, respeito pelos animais, questões ambientais, de responsabilidade de consumo, gosto ou religião.
Elas ficaram caladas. Conhecem alguém que é vegetariano, mas pelas caras delas continuaram sem perceber as misteriosas razões que levam a essa opção e claro que a religião é a que mais facilmente apreendem. Claramente não lhes tirei todas as dúvidas, fui o mais clara que consegui mas apresentei uma realidade que pura e simplesmente não faz parte do seu referencial e eu nem sequer falei das dietas cruas ou por exemplo das minhas opções alimentares. 
Se alguém estivesse a filmar a cena e lhe tirasse o som, de certo a legandaria como uma reunião secreta de conspiração política, alimentava isto o facto de eu estar com uma dor de garganta monstra e de a Wiliana estar afónica. Afinal estávamos só a falar de opções e possibilidades de escolha que são lógicas e comuns nuns contextos e estranhas e desajustadas noutros. 
Adoro estas diferenças só me aborrece quando elas se reflectem em quase 15 euros por uma embalagem de Mebocaína, estou com esperança de conseguir o mesmo efeito com Moringa, afinal começa pela mesma letra!



quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Direitos...

Trabalho em comunicação para a área da Proteção da Criança num país que ocupa o lugar 177 em 188 países no Relatório Mundial sobre Desenvolvimento Humano de 2016.  
A Guiné-Bissau não chega a ter 2 milhões e habitantes mas tem certamente mais problemas que esses.
Este ano, e já estamos no Natal, as escolas ainda não abriram por paralisação dos professores. Apenas as escolas que não dependem do estado funcionam. 
É possível que as passagens administrativas tenham começado, no princípio deste século, quando Kumba Yalá ordenou que "se passem os alunos e se chumbem os professores", mas a verdade é que não me lembro de um ano escolar sem as paralisações que comprometem, há décadas, a aprendizagem e a progressão dos alunos, condicionando, claro está, aqueles que serão os futuros professores. 
Ontem falava com o Maurício, o guarda nocturno da casa onde vivo, tem três filhos a crescer em Ziguinchor, uma cidade senegalesa próxima da Guiné-Bissau (a mais de 4 horas de carro). E porque estão lá os meninos? Porque lá, há escolas e podem viver com a irmã dele. Falam wolof, aprendem francês e talvez não voltem a Bissau penso eu enquanto o vejo sorrir porque vêm cá passar o Natal.
Claro que a parentalidade é vivida de forma diferente aqui... O filho não é o absoluto que vivemos na Europa, já ser mãe tem um peso para a feminilidade que não reconheço na minha geografia... Há muito mais tias que em Cascais mas garanto-vos que a postura é bem diferente. Este é um processo de socialização e adaptação diferente do meu referencial e sabendo que (o meu), não é o "único" ou o "certo", questiono-me como reagir quando num Centro de Saúde quando mais do que uma mãe se queixa do pai não assumir o filho. "Os homens só querem saber de fazer, não querem saber de mais nada"... Quero acreditar que não será universal esta postura masculina mas é representativa de um tipo de matchundade, porque várias mulheres a verbalizam.
O Maurício diz que tem saudades dos seus gémeos machos e da filha fêmea e eu partilho com ele as saudades dos meus sobrinhos, da pequena Valentina e do energético Salvador, digo-lhe que eles crescem muito rápido. Num português que não domina, assegura-me, com firmeza e doçura que os brancos crescem mais depressa que os pretos. Não quero argumentar sobre formulações que me causam desconforto e calo-me perante a sua convicção. 
Nestes momentos de conversa informal, seja no Centro de Saúde, seja à porta de casa, o que sei é que trabalhar pelos "direitos" das crianças, das mulheres e dos homens é relevante em qualquer parte do mundo. Como tornar esse trabalho, ele próprio, relevante e ajustado é o grande desafio. Ouvir é um passo de gigante que exercito todos os dias. Já era tempo de vivermos todos num mundo que "cresce" ao mesmo ritmo, não vos parece?

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Filme mudo...

Po di sangui é um filme lindíssimo. Vi a primeira vez o filme dobrado em francês sem legendas. Rápido me dei conta que não ir perceber nada daqueles diálogos nem apanhar a complexidade daquela poesia. Não percebi nada de facto.
Pensei que mudaria de filme uns minutos depois mas, surpreendentemente, mantive-me presa à imagem. Um filme belo, com planos lindíssimos que agarram pela qualidade cromática, pelo rigor estético, pelo ritmo e pela beleza cuidada. Uma narrativa feita de imagem e de movimento. Dei por mim a ver um filme "mudo" deliciada com os planos e com as cores. O cinema literalmente como tela.
Realizado por Flora Gomes em 1996, Po di sangui é uma ficção que mostra uma Guiné-Bissau que não existe, transporta-nos antes para um lugar que existe no interior de nós que respiramos este tchon. As cabaças, os panos, as tabancas, as pessoas, os rios, e principalmente as árvores... Um sítio em que por cada pessoa nascida se planta uma árvore, uma árvore gémea de humanos que a eles dá conselho. Um "país" antes dos cajueiros, onde as mulheres se podem apaixonar pelo sol, onde há casamentos por herança e onde os velhos balobeiros não aparecem nas fotografias. Vemos para lá da matéria e ao mesmo tempo cruzamo-nos com almas visíveis como visível é o sangue das árvores que choram a sorte dos seus irmãos humanos.
Visitar esta Guiné é visitar um espaço que existe para lá do constrangimento físico. Ainda assim feito a partir da fisicalidade do trabalho de barro, do cozer dos "pote", do lavar da roupa ou dos caminhos no deserto que nos levam à terra prometida e, no caso do filme, nos levam também à fecundidade e ao colhimento de uma nova vida. Vale a pena ver este filme da mesma forma que vale a pena ver um pôr do sol! Não são precisas palavras, só é preciso estar. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Tatuagens...

Um destes dias uma historiadora com uma vida cheia de histórias disse-me em pleno tchon di Guiné, que não percebia as pessoas que se tatuavam. Disse-me que não percebia a moda, que nunca a percebeu.
Talvez a tenham marcado as descrições da PIDE e as buscas de sinais distintivos para identificar indivíduos suspeitos. Na juventude fora militante de partido Maoista e acérrima lutadora contra o regime, cedo percebeu enquanto investigadora, que as tatuagens não eram uma mais valia para ninguém, principalmente para quem vive a resistência ou a clandestinidade. É uma visão curiosa, esta, a de se resguardar de uma identificação fácil dos PIDES.
Desconhecia ela que no meu corpo habitavam desenhos. Não tenho a memória de nenhuma polícia política, e as tatuagens para mim são uma forma de o corpo me contar histórias, de o ver com cor e formas que gosto e me falam da minha história e de alguns momentos que elegi. São talvez como cicatrizes que faço conscientemente num determinado contexto. Nunca fiz uma tatuagem só por fruição plástica. Até gostava, confesso, mas ainda não me aconteceu. Há sempre uma intencionalidade de contexto, uma marca que quero deixar em mim, uma história minha e da qual só eu sei o enredo.
A última que fiz foi para marcar um novo tempo, redesenhando sonhos do passado. A base é a antiga contudo o envolvimento é fluído e agora é uma forma orgânica, feminina, mais bela, mais minha. É assim também que vejo o novo momento em contraponto ao antigo sobre o qual edifico uma nova e pulsante natureza.
Esta mesma senhora, e nova amiga, perguntou-me com muita naturalidade se tinha namorado ou namorada. Achei tão querida a pergunta e desejei ter eu a mesma naturalidade para a fazer aos futuros desconhecidos com quem me cruzar. Uma outra pessoa, bem mais nova, perguntou-me hoje e sem mais nenhum enquadramento, em que trabalhava o meu marido. Eu ri e apeteceu-me responder, ainda não sei, não o conheço!
Mas depois não fosse ela achar tonta a resposta, respondi claramente que não tinha marido, e à cara de surpresa atalhei, para fim de conversa que vivia sozinha, o que nem sequer é verdade pois se há coisa que eu não vivo, de todo, é sozinha. Enfim, andamos todos a tentar ler-nos, saber-nos, desenhar-nos... Mas não há tatuagem, nem resposta que nos defina ou nos apresente. Há coisas que só o tempo permite ler ou ver, como na história. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Refugiados...

Muito ouvimos falar de refugiados. Toca-nos a dor de quem foge da guerra, toca-nos quem é obrigado a sair do seu país por razões políticas, religiosas ou questões económicas. Embora não seja verdade, podemos dizer que a guerra, a economia ou os interesses políticos ou religiosos, não são da nossa responsabilidade. Que pouco podemos fazer contra os radicalismos religiosos, as guerras étnicas ou de disputa de poder.
Mas como encaramos nós hoje os refugiados ambientais?
O direito internacional dá estatuto de refugiado a quem foge de guerra ou perseguições, pessoas forçadas a sair do seu território por causa das mudanças climáticas não são protegidas pela lei. 
Como olhamos nós para alguém que tem de abandonar a sua casa porque as águas sobem? Por causa de secas prolongadas ou catástrofes naturais? 
As águas não sobem de forma natural sobem porque a acção de todos os homens condiciona o clima e faz com que a temperatura suba, consequentemente nesta forma redonda em que nos equilibramos, se a temperatura sobe a água sobe e populações inteiras têm de procurar novos territórios aos quais possam chamar casa.
Pensar que estão previstos 200 milhões de refugiados climáticos num futuro próximo é assustador. Países como Bangladesh, Malaui, Haiti ou Guiné-Bissau vivem esta ameaça de precariedade, pobreza e vulnerabilidade. 
Os refugiados climáticos são originários tendencialmente de países com baixas emissões de dióxido de carbono, países que eles pro si só não conseguem mudar o curso da história. Não é uma política interna que altera a situação, não é plantar mangal, ou outras árvores que vai ajudar a que a água não galgue os muros, não inviabilize os campos.
É uma política global para a qual eles são completamente invisíveis ou despresaveis que tem de ser responsabilizada. Somos nós que circulamos nos ditos espaços civilizados que temos de ser responsabilizados. Responsabilizados pelo lado descartável da nossa vida que faz a jusante que haja gente que se sente descartável, esquecida por todos e fique submersa. 
Costuma-se dizer: estás mal, muda-te. Mas neste caso não há nada mais injusto. Porque devíamos dizer: estás mal? Então vamos mudar todos. 
Só uma mudança global e concertada fará a diferença. Já não basta agir local. 
Mudar a forma como vemos o consumo, como elegemos os políticos, como governamos a terra, como usamos do dinheiro... E se a temperatura continuar a aumentar, ou a água continuar a subir, vamos dividir o que temos com quem tudo perdeu. 
A Guiné-Bissau verá em breve os seus primeiros refugiados climáticos, cerca de 50 famílias vão sair de Jobel, uma tabanca (aldeia) no norte, porque deixam de ter terra para cultivar perdem as condições para viver na sua casa de sempre, para viver na terra dos seus antepassados e onde estão enterrados os seus mortos.  Elalab uma outra tabanca lindíssima que tive oportunidade de conhecer vai desaparecer mais ano menos ano se as condições climáticas não se inverterem.
Esta gente não se enquadra na categoria de simples deslocados, são vítimas de todos nós, são vítimas das opções de outros. Estes países e todos nós temos de exigir ao mundo maior responsabilidade e uma mudança de comportamento consequentemente e global. Agir local é importante mas não basta agir local. Não basta mudar as condições dos países que vão desaparecer, das famílias que vão mudar de casa. Temos de mudar como povo global se queremos continuar a ser "vários"!

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Internet...

Cheguei a Bissau de noite, bem de noite. Um dia acabava de terminar e outro tinha origem na escuridão, o sol esse só despertaria daí a uma mão cheia de horas. 
Por uma noite ficaria num quarto de hotel, o meu primeiro quarto de hotel em Bissau depois de dois anos a viver ao lado do Jeba. 
Era uma experiência nova que vivia com atenção. O quarto com preço de várias estrelas, pouco brilhava, mais parecia uma pensão de filme antigo. 
A última coisa que perguntei ao recepcionista foi a password da Internet e segui com a chave na mão. 
Abri as malas para retirar o essencial, pijama, escova e pasta dos dentes, sabonete e a roupa do dia seguinte. Tudo arrumado em sacos de pano e bolsas de fecho ajudava a tarefa, rapidamente estava pronta para pegar no telefone e dar notícias ao mundo. 
Tentei a pass, que pela simplicidade,  trazia na cabeça, por uma e outra vez. Nada funcionava. Experimentei de várias maneiras e nada. Deixei o cansaço no quatro, atravessei o corredor, desci dois lances de escadas e voltei a acordar o recepcionista. Não consigo aceder à Internet. Ele olhava para mim e repetia que a pass wi-fi era aquela. Uma e outra vez tentei à frente dele e nada acontecia, dava sempre sinal de incorrecta, mostrava-lhe a mensagem e todos os procedimentos e ele continuava a olhar para mim como se o problema fosse meu. Pedi para falar com alguém que ajudasse. Nada... A password é essa. A verdade é que não era e ele não podia fazer mais nada a não ser repetir como uma cassete um conjunto de letras e número que o telemovel rejeitava. Fiquei aborrecida. Pedi para me resolver a situação, mas segundo o homem que tinha à frente, não havia nada para resolver. Insisti, apelei ao bom senso, mostrei-lhe o meu lado, a minha frustração... Lutei pela net que nunca me chegaria. Desisti conformada com a ideia de dormir mais cedo. Fui deitar-me sim, mas não adormeci mais cedo, porque a excitação do dia fervilhava em todas as veias mais que o calor húmido do qual a pele se tinha esquecido, virei para um lado, para o outro... Os barulhos, os cheiros, o desconhecido, tudo se juntava ali e mantinha-me desperta. Não sei a que horas adormeci. 
Acordei cedo. Tomei banho, vesti-me, fechei as malas e desci para o pequeno almoço. Meia dúzia de chávenas, água quente, leite, um concentrado de sumo de laranja, dois croissants, metades de "cuduro" (um tipo de baguete), pacotinhos de manteiga e algumas fatias de fiambre.
Desejei fruta fresca e um copo de água. A fruta percebi ser uma missão difícil, mas pela água perguntei. O mesmo recepcionista da noite, que era agora chefe de sala, disse que não havia. Podia comprar por "mil fran". O olhei para ele, pequei na carteira e dei-lhe o dinheiro. 
Antes da água chegar para me arrefecer o chá e matar a sede, pensei que não reclamei nada da água. Não insisti que deviam ter água para os hóspedes da mesma forma como tinham leite ou sumo manhoso. E veio-me à cabeça a noite anterior. Pela net voltei a sair do quarto, mostrei o meu ponto de vista. Reclamei uma expectativa em relação a um serviço... Agora com a água, que é muito mais essencial que a net ou faz melhor que o leite ou o concentrado de sumo... Com a água, pequei na carteira e paguei mil francos sem reclamar. Sem mostrar ao senhor o quanto é básico arrefecer o chá com água fria ou quanto gosto de beber um copinho de água pela manhã. 
Enfim, lutamos pelo que queremos e nem sempre lutamos pelo essencial. 

Dá-me tanto jeito a net, mas o que me faz mesmo falta é a água.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Fim...

Nunca mais te quero ver. 
Quero que nem o meu nome saia da tua boca, que não mais o lembres, pronuncies ou escrevas e acredita que eu farei o mesmo com o teu. Para mim serás para sempre um falecido.
Quando pressentires que venho numa rua, atalha caminho e segue em direção oposta, acredita que eu farei o mesmo. 
Quando digo nunca mais é mais que nunca. Quando souberes que eu morri peço-te que nem ao meu funeral compareças.
Se de outras vidas viemos, em mais nenhuma nos voltaremos a encontrar. Porque é de morte real que aqui falo. Não mais seremos amigos, nem conhecidos nem nada. Não mais seremos nada um para o outro, e essa é a única alegria desta história e tem um nome, chama-se liberdade, tem um sentimento e chama-se paz.
Quando digo nunca mais é muito mais que nunca, é para sempre. E agora posso dizer o quanto isso é bom. Sem adeus, sem nada.
Finalmente.
Fim.





terça-feira, 21 de agosto de 2018

Alfarrabista...

O senhor António é um alfarrabista que costuma fazer entre outras, a feira de velharias em Colares, ao domingo. Um homem maduro com muita experiência e muitos livros. 
Atrás da sua banca queixa-se de que as pessoas não lêem. Quando lhe falo de outras formas de leitura, olha-me com cepticismo, para ele a internet é apenas uma ferramenta de consulta e não acredita nos livros lidos nos tablets. - Hoje as pessoas lêem menos, sim! 
Há uns anos fazia esta feira e só voltava com metade da mercadoria para casa, agora é diferente, um destes domingos apenas vendeu um livro por cinco euros, os Contos Exemplares da senhora dona Sophia. Sim porque Sophia de Mello Breyner Andersen é das poucas a quem se pode chamar senhora dona, há muitos, segundo o senhor António, que nem o nome merecem. Não me apeteceu aprofundar essa opinião e por isso deixei esmorecer o assunto. 
- Um dos problemas de hoje é o armazenamento, disse-me ele. 
Tem uma primeira edição de um Vitorino Nemésio que mantém perto de si para não ser tocado por qualquer um. Vejo que gosta de livros. Sabe o que tem e trata-os com amor. Tem coisas interessantes sim.
Na sua biblioteca de casa tem todos os Diários do Torga e digo-lhe que essa é uma das coisas que temos em comum, mesmo se, os meus diários, também devido ao problema de espaço, estão armazenados no sótão de um amigo. Os livros do negócio do Senhor António estão em garagens que eu imagino que ele gosta de encher e ao certo não consegue saber o que tem lá. Ainda assim continua a comprar. Esta semana comprou num recheio de uma casa uns quatro sacos, daqueles grandes de supermercado cheios de coisas boas, e eu imaginei que foi de lá que veio o Vitorino.
A banca está organizada por autores e isso facilita. Mesmo se não sabe de cor o que tem nas garagens, conhece os livros que andam com ele há meses e aqueles que chegaram ontem. Sabe o preço dos livros novos e envaidecesse com o estado impecável dos seus.
Como está no fundo da feira tem de fazer montra para chamar os clientes e por isso comprou um serviço de Limoges, não porque lhe interesse a porcelana francesa mas por estratégia comercial.

Perguntou-me se era adepta de presépios e com isso mostrou-me uma peça feíssima como se de uma relíquia se tratasse. Eu disse-lhe que, não só era adepta, como jogava nessa equipa, mas não estava à procura de presépios. Em alternativa mostra-me uns bonecos chineses de madeira, e um conjunto de figuras pequeníssimas da América Latina que comprou só porque gostou. Conhecia cada uma das peças expostas ou essa era mais uma forma de vender, e eu fiquei ali a ouvi-lo falar das suas coisas, a ouvi-lo a falar com os seus clientes. Voltará no próximo domingo e faz questão de dar motivos aos seus clientes para voltarem também.
Um dos problemas deste negócio é a liquidez, hoje ele precisa mesmo de fazer dinheiro por isso os livros que eram a oito euros passam a cinco. Falámos de promoções para escoar stock e falámos do Torga. Eu teria ficado ali mais umas horas a aprender com ele. Para a próxima volto para lhe falar do Appadurai e do livro sobre o Irão que lhe comprei. É assim que fazem os clientes habituais e por isso ele domina tantos temas e conhece tantos livros. Um dia quando tiver ido ao Irão passo lá para lhe contar como foi e para lhe dizer se o livro que trouxe da sua banca era mesmo bom. Por agora continuo a alimentar o sonho de conhecer por dentro o Irão mesmo se viajo para lá apenas nos livros que leio e nas pesquisas da Internet.
Obrigada senhor António, pela viagem. Até breve. 





segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Permanecer...

Andamos a tentar encontrar tantas coisas novas e surpreendentes, e as vezes o segredo é só permanecer.


Esta foi a grande lição da festa da aldeia do meu pai. Festa em honra de São Sebastião como pretexto de baile com organista e quermesse para as obras da Igreja dos Meios no Parque Natural da Serra da Estrela. 

Aprendi isto a dançar com o meu tio, com o José Teles, com a Ana, com a Angelina. Aprendi isso no sorriso e na calma da minha tia que me introduz como "a filha do Pedro" e na dedicação da mordoma que por promessa organizou a festa sozinha. 
Aprendi isto nas conversas com o Carlos, a Manuela, o Tó Bé, o Antero e com todos os que me sorriram ao som de um passado que me trouxe até aqui. 
Acolhi com espanto e sintonia uma herança que quero honrar, o gosto pela dança do meu pai, a alegria da minha avó que ao som do seu adufe animava as noites de São João. Uma memória construída é certo, construída na partilha com quem, sem me conhecer, me diz que sou daqui só de olhar para a minha cara, mesmo que não acredite na idade que lhe digo ter. Uma memória que construo olhando para o tear onde teceu o meu avô ou falando com uma menina que veio cedo encher canelas e mais tarde passou a urdir. Isto não se aprende em escolas ou museus nem se aprende com os nossos, aprende-se na casa que no fim da festa se abre para oferecer uma fatia de bolo (duas aliás) e sem olhar para o relógio insiste num brinde ao próximo ano, aprende-se nas conversas de café e com os cheiros do caminho.
Se não tivesse vindo, se não tivesse permanecido num baile que parecia terminar, se não tivesse dançado, sorrido ou conversado, nada disto seria possível. Se não tivesse permanecido esta história não permanecia em mim. Se não tivesse permanecido esta história não se teria construído, eu não me teria construído. Nada se teria perdido mas eu não teria ido um pouco mais ao encontro de mim.


sexta-feira, 27 de julho de 2018

Sinais...

Procurava o Centro de Saúde. Estava na rua certa não conseguia encontrar era o sítio.
Percorri aquilo que mais tarde percebi ser metade da rua, quando, pensava tê-la feito toda. Não havia sinal do Centro de Saúde. Estacionei o carro no início da rua. E decidi fazer a pé o caminho feito de carro. Comecei do início da rua olhando atentamente um lado e outro à procura de placas ou sinais que me dessem pistas, que me indicassem que estava no sítio certo. Nada dava sinal. 
Parou um carro. Um homem de barba branca óculos escuros e boné chamou-me.
- O que procura menina. Anda perdida? Percebi que estacionou ou carro e vejo-a desorientada. Posso ajudar? 

Sorri para ele. - Não estou desorientada, sei que a rua é esta, mas não encontro o Centro de Saúde.

Ele continua a sorrir confirmando que estou na rua certa, de facto. - Encontra o que procura a uns 300 metros à sua direita. É um espaço bonito com árvores e até pode levar o carro. Está calor para ir por baixo deste sol do meio dia. Mas andar faz bem. Não é longe.
A sorrir deixou que eu decidisse como chegar lá, desejou-me muitas felicidades e seguiu a vida dele. Eu optei por seguir a pé e fiz o caminho confiante e alegre até ao meu destino.


Esta é uma metáfora de muitos momentos da nossa vida. Sabemos onde queremos ir, estamos perto do que queremos alcançar mas andamos à toa procurando sinais que não encontramos. E depois alguém se dá ao trabalho de chamar, de nos sorrir, de se aproximar de nós. Esse gesto de generosidade, atenção e comunicação permite que continuemos o caminho seguros e sorridentes, com o foco e com a confiança nos espaços bonitos e com sombra que nos esperam no pico do Verão. 

Tocou-me a disponibilidade deste homem, o ter abrandado o carro numa cidade onde toda a gente apita a quem vai mais devagar. Toca-me a disponibilidade de todos os abraços, de todos os olhares e de todas as palavras que me dão alento para continuar. Sem elas fazemos caminho, até podemos fazer o mesmo caminho, mas seguramente não o fazemos da mesma maneira, com a mesma alegria, com a mesma firmeza ou rapidez.
É a generosidade de quem pára e a abertura de quem se deixa ver desorientado, que permite a conexão quase mágica e invisível que faz andar o mundo de forma mais segura, alegre e confiante.
Que nunca desperdicemos uma oportunidade de perguntar: Posso ajudar? E nunca desperdicemos uma oportunidade de responder: Sim, claro que pode!

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Dermografismo...

Um destes dias numa conversa sobre estética, depilação e pele, uma senhora perguntava-me se eu tinha dermografismo. Calei-me e ri-me pela pergunta e porque não sabia exactamente o que me perguntava. Interiormente respondi que sim, exteriormente a senhora comprovou, pelo toque, que não, e desta vez foi ela a rir aliviada.
No caminho para casa concluí que na verdade tenho dermografismo, não o dermografismo que ela me perguntou, não tenho nenhuma reação alérgica ou uma hiper-reação local à pressão que provoque inchaço ou que se deixe marcas de irritação. Tenho um outro tipo de "skin writing", ou seja, podia dizer à senhora que a vida escreve-me na pele sim.
Tenho marcas que não passam com anti-alérgicos, pomadas ou gelo. Há marcas que fui eu que desenhei, marcas tatuadas com palavras, há marcas de flores coloridas para alegrar os dias e há outras marcas que a vida deixou, arranhões que não escolhi e dos quais assumo parte da responsabilidade. Há macas de roupa apertada ou de vincos de lençóis. Há marcas de biquini e de creme mal espalhado deixadas por um sol que queima. Há marcas de Verão e marcas de Inverno, cicatrizes, manchas e olheiras.
Há sinais escuros, pontinhos pretos com e sem relevo que mais parece o inverso de um céu estrelado, pontinhos de diferentes tamanhos que muitas vezes me apetece unir. Pontinhos com os quais crio as minhas próprias constelações. E nesse sentido tenho dermografismo sim, porque esses sinais ou desenhos, marcas, cicatrizes ou nódoas negras não são sempre os mesmos, vão crescendo ou mudando com o tempo, e vão orientando-me o caminho como as estrelas. Sei, a partir das marcas que carrego, o que me amarrota, queima ou dá cor, sei principalmente para onde quero ir. Oriento a minha navegação por elas, mostram-me o norte e mostram quando é tempo de parar.
A pele que visto serve-me na perfeição e conta uma história que só eu sei ler.


segunda-feira, 23 de julho de 2018

Janelas...


Da minha janela vêm-se outras janelas. Dou por mim a pensar o quanto gosto de janelas. Vejo uma mulher a vestir-se, vejo camas feitas e por fazer. Vejo que neste frenesim de alugar quartos no centro de Lisboa os chariots ganham espaços e dão espaço aos quartos pequenos habitados por gente bonita. Gente que não tem problemas em fechar janelas, gente que deixa que a luz e os olhares possam entrar em espaços que dantes eram muito mais íntimos. Gosto de janelas e de portas... Gosto portanto de construções, gosto do que se edifica e se abre ao mundo.
É mesmo a abertura do edificado que me encanta. Construir para a abertura desafia, interpela e cria relação. Uma relação sem palavras. Uma relação sem toque. Uma relação de luz e de olhar. É por isso que não fecho as minhas janelas. Deve ser por isso que acordo com a luz do dia e não sinto necessidade de estores na maior parte dos dias. Estes são os dias bons, os dias em que a luz entra sem barreiras e me ilumina os sonhos e os desejos de ver cada vez mais longe e mais claro onde quer que me construa.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Portas...

Há dias na vida em que fechar a porta com as chaves lá dentro é a melhor coisa que pode acontecer. É um acto duro e solitário, feito com coragem, consciência e intencionalidade, um gesto contra-natura porque não ficam lá dentro por esquecimento, descuido ou desatenção. Ficam dentro porque não queres voltar a abrir aquela porta. Porque aprendeste na carne que não faz sentido voltar a entrar em espaços que não estão preparados para te acolher.
Não é o mesmo que sair para comprar cigarros e perder-se no mundo com as chaves no bolso. Sempre podes voltar e sempre alguém te esperará.
Sair e deixar as chaves lá dentro é entrar no mundo de mãos livres para agarrar o novo e o inesperado, sem pontas por coser ou rabos por esfolar.
Há dias na vida que temos de fechar portas para nunca mais as abrir, sem "mas", "talvez", ou "quem sabe" e seguir em frente sem nada nos bolsos, sabendo-nos apenas a voltar para nós próprios e para o Amor que nos espera sempre, sem portas.


sexta-feira, 15 de junho de 2018

in memoriam...

Fui ver um filme poético, daqueles que nos fazem sair do cinema a acreditar que o mundo vai ser melhor. Não há nada de mal em reduzir a vida a bons e maus e ver os bons ganharem. Na verdade, simplifica muito esta complexa realidade que habitamos diariamente. Tal como nos contos de fadas, só faz sentido que os bons sejam felizes para sempre e que o mal seja apaixonadamente derrotado. 
Também gosto de ir ao cinema para sonhar e descansar nas coisas belas.
A cereja no topo do bolo é sair da escuridão da sala e encontrar as ruas iluminadas com aquela luz amarela que nos aquece a imaginação por baixo de um céu que ainda não se despediu da luz do sol. Um céu claro, sem sombras que nos faz ver mais longe sem franzir os olhos, um céu que perdendo a energia do sol se deixa tranquilamente aquecer pela iluminação pública desejosa de dar brilho aos sonhos de quem passa.
O eléctrico segue estranhamente vazio, eu decido fazer parte do caminho a pé. Perto de casa sento-me no jardim a conviver mais um pouco com as luzes das dez da noite, admirando um céu que escurece sem pressa, desejando imitar-lhe o ritmo.
O jardim a esta hora é habitado por donos solitários atrelados a cães, só estes últimos com vontade de socializar e por cinco crianças que repartem entre si duas bicicletas. Fiquei feliz por ver crianças entre os 9 e os 11 anos a brincarem sozinhas na rua àquela hora. São daquelas crianças atinadinhas de óculos e roupa jeitosa que não são nem miúdos do gueto nem betos. São miúdos sem rótulos que encaixariam em qualquer definição de miúdos "normais", se isso fosse uma coisa que existisse. 
Andavam de bicicleta à vez seguindo uma ordem de inscrição informal baseada na vontade de uns e outros, dando voltas ao jardim.
A Madalena estava agora em cima a bicicleta, sem sair do mesmo sítio. O amigo gritou lá de baixo querendo saber o que se passava.
Ela respondeu: Isto é uma merda!
Ele sorriu, e perguntou se isso se dizia? E que raio de merda estava ela a fazer?
Ela respondeu com convição: A minha vida é uma merda.
Ele voltou a sorrir e perguntou-lhe divertido: Não são todas as vidas uma merda?
No meio desta pergunta ela ganha algum balanço, porque o jardim não é plano, é inevitável começar a ganhar velocidade. Quando passa à minha frente ouço-a confidenciar com a bicicleta que "desaprendeu de andar", e logo o declive se acentua e lá vai ela ganhando velocidade e controlando a trajectória com desembaraço, que o jardim exige que saiba virar e usar os travões.
Os miúdos continuam a brincar e a falar alto, mas eu já não os ouço. Fiquei-me na "merda" de vida de duas crianças de 10 anos e no "desaprender" de andar de bicicleta daquela miúda bonita.
Claro que ela não desaprendeu de andar, apenas duvidou que sabia, claro que a vida deles não é uma merda, apenas não têm consciência disso. E isto acontece com miúdos "normais", com adultos "normais", com todos. Duvidar do que somos capazes, duvidar do que já carregamos dentro, faz-nos pensar que vivemos na merda. Não há nada como a bicicleta dos amigos e uma boa descida para nos avivar a memória e nos fazer usar de forma natural e divertida o que nunca nos poderá ser tirado. 


in memoriam do Tomé (1984-2018)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Fachadas...

O senhor Jonas bateu à porta para pedir água e electricidade para as obras do prédio. É o encarregado da remodelação da fachada, simpático e educado que me trata por "senhora" e agradece sempre com extrema delicadeza e cortesia.
Não é fácil resolvermos a falta de electricidade e de água do condomínio, mas eu digo-lhe que havemos de encontrar a melhor solução (mesmo se ainda não sei qual será, ou até, se não existe de facto nenhuma solução cómoda que dependa de mim). Ele sorri a esta esperança e subitamente lembra-se que hoje não é dia de sorrir. 
- "Desculpe senhora, eu estou a rir, mas eu estou muito triste."
Mataram o sobrinho do senhor Jonas. 
As lágrimas escorrem pelo rosto moreno e são amparadas pelas mãos calejadas de pedreiro experiente. O senhor Jonas é brasileiro e trabalha em Portugal há 3 anos. A família continua no Brasil perto de Vitória no estado de Espirito Santo e ontem, no telefonema regular que faz para esposa, recebeu esta notícia.
O filho do irmão tinha 16 anos e foi assassinado. O senhor Jonas assegura que ele não se metia com drogas e era um miúdo que gostava muito de estudar, como se isso fosse o mais importante. Não me interessam os pormenores nem a bidimensionalidade da vida arrumada em bom ou mau, nem as curiosidades de tamanha brutalidade. Toda a morte é uma brutalidade. Seguro-lhe no braço e fico ali a ouvi-lo fazer o luto com uma desconhecida. 

Fala-me de quando o sobrinho era pequeno e ia ter com ele ao trabalho, faz o gesto para mostrar um menino de 80 cm "a pegar numa latinha com água e fingir fazer massa, ele brincava, dava-nos ânimo e nós a ele", suspira. "Hoje era um rapaz alto, bonito, olho azul, pele clara... Ninguém dá a vida e por isso ninguém devia tirá-la. Só Deus. Que Deus faça aqueles bandidos mudarem de vida". 
O senhor Jonas tem uma idade indefinida que eu imagino ter a forma do número sessenta. O que me disse no início destes trabalhos é que veio para Portugal em busca de uma vida melhor e mais segura, por causa da violência na sua cidade e que espera este ano trazer a sua família. Contou, na altura, a história de algumas mortes e assaltos violentos no seu bairro, na sua rua...
Hoje percebo que nunca antes havia sido assassinado ninguém tão próximo, mesmo tendo visto morrer alguns vizinhos. O senhor Jonas está triste, era chegado ao sobrinho e a distância amplia a tristeza da sua família, do seu querido irmão e de toda esta desgraça. 

O senhor Jonas está a trabalhar, como todas as segundas-feiras, e quem passa na rua e o vê energético a fazer cimento para revestir a fachada do prédio não imagina o que lhe vai por dentro. Nem eu, que lhe segurei o braço e lhe vi as lágrimas, consigo saber o que o habita. Imaginar o que vai dentro dos outros requer ir dentro de nós e revisitar as nossas histórias, as divisões onde guardamos experiências parecidas. Fui lá buscar referências para esta dor e lembrei as minhas perdas. Também me tocou aquela perda. 
Continua a ser importante tratar das fachadas. E para mim continua a ser cada vez mais importante "espreitar" lá para dentro, como permitiu hoje o senhor Jonas. Obrigada pela confiança.