terça-feira, 17 de janeiro de 2017

De_coração...


Já ouviram falar da África Ocidental? É composta por 16 países, Benim, Burkina Faso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Libéria, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo. Dados da Wikipedia.
Uns são banhados pelo oceano atlântico, outros pelo deserto do Saara, outros pelas outras Áfricas irmãs. Esta é uma parte da África subsariana, uma parte de uma África que também é chamada de África Negra.
Uma miscelânea de culturas, etnias, histórias e um exagero de terra, céu e gentes…
Já ouviram falar de O Livro da Selva? Foi escrito em 1894, treze anos antes de Rudyard Kipling ganhar o prémio Nobel, o autor indiano que cresceu numa família inglesa, (tal como o Mogli cresceu com uma família de lobos). Há cinquenta anos a Walt Disney estreia o filme que adaptou parte do livro ao cinema. Conhecemos a selva indiana onde o Mogli cresceu.  Um menino corajoso que respeita a natureza e está do lado do bem… Defende com a sua vida valores como o fidelidade e o amor por quem sempre o ajudou, e sabe comunicar com animais.
A história é bonita e encantou… Influenciando os da minha geração e da minha cultura, maravilhados por pequenos “tarzans”, bons selvagens que nos aconchegam as mantas e habitam os sonhos, saltando livres e felizes de liana em liana.
E este é o meu enquadramento… Um clássico que ofereço ao meu afilhado quando o encontrar a bom preço numa feira do livro.
E depois desta introdução, entro no melhor hospital pediátrico de Bissau, e o que é que eu encontro?
Claro está! O Mogli, os seus amigos e muitos dos desenhos da Disney como o rato Mickey, a Mini, o pato Donald, e tantos destes intemporais clássicos das nossas vidas.
Eu percorro o hospital e a cada parede ver o Mogli e mais tarde encontrar uma menina que deve ter saído de uma versão falhada dos gremlins, deu-me assim um certo mau estar… E não era eu que estava doente.
Respira miúda e bebe água, o melhor remédio para tudo, diz-me sempre uma das minhas metades. Claro que não há em Bissau espaço melhor que este, mais arrumado, limpo e colorido, onde tudo está o melhor possível com duas grandes televisões e comodidades que fazem sentido em qualquer espaço na Europa.
E como é bonito ter havido um voluntário generoso (sim porque se este fosse um trabalho pago a minha outra metade estaria a hiperventilar) que tirou dos seus dias na fria Europa para pintar as paredes e construir com o seu tempo e dedicação o melhor hospital pediátrico de Bissau. O Walt Disney escreveria a partir daqui, uma bela história de amor por África e pelos pobrezinhos. Mas como já morreu vou continuar eu a dizer o que exigia ar e água.
Ninguém se terá questionado de ter uma criatura descorada, como o Mogli, num hospital da África Negra? Ninguém alguma vez pensou que isto pouco tem a ver com as referências das crianças que nunca viram um filme e estão demasiado longe das selvas indianas desenhadas por americanos? 
Não claro que não, imagino eu, num diálogo entre as duas que me habitam (feliz por aquele não ser um hospício, se não já por ali ficava). A outra de mim diz-me:
- Repara que os miúdos vêm coisas giras e coloridas, que todos os meninos em toda a parte do mundo vêm e gostam.
- Hummmm, não sei, talvez tenhas razão... Mas tu sabes que os elefantes Indianos são diferentes dos Africanos e os podemos distinguir pelas orelhas? E tu sabes que há histórias de meninos africanos que também podem ser contadas? Conheces o Kiriku, talvez fosse mais ajustado, se era um elemento decorativo que se procurava?
- Não comeces a inventar, está ou não está bonito?
- Está limpo, sim… E muito perto que do que eu costumo ver em Portugal ou Itália, em qualquer infantário suburbano e por isso me "entra" bem… Mas também me choca, choca-me porque estas crianças têm poucos estímulos visuais e todos os que "vêm salvar África" têm de fazê-lo pelo mais alto patamar e não pelo mínimo denominador comum. 
É preciso que estas crianças em vez de ursos polares e peixes balão vejam também as tartarugas verdes que desovam em Poilão, ou os hipopótamos de Orango. Se queres uma floresta fala-lhes dos Matos de Cantanhez, último reduto das florestas húmidas, e se queres uns macacos mostra-lhes os que passeiam nas savanas do Boé ou os Chimpanzés de Cufada. Podes fazer "mobiles" ou desenhares os milhares de pássaros coloridos e surpreendentes que passam por aqui todos os anos. E peixes? Queres falar comigo de peixes num país com mais de oitenta ilhas? Se queres estimular a relação e aliviar os tempos de espera, desenha “twists” no chão ou nas paredes para que brinquem com os pais e se distraiam estreitando laços. Se queres decorar os espaços, então usa jogos de cores onde eles descubram formas, nuvens onde inventem histórias e texturas onde se possam perguntar…
E lá estava eu embalada a falar comigo como se fosse a outra metade de mim que tivesse desenhado o Mogli e a prima dos gremlins, e na verdade foi. Foi alguém como eu que o fez, com muito boa vontade e a melhor das intenções, alguém que tem a minha cor mental (mesmo que não seja por fora), alguém que tem um jeitinho parecido com o meu e gosta de intervir nos espaços… Alguém que teve o azar de não estudar na mesma escola e a sorte de não ter a minha outra metade, que me dá sempre na cabeça e me faz perguntar para que serve isto tudo? É relevante para quem? Acrescenta o quê aos outros?
E depois ficamos as duas a olhar uma para a outra e a fã do Mogli diz com um sorriso feliz e confortado pela obra feita – É para ficar bonito e toda a gente gosta!
- E porque é que não fica? Olha bonito, bonito era ires pintar isto para o teu quarto, isso é que era bonito. E mais bonito era olhares para o que te rodeia com outros olhos, mas preferes fazer como o chimpanzé que tira o peixe da água para que não morra afogado… e não digo mais nada que felizmente chegaram os resultados das análises e já podemos ir embora. 
Não é paludismo.








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