terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Tabancas...


Nas tabancas (assim se chamam as aldeias, os povoados na Guiné-Bissau) ao anoitecer começa uma outra vida, ou a vida continua de forma ainda mais surpreendente para mim.
Não há eletricidade. A luz vê-se na boca ou na mão das pessoas que transportam telemóveis, lanternas solares ou a pilhas que lhes iluminam os passos ou os cumprimentos.
A tabanca é salpicada por pequenas fogueiras. O fogão de cada um está à vista de todos. Sobre a terra batida, três pedras grandes suportam uma panela preta por fora onde fervilha algo aquecido pelo fogo que crepita dos paus que se arrumam entre as pedras.
Também há quem transporte cinzas em pequenas rodelas de metal que antes foram fundos de latas de vinte ou trinta litros de qualquer coisa. Para que elas se asse alguma coisa mais perto da porta e se evite o fumo com que se faz o carvão, imagino eu ao passar.
A esta hora do dia também se vê crianças a tomar banho. Os maiorzinhos lavam-se sozinhos em frente às casas tendo como apoio um balde, de plástico ou de metal, um género de esponja que mais parece uma rede de pesca. Os mais pequenos são esfregados por uma mulher que na minha passagem fortuita, rápida e tímida, não consigo adivinhar se é a mãe, mas se não é cuida como tal. 
Ninguém comerá sentado à mesa. Não haverá pratos ou copos e tudo estará perfeito depois da nossa passagem. 
Passar por esta terra batida e varrida é um privilégio. Sentir o ritmo a esta hora da noite uma coisa quase mágica. Sair sem interferir nele (sem uma única fotografia), uma grande alegria. Afinal há coisas que são perfeitas por natureza e só precisam de um lugar no coração para nos habitarem para sempre.


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