sábado, 3 de junho de 2017

Dia...


Há um dia em que o carro não pega.
Há um dia em que corres tanto que os sapatos, velhíssimos, te fazem bolhas nos pés.Há um dia em que não há ovos nem leite em lado nenhum. Há um dia em que chegas a casa e a chave não abre a porta.
Há um dia que traz de presente 50 quilos de arroz, alheiras e manjericão.
Há um dia em que encontras uma amiga na rua e vais com ela quebrar o jejum.
Há um dia em que as salas de tratamento são corredores e tu contas as gotas de quinino que entram na veia de outros.
Há um dia em que alguém te reconhece de longe e te chama pelo nome.
Há um dia em que ouves os gritos de uma velha mãe que perde o filho na cama de um hospital e ao mesmo tempo no andar de cima, ecoam os gritos da mãe que traz ao mundo um filho novo.
Há um dia em que chegas à cama tão de noite que não sabes quantos dias passaram desde a última vez que aqui estiveste.  

Já houve um dia assim em Bissau.
E todos os dias agradeço os dias intensos e imensos que se materializam em abraços, em reuniões que passam a conversas, em boleias de sorrisos com direito a experimentar roupa emprestada. Dias de conversas sobre panos e sobre viagens, artistas, arte e música. Dias em que se sonha com chutney de manga ou de caju. Dias em que se encontram alguns daqueles que não víamos há semanas e desejávamos tanto. 
E digo isto no plural porque é de plurais que se alimentam estes saborosos dias, mesmo que seja só um. 



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2 comentários:

  1. É isso mesmo Cláudia há dias assim....e que bom que os há e podemos vivê-los, senti-los e partilhar...

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    1. Querida amiga, uma graça a partilha do tempo, da vida e dos sentimentos! Obrigada por estares por aqui e fazeres parte desta realidade. Seguimos juntas ;-)

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