quarta-feira, 24 de maio de 2017

Noite...

Vivo numa casa com varanda. Uma varanda que dá para a rua perpendicular à rua principal, com nome de músico, mesmo que ninguém saiba isso! 
Vivo numa casa que faz esquina com a rua principal em asfalto, que dá para uma rua desnivelada de terra batida que é o acesso a todas as casas que se encontram à minha esquerda e à minha frente. 
Mais ou menos a meio, no lado oposto à minha varanda, há um poço que serve as casas que não têm água canalizada.
No lado de fora do meu muro há um poste de luz amarela que me doura as noites quando me sento sozinha na varanda protegida dos mosquitos por uma rede fina. E como gosto deste momento de solidão nocturna a admirar o mundo que fervilha aqui à volta. Pode estar-se em silêncio com tantos barulhos à volta? Sim pode.
Passa uma aragem que alivia o calor dos dias e torna tudo mais leve e nítido na noite.
Os sons são muitos, parece barulho... Mas se atentar melhor, se me calar por dentro, consigo ver outras realidades sonoras que já não entram no espectro do ruído mas numa outra dimensão que não sei agora nomear.  
Ouve-se constantemente música, umas vezes baladas lamechas, umas vezes quizomba entre um solo de saxofone e uma canção da moda. Há canções que se repetem... E o som integra-se perfeitamente na "paisagem" que pinto de olhos fechados. Ou porque me habituei ou porque de facto assim acontece... a fronteira é tão ténue.
Ouço vozes de crianças a brincarem empolgadas, alguns gritos de espanto outros de raiva. Ouço amigos que fazem festa no bar da esquina, gente que passa falando alto, gente que ri num lado, gente que ralha e não sei se estão a 2 se a 20 metros, porque a noite tem esta magia de nos trazer sons sem referência das distâncias.
Os carros passam na rua José Carlos Schwarz a diferentes ritmos, como que a integrar a secção rítmica de uma orquestra moderna, com diferentes tilintares de chapa, roncares de motores, alguma travagem bruta, buzinas, cargas que se movem em "caixas abertas" de camionetas que contornam buracos. Imagino um arrastar de vento em forma de v que se vai esfumando no ar à medida que os veículos de afastam. E ouço também portas de carro que batem algures, como que se dum berimbau lento se tratasse.
O Jó, o nosso segurança, faz as suas lições de Português e lê em voz alta o seu livro da escola, numa língua que tenho dificuldade em reconhecer como minha. Rendo-me a este esforço de aprender e a este som de quem repete mecanicamente um desejo profundo. Este o primeiro passo para o conhecimento... 
Há movimento nas casas em frente, um movimento tranquilo de quem aprecia a noite como eu e se senta nas suas cadeiras de plástico a conversar e a apanhar "uma calma" como se diz no Alentejo, afinal somos todos muito mais parecidos do que parece.
Passam pessoas à minha frente, do outro lado do muro, rua acima, rua abaixo, e ao ver estes movimentos falta-me alguma coisa, percebo que a imagem não está de acordo com o som e imagino que não tenha colocado correctamente o jack nas colunas... Parece que flutuam, como que, se no meio daqueles sons todos, a rua fosse habitada apenas por espíritos, porque lhes falta o som dos passos no caminho que fazem à minha frente.
Falta-me o som dos passos, e contudo aos passos não falta nada, nesta realidade imaterial que eu escrevo para tornar mais concreta em mim.
O outro lado de enraizar é o flutuar, como a música. Os dois são precisos. E o som dos passos aqui, afinal, não faz falta nenhuma. 

Só uma nota para não me esquecer: a semana passada o Presidente da República passou por aqui e por isso taparam os buracos na estrada de asfalto que todos os anos fica ferida pelas chuvas e este ano não tinha visto ainda cura. Sabem o que isso significa? Significa que eu já não acordo de noite com o barulho das galeras dos camiões a saltarem por cima das crateras brutais e a caírem como morteiros. Significa que já nem me dou conta que tenho uma janela virada para a estrada. Significa que já nem me lembro dos buracos que por aqui havia porque deixaram de fazer barulho...





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