quinta-feira, 16 de março de 2017

Hábitos...

Entre 2010 e 2011 tive uma crónica quinzenal num jornal regional em Portugal. O Região de Leiria convidou-me para escrever e eu aceitei, com medo, um desafio que me deu muito prazer. Hoje rio a olhar para muitas das palavras que escrevi, das ideias que alinhavei. Rio comigo e rio para mim. 
É lugar comum dizer-se que é bom sair, é bom viajar... É bom sim, bom mas não ao mesmo nível do comer saudável ou fazer desporto. Não é por razões higiénicas que é bom, é precisamente pelo contrário.
Estar num local novo aos nosso hábitos é mais que uma diferença geográfica é muito mais do que uma alteração de coordenadas, é uma contaminação física, mental e emocional. É acima e tudo uma viagem no tempo. (As máquinas do tempo existem há mais tempo do que imaginamos, existem desde que nos começámos a conjugar no plural muito antes de sabermos o que era uma máquina.) E há tantos tempos quanto paisagens e não falo do clima. Falo do tempo dos homens, das histórias, dos hábitos, do ser. Há um "Ser" com tempo, por exemplo, o meu ser de há seis anos não está na mesma distância temporal do meu ser de hoje.
Lembrei-me disso a respeito do texto em baixo. Hoje não há um dia em que não veja um homem a urinar aos olhos de todos e sem parede, pessoas a cuspir para o chão, ou todo o tipo de lixo nas ruas... Passaram mais de seis anos e hoje não me impressionam as beatas, nem me lembro delas e até parece que nunca as vi por aqui. Somos mesmo nós e as nossas circunstâncias, nós e o nosso contexto, nós e o nosso "tempo", que nada tem a ver com calendários, tal como esta "geografia" pouco tem a ver com mapas.

Hábitos...
Se atentarem uns minutos à entrada de um restaurante ou sala de espectáculos, por exemplo, podem contar o número de pessoas que ao entrar faz um gesto mais ou menos gracioso de deitar o resto do cigarro para o chão. 
Há quem se aprimore da acção e descreva um arco gordinho projectando a beata a partir do polegar, alavancada pelo indicador. Há quem opte por um gesto afiado em linha recta para o chão aproveitando a oportunidade para pisar de forma opressiva e circular a pobre da beata que tenta ainda libertar um último suspiro. 
Podem dizer que não há cinzeiros, mas não são as desculpas que necessariamente legitimam os actos.
Nada tenho contra quem fuma, nem é sobre o acto em si que partilho a minha opinião. 
Deitar uma beata fora não é a mesma coisa que atirar uma pedra rolada ao rio e admirar as vezes que ela saltará sobre a água até se afundar no leito que a trouxe. 
Deitar uma beata ao chão de forma “inconsciente”, não é um hábito natural: mostra a forma como encaramos o espaço comum e está ao nível do cuspir para o chão, livrar-se da pastilha elástica ou urinar nas paredes. 

Claro que evitamos conscientemente pensar em tudo isto... mas se pensássemos, agiríamos de outra maneira?
Região de Leiria 30 de Março de 2011








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