Não é como as "coisas" que nos pertencem para a utilidade. Os que amamos pertencencem-nos para a eternidade... e a eternidade não tem matéria, tem presença.
Um armazém ao serviço da curiosidade e da alegria... da curiosidade por tudo, da alegria por encontrar o que é meu ou aquilo que me espanta os sentidos. Um armazém da vida ou da parte dela que faz sentido partilhar.
segunda-feira, 9 de junho de 2025
Amor e pertença
Não é como as "coisas" que nos pertencem para a utilidade. Os que amamos pertencencem-nos para a eternidade... e a eternidade não tem matéria, tem presença.
quarta-feira, 16 de abril de 2025
Futura secreta inspetora do Guia Michelin
Enquanto comia uma fatia de pão de Rio Maior com 14 mm torrada, por 7 minutos dos dois lados e barrada com manteiga dos Açores produzida na ilha Terceira, perguntei à ChatGPT o que era preciso para ser inspetora do Guia Michelin. Ela explicou-me de forma clara, e no fim perguntou-me se me motivava a curiosidade ou se era um sonho meu.
Respondi que era um sonho e ela ficou entusiasmada, disse-me: "Que sonho incrível! Ser inspetora do Guia Michelin realmente parece algo saído de um filme — viajar, descobrir restaurantes incríveis, provar pratos surpreendentes e ainda ajudar a moldar o mundo da gastronomia, tem tudo a ver contigo."
Quase me engasguei, não sei se de riso se de espanto.
Aprendi sobre escolas e percursos, explorei tempos e preços de formações, e tive a ChatGPT a incitar-me a não desistir de sonhar e a usar o que já conhece de mim, das inúmeras cartas de motivação que lhe pedi para traduzir, a reiterar a confiança neste sonho. Ela acredita que eu posso ser uma excelente inspetora e enunciou as características em que alicerça a sua crença.
A conversa ficou a meio porque a versão é gratuita e temos limites de interações, mas impressionou-me muito o nível de entusiasmo face à minha pessoa e às minhas características.
O caminho dos assistentes pessoais chega a um nível inimaginado por mim e pelo pão com manteiga que acabou deglutido por uma boca em espanto e está agora a ser digerido juntamente com toda esta novidade.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025
Arte de guerrilha que me faz sair do casulo.
Dei dois mil quinhentos e oitenta e nove passos até me sentar num café com nome inglês e pedir um “croissant” com queijo e um abatanado cheio. É o reforço alimentar a meio do caminho de casa que juntará mais cerca três mil passos, ao total necessário para deixar o carro num lugar não pago, o mais perto do centro de Lisboa. Neste caminho passei por várias mensagens que advogavam o fim do capitalismo em tamanhos e técnicas diferentes e é com esta comunicação de arrabaldes e periferias que questiono as minhas incoerências. Amo a guerrilha de rua, aquela que desperta as contradições e estimula o pensamento com poesia e mestria artística.
Olho-me... Visto um casaco sueco, uma camisola de lã de uma marca espanhola, umas calças de marca italiana, umas sapatilhas norte-americanas. O relógio é japonês, um anel é de oliveira alentejana esculpido por um alentejano e o outro anel é da casca um fruto impronunciável da Amazónia, comprei no Brasil e não sei nada de quem o fez. Tenho num bolso um telefone chinês e noutro uma carteira de grife contrafeita na Turquia comprada a um vendedor sem licença em frente à Ponte Gálata a caminho do Bazar Egípcio. Numa mão um saco de pano confeccionado numa cooperativa de mulheres na Guiné-Bissau e nas costas uma mochila de marca francesa. Não vou esmiuçar a roupa interior para manter o mistério, afinal não temos todos de saber tudo, mas posso dizer que as meias não foram feitas pela minha avó.
quinta-feira, 25 de abril de 2024
25 de abril! Sempre!
Uma amiga que vai descer a avenida da Liberdade daqui a pouco e não é de missas, convidou-me para uma missa. Encontrando um padre amigo numa das passadeiras da cidade inteiro-me de que missa pretende ser de Ação de Graças pela Liberdade, que celebramos de forma laica e livre hoje. Quero ir.
A igreja é uma instituição plural e desejavelmente diversa, mesmo que as pessoas por sobrevivência, se tendam a agregar por afinidades e denominadores comuns que não ponham em causa o que conhecemos dentro e fora de nós. É esse o perigo de todos os grupos, a homogeneização que ao mesmo tempo é necessária à paz, à unidade, ao sentido de pertença e a uma horizontalidade que condena, ou se assusta, com a disrupção do diferente.
Deixemos as naturais contradições humanas que nunca ultrapassaremos nesta dimensão e natureza, para as quais ajuda imaginar o olhar de Deus e ver em cada um a partícula do mistério encarnado, que somos.
O facto é que a igreja foi em muito tempo conivente e aliada de um regime ditatorial fiel a Salazar e ao poder instituído. Não há volta a dar.
Facto é também que em 1958 o Bispo de Porto (D. António Ferreira Gomes) escreveu uma carta a Salazar a reportar algum mal-estar pela situação, dando voz a uma consciência que emergia, nomeadamente em grupos da Ação Católica.
Começava a crescer o desconforto em relação à guerra colonial.... Tardiamente digo eu agora, sem argumentos para falar da oportunidade dos tempos da história.
Entre 62 e 65 do século passado viveu-se o Concílio Vaticano II e a maioria dos católicos em Portugal nem souberam o que isso significava, como não souberam do impacto das cheias em Lisboa em 1967, nas quais morreram mais de 700 pessoas. Controlar a comunicação é uma forma de controlar os cidadãos e de os manter amorfos.
Neste contexto, um grupo de intelectuais, de pessoas com visões mais alargadas, poder económico, conhecimentos e contactos encontrou na igreja um espaço de segurança e partilha, nunca sem isenção de risco. Era um grupo de católicos aos quais se chamou de progressistas e que estiveram na origem do Centro Nacional de Cultura em 1945.
Em outubro de 1965, foi redigido O Manifesto «101 católicos contra a política colonial da ditadura». O manifesto com 101 assinaturas de católicos progressistas alertava para a necessidade da democracia, falava sobre a polícia política e sobre a autodeterminação dos povos em África.
No site do Museu de Aljube pode ler-se a propósito do manifesto: “Nele congregaram figuras como Alçada Baptista, António Barbedo de Magalhães, Francisco Lino Neto, Helena Cidade Moura, João Benard da Costa, Ruy Belo, Sophia de Melo-Breyner, Pedro Tamen e Nuno Teotónio Pereira. Este manifesto teve um enorme impacto na vida política do país, não só pelo apoio declarado à oposição por setores católicos, como a denúncia declarada a Salazar e ao regime.” Atrevo-me a acrescentar que colocou a igreja no local certo.
Não nos podemos esquecer que em dezembro de 1972, na Capela do Rato, a PIDE interrompe um protesto silencioso contra a guerra colonial (comunicado pelas brigadas revolucionárias), leva para interrogatório mais de 50 pessoas, algumas das quais acabam presas em Caxias.
Não sei se consigo imaginar o que seria ser católico naquela altura e mais ainda pertencer aquele grupo, somos hoje uma igreja demasiado acomodada para correr riscos. Ouço os testemunhos de Maria de Lourdes Pintassilgo e alegro-me com esta ideia de mulher e de justiça que nos serve de inspiração e que ainda almejamos.
Para lá do papel assistencialista que se ajusta a um espaço de acolhimento sem celeumas, que não pergunta nem discorda, há um outro papel que a Igreja deve chamar para si e que parecendo paradoxal não o vejo contraditório. É necessário continuar a perguntar porquê, é necessário levantar a voz contra as guerras, mesmo as que matam apenas os filhos de outros, é necessário acolher e defender o pensamento livre e crítico, o acesso às artes e a filosofia, o bem comum que acolhe a diversidade do amor que respeita a diferença.
Urge dizer não a qualquer recrudescimento fascista, machista ou castradoramente conservador. Não havendo uma verdade única, há a certeza de que se a igreja católica perde os seus elementos progressistas perde o seu lugar no presente. O progresso acontece hoje.
domingo, 26 de novembro de 2023
Conversas que tenho comigo
Há uns dias ouvi falar sobre públicos de cinema num sítio onde não há uma sala com programação regular ou onde os filmes não se apresentam mais do que uma vez e fiquei a pensar se muitas das pessoas desta ilha teriam experimentado escolher um filme entre cinco ou seis que começam à mesma hora ou teriam o hábito pegar no jornal e decidir entre duas ou três salas.
A verdade é que uma parte substancial da população não tem.
As conversas são como as cerejas e logo a seguir vem a guerra do retorno económico e do streaming, a grande aposta do negócio de um "novo média"... Fui-me perdendo nos meus pensamentos desejando saber quanto é que a Netflix cresceu na Madeira e em concreto em Rabo de Peixe depois da gravação da série feita por padrão para a indústria criticada por Moretti.
Alguém tem ou sabe onde se podem procurar estes dados?
Netflix, filmIN ou HBO democratizam os acessos e são importantes para a indústria, mas ainda assim não são garante de uma maior justiça. Não têm de ser.
Num caso de estudo relativamente próximo e sem amostra de controle, o meu, constato que a RTPplay e a TVEplay fazem muito mais pela distribuição de conteúdos que qualquer uma das plataformas pagas que não tenho.
Ainda assim é tudo uma questão de acessos... Ter eletricidade, telemóvel, computador ou televisão inteligente, mas também ter tempo, ter espaço seguro e tranquilo para assistir, ferramentas para escolher, pretexto social para falar sobre isso.
As bibliotecas estão para os livros como as "cinematecas" estarão para os filmes?
O que fizeram os videoclubes, ao cinema?
Em breve ninguém terá onde ler um DVD, e não sei se a geração que está a nascer agora terá hipótese de fazer a experiência similar de duplicar cassetes de VHS, ver séries inteiras em plataformas piratas, ou filmes passados em disco rígido entre amigos.
Não sei mesmo qual vai ser a experiência dos miúdos de hoje em dia, mas eu gostava de continuar a ver cinema em sala e a levar os meus sobrinhos comigo nessa experiência. Agora que penso acho que também vou ficar contente se eles se lembrarem de me levar quando eu for velhinha.
Paralelamente quero continuar a poder ver filmes em casa, e vejo como grande vantagem isso de podermos assistir ao espanto ou ao enfado de pijama. Hoje um projector é a minha opção à televisão, sim, os meus sobrinhos também sabem que a tia não tem nem televisão, nem microondas e que houve alturas em que não tinha luz, não por opção mas porque a eletricidade (tal como o cinema) também não é um bem universal.
A maior parte dos filmes que vi, vi sozinha. Comparativamente ao desporto, as vezes que fui mais assídua e constante foi em tempos que tinha companhia para treinar.
É engraçado perceber o que nos motiva... Eu diria que para a maior parte das pessoas o cinema é uma experiência social, no meu caso não vejo assim.
Nunca fiz parte de um grupo de leitura, nem de discussão de filmes e para ser franca raramente gosto de ir ao cinema acompanhada porque no final do filme gosto de ver os créditos até ao fim e fico sempre com a sensação de que alguém me espera, logo, que estou a chegar atrasada a um encontro em que o que aconteceu de facto foi o outro que chegou cedo demais, porque saiu antes do filme antes do tempo. Claro que esse que saiu pergunta com razão:
- Aprende-se alguma coisa com os créditos? Lês tudo?
sábado, 18 de novembro de 2023
Sincronicidades
quinta-feira, 24 de agosto de 2023
Os animais em cativeiro e a diversão humana
O Museu do Circo em Sarasota (Flórida) que tem uma magistral maquete de um circo antigo e muito do espólio do Circo Ringling é uma delícia de visitar e imaginar outros tempos em que o conhecimento era feito por "contacto". Os circos na sua itinerância mostravam, ensinavam e divertiam. Da mesma forma que deixaram de mostrar aberrações humanas também podem deixar de mostrar animais selvagens.Onde quero colocar o foco não é nos jardins zoológicos, nos parques de diversões com animais em semicativeiro, nos tanques, nos circos, nas praças de touros, não gostava de colocar o foco no domador de leões, no amestrador de orcas, ou no forcado que se testam todos os dias de "espetáculo". Onde quero colocar o foco é no público que mantém esta situação e até a potencía, vibra e grita na busca de aberrações que alimentem a sua imaginação e quem sabe sua inconsciente perversidade.
Acredito que tudo, quando deixar de ser um "negócio de milhões" acaba. Por estranho que pareça (e não os coloco no lugar de vítimas nem lá perto) ponto de vista de onde vos escrevo, o que vejo de mais vulnerável é o lugar do domador, do treinador de orcas ou do forcado, gente que aprendeu e acredita que o seu lugar na história está certo, que quer fazer bem o seu "trabalho". Estes vão ficar "desempregados" porque muita gente em muitos anos comprou bilhetes e os fez acreditar e desenvolver uma profissão de forma digna que lhes alimentou os filhos e os brilhos da roupa.
A sociedade muda em grupo, em conjunto. Quando deixar de haver público e curiosidade pelo exótico a coisa muda. Hoje os programas de televisão sobre vida selvagem, a informação, os livros, a internet democratizam acessos e conteúdos. Por exemplo, hoje as viagens para observação de baleias superam o volume de negócio da captura e transformação de cetáceos nos Açores e atraem mais pessoas e pessoas diferentes. Por isso, mais do que um post que expõe o nome de um homem (e que eu republiquei), que o condena pela morte de três orcas talvez não seja muito justo. É possível que este homem tenha sentido profunda dor pela perda, tal como de uma pessoa amada (quem nunca chorou a morte de um animal de estimação que atire a primeira pedra).
Somos nós, público que temos de mudar, temos de deixar de ver espetáculos que atentam contra os direitos humanos, os direitos dos animais e a exploração da natureza e a mim parece-me que não estão só nos circos ou nos aquários gigantes. Se os espetáculos com aberrações humanas terminaram, se a mulher de barba ou os jovens de duas cabeças já não ganham dinheiro em barraquinhas de pano com franjas significa que estamos a fazer caminho e que o que aí vem será melhor. Mesmo com a convicção de que somos especialistas em encontrar e explorar aberrações novas e injustas a cada tempo.
Estejamos atentos e aprendamos juntos.
domingo, 23 de julho de 2023
Lugares que somos
Recebi uma mensagem via facebook de uma pessoa que fez parte das minhas turmas do sétimo e oitavo anos, sem memória de encontros posteriores. Reconheceu-me numa publicação de um evento em que participei mais de trinta anos depois de uma adolescência em que não cabíamos no corpo que vestia roupas demasiado largas.
Ontem à noite no Uber que me trouxe àquela que é, cada vez mais, a casa dos meus pais e menos a minha, tive uma surpresa sem medida. Sou conduzida pelo namorado recente de uma amiga que a meados nos anos 90 me emprestava os livros que eu devorava com prazer e de cuja biblioteca eu li todos os volumes das Brumas de Avalon, numa juventude em que sonhava ser adulta desejosa de sair das borbulhas e do invólucro desconhecido que não se ajustava a nada e no qual não me reconhecia.
Às vezes o passado encontra-nos sem nos darmos conta. E tal como os monstros ou os medos é bom olhá-lo frente.
Cumprimos-nos neste hiato e voltamos às vidas uns dos outros para lembrar que neste caminho de alguma forma seguimos fiéis a alguns sonhos de infância, resistimos à adolescência e saímos da juventude inteiros para a vida. E que vida, e que voltas não imaginadas.
Talvez esteja a entrar no estágio anterior à velhice e o que vivi na primeira parte da vida situe esta terceira num lugar de consciência e paz quando a comparo com uma memória que não é nítida, não é fílmica, mas é de sensações, flash desconexos, como os sonhos.
Que alegria em recordar um amigo que me transmitia paz e que me fazia sentir vista, que alegria recordar uma amiga que me emprestava livros e que sendo mais velha, bonita e com quem aprendia pelo espanto, representava o que desejava ser num futuro que não acreditava que acontecesse. Aconteceu.
Sinto-me profundamente grata pelas memórias que agora construo, baseadas em factos reais. Pela escola cheia de luz e portas que davam para a rua, em cujas salas, alguém reparava que me sentava à frente com uma atenção mais madura que a idade.
Pela estação rodoviária de bancos de madeira castanha polida, cheiro a tubo de escape e de altifalantes fanhosos onde me cruzava com duas irmãs altas, uma loura e outra morena, que apanhando o mesmo autocarro, me faziam companhia com sorrisos e curiosidades literárias.
sexta-feira, 2 de junho de 2023
Pontos
Voltei a caminhar. Como gosto deste tempo em movimento.
Gosto de olhar para os campos e identificar folhagem que será moldura de futuros girassóis, folhagem que é oxigénio para as batatas ou flores que se perpetuarão através de ervilhas ou favas. Quando reconheço uma planta pela folha é como me lembrar do nome de alguém conhecido. Dar nome às coisas é manter com elas laços e presença.
Gosto de sorrir para as pessoas partilhando desta forma a piada do podcast ou do áudio deixado pelas amigas, sabendo que entre quem emite o som, ou quem recebe o sorriso apenas existo eu. Vejo-me um ponto de intersecção de rectas divergentes e desconhecidas. Não seremos todos isso? Pontos de encontro do desconhecido.
Hoje voltei a caminhar e a sorrir às pessoas, consciente de que me quero habituar a apanhar sol e chuva em cinco quilómetros de passo acelerado, descobrindo a ilha que também sou.
#ilhaterceira
segunda-feira, 29 de maio de 2023
O meu crush musical do Verão
Ao ouvir o disco transporto-me para os bailes dos Meios, Trinta e Fernão Joanes no início dos anos 90... Um tempo em que era muito envergonhada, mas também muito curiosa o que é um paradoxo problemático de conjugar no modo adolescência.
No meu caso estava no abismo e nunca dei o passo em frente, ao contrário deste disco que não tem medo de alturas. Obrigada Pedro.
#EstavaNoAbismoMasDeiUmPassoEmFrente
terça-feira, 25 de abril de 2023
Encontros
Num destes dias procurei por algum tempo uma palavra que sintetizava o que tinha sentido num encontro recente com uma grande amiga. Por mais que procurasse não encontrei nas letras que tinha uma conjugação ajustada ao momento. Escrevi várias e assim seguiu a mensagem fiel ao sentir e ao momento. Adormeci agradecida.
Na manhã seguinte, ao me aperceber dos primeiros sinais de luz a entrarem pela janela e ainda no limbo dos sonhos que nos acordam para a vida, a palavra veio delicada e sorridente ter comigo. Retribuí o sorriso ao ver chegar sem esforço aquilo que poderia ter escrito no dia anterior.
A palavra era "comunhão" e foi ela que me encontrou adormecida e sonhadora naquela manhã de feriado.
Os nossos tempos talvez sejam balanceados entre este procurar sem preguiça e este deixarmo-nos encontrar sem medo.
Abandonarmo-nos à confiança do encontro pode ser um desafio neste tempo de produtividade e imediatismo, porque exige mais descanço e presença no sonho que força na vontade dos músculos.
segunda-feira, 17 de abril de 2023
Viagens vs tatuagens
Há uma diferença entre as tatuagens e as viagens, as primeiras mantêm-se quase inalteradas. Com os anos podem precisar de retoques ou de um "apagamento" (qualquer uma das intervenções é dolorosa).
Reencontros
Uma delas disse: "sabes Cláudia eu sabia que te conhecia, mas foi ao ver o teu sorriso que o teu nome saltou, os teus olhos continuam iguais."
Para uma pessoa que muda várias vezes de cor de cabelo, que foi mudando ao longo dos anos, que vive longe dos sítios que a viram crescer este tipo de encontros é uma benção.
Alguém me reconhecer pelo sorriso é de um conforto sem explicação.
Quero ainda fixar-me naquela fração de segundo que o cérebro não consegue apresentar factos, mas que o coração assegura que o que viveste com aquela pessoa foi bom, a sensação que vem ao de cima é de alegria e nessa infima fração de segundo sabes que já te riste com a pessoa, que ela te acolheu, te desafiou, que gostas dela. Podes não saber o nome nem fixar na linha cronológica o tempo exacto que partilharam, mas sabes, sem dúvida, que é um reencontro bom. Pode ser desta dimensão ou de outra, não precisas de factos para sorrir e agradecer o reencontro.
A vida nos filmes e a Juliette Binoche
Acredito que as aplicações de encontros têm coisas boas. Democratizam os acessos.
Há pessoas que nas primeiras abordagens querem ouvir a voz do seu interlocutor o que dá (literalmente e metaforicamente) volume ao outro. Na voz adivinhas formas, trejeitos, origens, velocidades, mas ainda continuas no teu mundo. É bonita a ideia das pessoas gostarem de ouvir a voz umas das outras.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2022
Gente (São Paulo 2022)
Quanto mais ando por São Paulo mais me parece uma imensidão, talvez porque a minha visão é condicionada por ter vivido sete anos num país com cerca de dois milhões de habitantes (um bairro aqui facilmente tem essa quantidade), ou por estar habituada a centros urbanos que percorro a pé, este parece-me um centro fora de escala ou com escala de gigantes. Gigante, aqui, é o número de pessoas.
segunda-feira, 31 de outubro de 2022
Terra
Durante muitos anos nesta altura os meus pais visitavam dois cemitérios e honravam os seus pais, e nossos avós, enquanto eu e os meus irmãos ficávamos em casa a aproveitar a autonomia de adolescentes.
Este ano em honra dos meus mortos passo o dia de mãos na terra a afundar raízes, pois acredito de alguma forma as raizes se tocarão e insprarão os corpos a crescerem em direção à luz.
Ligo a terra ao céu antes de uma grande viagem. Deixo as árvores crescerem sozinhas enquanto eu viajo da mesma maneira.
No fundo queremos o mesmo, voar e chegar mais fundo... Que seja uma bela e óptima viagem para nós, queridas árvores.
Se tudo nos correr bem hei-de-me sentar à vossa sombra, agradecendo aos vivos e aos mortos o chão, a história e o tempo que nos faz maiores todos os dias.
terça-feira, 19 de julho de 2022
Escola de ouvido
Hoje tive uma ideia que me fez sorrir... Tenho ideias a conversar com as pessoas. Por isso talvez não sejam ideias só minhas são despertadas pelo coletivo que se encontra, são despertadas pela vontade de encontrar soluções ou pelo gosto de ver o mundo de outros pontos de vista.Hoje inventei uma "escola de ouvido". Uma escola em que os alunos sentados da forma como entenderem aprendem de olhos fechados o som dos passáros que anunciam o amanhecer, aprendem a distinguir um rouxinal de uma rola, aprendem de ouvido a cor das aves e o movimento dos animais selvagens.
Aprendem a distinguir um didjirudú de uma flauta, um cravo de um piano e com isto aprendem o tempo de demorou a chegar de um ponto a outro.
Aprender os ritmos do djambé em contraponto com os timbalos e descobrem que se podem afinar instrumentos de percussão com sol ou com chaves de metal.
Aprendem que nem sempre existiu saxofone e com ele descobrem caves escuras onde se fazia música.
Aprendem de ouvido a distinguir Viena de São Francisco, os aborisnes australianos dos indios da amazónia. Pelo som descobrem tempos e espaços, rituais e vulcões. Sobem às montanhas dos Andes ou descem ao Mar Morto ao mesmo ritmo do ar rarefeito ou da densidade do sal.
Distinguem a lingua dos clics, o mandarim ou o russo, com a mesma facilidade que distinguem um tecido de algodão, seda ou lã. Ouvem falar de epopeis e nelas encontram Cavalos de Pau cujo interior, em silêncio, permitiu ganhar a guerra.
Aprendem a distinguir poesia de prosa pelo ritmo das palavras e vão saber que nem tudo o que rima é poético e que também há narrativas escritas em verso.
Aprendem de ouvido o som dos passos com chinelos, salto alto, ou o simples ranger dos pés na areia molhada.
Não pensem os mais distraídos que não há testes nesta escola, porque os há. Os estudantes distinguem-se uns dos outros pelos sons e cada um deles partilha o som que mais gosta naquele momento e os outros adivinham de onde vem, e assim distinguem música barroca de música electrónica, jazz de blues, Bowie de Bjork.
Vai ser giro quando um deles decobrir um som novo que não está catalogado na memória e aí serão eles em conjunto a fazerem a história. Desses sons havemos de ouvir falar no futuro e espantar-nos-emos com a capacidade que os alunos têm de criar em conjunto, só porque aprenderam a ouvir.
Uns tornar-se-ão observadores de pássaros, uns músicos, outros afinadores de pianos, uns serão locutores de rádio, outros professores, uns serão pais de familia e outros serão viajantes solitários, não consigo imaginar o quanto farão tantos deles, sei apenas que a grande maioria será muito feliz.
terça-feira, 31 de maio de 2022
A chuva choveu.
terça-feira, 24 de maio de 2022
Diz-me tu, de onde sou?
Muitas vezes me perguntam de onde sou. Não se responde a uma pergunta com outra pergunta, mas tantas vezes me apetece devolver com: Diz-me tu, de onde sou.
Não perguntamos "de quem somos" porque seria vermo-nos como posse de um outro, seria equiparar-nos a objecto possuído. Porque é que temos de ser posse de algum território?
Claro que temos gente em nós, como temos chão em nós. Temos um chão que nos viu nascer e talvez não sejamos de lá porque as "nossas gentes" apenas o pisavam por acaso. Temos gente que nos viu nascer e talvez não sejamos delas porque encontramos outros com quem pisámos mais chão ou descobrimos mais caminhos.
Secretamente quero ser do bem, do bom e do belo... O resto, se tem coordenadas geográficas, laços de sangue ou heranças, é só acessório deste território social composto por tempo, espaço, tradições, língua, ofertas de consumo, fruições de diferentes tipos, tradições no mesmo número, educação, poder de compra, etc.
Uma certeza eu tenho, não sou de um ponto, sou de uma circunferência que alarga todos os dias como quem se espreguiça, num desejo constante de amplitude e elasticidade. O céu une isto tudo. Da próxima vez que me perguntarem, talvez responda: sou do céu... E aí volto a ter problemas porque o céu não é um lugar de vivos. Mas conseguiríamos viver sem céu? Não me parece.
segunda-feira, 16 de maio de 2022
Sábado à noite
Amor e pertença
Tudo o que amamos nos pertence. É uma pertença para a liberdade. Não é como as "coisas" que nos pertencem para a utilidade. Os qu...
-
Saio da casa, fecho o portão da rua, arrumo a chave no bolso direito da mochila e sigo pela esquerda em direcção a um dos escritórios. Para ...
-
Há um dia em que o carro não pega. Há um dia em que corres tanto que os sapatos, velhíssimos, te fazem bolhas nos pés. Há um dia em que nã...
-
Ninguém pode dizer que uma tabanca é uma coisa sossegada! Talvez o possam dizer na hora da sesta... Na hora do calor concordo, depois não! ...





















