segunda-feira, 9 de junho de 2025

Amor e pertença

Tudo o que amamos nos pertence. É uma pertença para a liberdade.
Não é como as "coisas" que nos pertencem para a utilidade. 
Os que amamos pertencencem-nos para a eternidade... e a eternidade não tem matéria, tem presença.




quarta-feira, 16 de abril de 2025

Futura secreta inspetora do Guia Michelin

Enquanto comia uma fatia de pão de Rio Maior com 14 mm torrada, por 7 minutos dos dois lados e barrada com manteiga dos Açores produzida na ilha Terceira, perguntei à ChatGPT o que era preciso para ser inspetora do Guia Michelin. Ela explicou-me de forma clara, e no fim perguntou-me se me motivava a curiosidade ou se era um sonho meu. 

Respondi que era um sonho e ela ficou entusiasmada, disse-me: "Que sonho incrível! Ser inspetora do Guia Michelin realmente parece algo saído de um filme — viajar, descobrir restaurantes incríveis, provar pratos surpreendentes e ainda ajudar a moldar o mundo da gastronomia, tem tudo a ver contigo."

Quase me engasguei, não sei se de riso se de espanto. 

Aprendi sobre escolas e percursos, explorei tempos e preços de formações, e tive a ChatGPT a incitar-me a não desistir de sonhar e a usar o que já conhece de mim, das inúmeras cartas de motivação que lhe pedi para traduzir, a reiterar a confiança neste sonho. Ela acredita que eu posso ser uma excelente inspetora e enunciou as características em que alicerça a sua crença. 

A conversa ficou a meio porque a versão é gratuita e temos limites de interações, mas impressionou-me muito o nível de entusiasmo face à minha pessoa e às minhas características. 

O caminho dos assistentes pessoais chega a um nível inimaginado por mim e pelo pão com manteiga que acabou deglutido por uma boca em espanto e está agora a ser digerido juntamente com toda esta novidade.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Arte de guerrilha que me faz sair do casulo.

Dei dois mil quinhentos e oitenta e nove passos até me sentar num café com nome inglês e pedir um “croissant” com queijo e um abatanado cheio. É o reforço alimentar a meio do caminho de casa que juntará mais cerca três mil passos, ao total necessário para deixar o carro num lugar não pago, o mais perto do centro de Lisboa. Neste caminho passei por várias mensagens que advogavam o fim do capitalismo em tamanhos e técnicas diferentes e é com esta comunicação de arrabaldes e periferias que questiono as minhas incoerências. Amo a guerrilha de rua, aquela que desperta as contradições e estimula o pensamento com poesia e mestria artística. 

Olho-me... Visto um casaco sueco, uma camisola de lã de uma marca espanhola, umas calças de marca italiana, umas sapatilhas norte-americanas. O relógio é japonês, um anel é de oliveira alentejana esculpido por um alentejano e o outro anel é da casca um fruto impronunciável da Amazónia, comprei no Brasil e não sei nada de quem o fez. Tenho num bolso um telefone chinês e noutro uma carteira de grife contrafeita na Turquia comprada a um vendedor sem licença em frente à Ponte Gálata a caminho do Bazar Egípcio. Numa mão um saco de pano confeccionado numa cooperativa de mulheres na Guiné-Bissau e nas costas uma mochila de marca francesa. Não vou esmiuçar a roupa interior para manter o mistério, afinal não temos todos de saber tudo, mas posso dizer que as meias não foram feitas pela minha avó.  

A marca da mochila começa por D, mas tal como tudo o resto, é tudo média-costura, que um verdadeiro Dior não precisa de evitar parquímetros. 
Caminho sem saber onde este capitalismo nos vai levar, a mim hoje levar-me-á a casa depois de pagar a conta com cartão. 

quinta-feira, 25 de abril de 2024

25 de abril! Sempre!

Uma amiga que vai descer a avenida da Liberdade daqui a pouco e não é de missas, convidou-me para uma missa. Encontrando um padre amigo numa das passadeiras da cidade inteiro-me de que missa pretende ser de Ação de Graças pela Liberdade, que celebramos de forma laica e livre hoje. Quero ir.

25 de abril, sempre!



domingo, 26 de novembro de 2023

Conversas que tenho comigo

Há uns dias ouvi falar sobre públicos de cinema num sítio onde não há uma sala com programação regular ou onde os filmes não se apresentam mais do que uma vez e fiquei a pensar se muitas das pessoas desta ilha teriam experimentado escolher um filme entre cinco ou seis que começam à mesma hora ou teriam o hábito pegar no jornal e decidir entre duas ou três salas.

A verdade é que uma parte substancial da população não tem.

As conversas são como as cerejas e logo a seguir vem a guerra do retorno económico e do streaming, a grande aposta do negócio de um "novo média"... Fui-me perdendo nos meus pensamentos desejando saber quanto é que a Netflix cresceu na Madeira e em concreto em Rabo de Peixe depois da gravação da série feita por padrão para a indústria criticada por Moretti.

Alguém tem ou sabe onde se podem procurar estes dados?
Netflix, filmIN ou HBO democratizam os acessos e são importantes para a indústria, mas ainda assim não são garante de uma maior justiça. Não têm de ser.
Num caso de estudo relativamente próximo e sem amostra de controle, o meu, constato que a RTPplay e a TVEplay fazem muito mais pela distribuição de conteúdos que qualquer uma das plataformas pagas que não tenho.
Ainda assim é tudo uma questão de acessos... Ter eletricidade, telemóvel, computador ou televisão inteligente, mas também ter tempo, ter espaço seguro e tranquilo para assistir, ferramentas para escolher, pretexto social para falar sobre isso.
As bibliotecas estão para os livros como as "cinematecas" estarão para os filmes?
O que fizeram os videoclubes, ao cinema?
Em breve ninguém terá onde ler um DVD, e não sei se a geração que está a nascer agora terá hipótese de fazer a experiência similar de duplicar cassetes de VHS, ver séries inteiras em plataformas piratas, ou filmes passados em disco rígido entre amigos.
Não sei mesmo qual vai ser a experiência dos miúdos de hoje em dia, mas eu gostava de continuar a ver cinema em sala e a levar os meus sobrinhos comigo nessa experiência. Agora que penso acho que também vou ficar contente se eles se lembrarem de me levar quando eu for velhinha.
Paralelamente quero continuar a poder ver filmes em casa, e vejo como grande vantagem isso de podermos assistir ao espanto ou ao enfado de pijama. Hoje um projector é a minha opção à televisão, sim, os meus sobrinhos também sabem que a tia não tem nem televisão, nem microondas e que houve alturas em que não tinha luz, não por opção mas porque a eletricidade (tal como o cinema) também não é um bem universal.

Quando era novo, o meu pai passava filmes indianos e westerns num cinema em Moçambique, eu vi os meus primeiros filmes nigerianos na Guiné Bissau...
A maior parte dos filmes que vi, vi sozinha. Comparativamente ao desporto, as vezes que fui mais assídua e constante foi em tempos que tinha companhia para treinar.
É engraçado perceber o que nos motiva... Eu diria que para a maior parte das pessoas o cinema é uma experiência social, no meu caso não vejo assim.
Nunca fiz parte de um grupo de leitura, nem de discussão de filmes e para ser franca raramente gosto de ir ao cinema acompanhada porque no final do filme gosto de ver os créditos até ao fim e fico sempre com a sensação de que alguém me espera, logo, que estou a chegar atrasada a um encontro em que o que aconteceu de facto foi o outro que chegou cedo demais, porque saiu antes do filme antes do tempo. Claro que esse que saiu pergunta com razão:
- Aprende-se alguma coisa com os créditos? Lês tudo?
- Não. Respondo. Mas é o tempo que eu e o filme temos para conversar, de ele descer até às entranhas e por ali ficar a ser digerido numa reação química que precisa daquele tempo e isolamento para se projetar em mim.

Constato com tristeza que perdi o fio à meada da conversa cinéfila. Saí antes dos créditos e vocês, agora, sabem que não gosto disso e eu percebo melhor quem sai. 



sábado, 18 de novembro de 2023

Sincronicidades

No domingo fui ver um filme francês que tinha como parte da banda sonora canções de Daniel Johnston. Quis saber mais sobre o autor e descobri uma história que desconhecia e um documentário por ver.
Lá por quarta feira, uma das pessoas que sigo no instagram usava umas das músicas num pequeno vídeo e mesmo agora acabo de ouvir um podcast onde a entrevistada recomenda uma música do Daniel.
Não havia forma de cruzar isto, o filme é de 2021, o reel do meio da semana e o podcast gravado na semana passada, na minha história este alinhamento tem menos de 6 dias e pus-me a pensar que as sincronicidades são o "algoritmo" da vida.
Já tinha ouvido algumas coisas do Daniel, mas sempre de raspão, esta semana ele foi-me imposto. E eu ganhei uma consciência e um gosto que não tinha.
O que algoritmo tenta fazer de forma mais eficaz e mecânica é imitar a vida neste aspecto. A sincronicidade é mais poética e por isso muito mais mágica e surpreendente. A diferença do primeiro é que talvez, neste último, tenhamos de estar um pouco mais atentos.
Ouçam o Daniel Johnston.




quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Os animais em cativeiro e a diversão humana

A propósito de um post sobre orcas em cativeiro gostava de partilhar um ponto de vista.
Há uns tempos vi uma entrevista com um dos maiores donos de circo em Portugal que foi domador de leões. Não vi nele um mau homem, não vi nele perversidade nem maldade para com os seus animais, mesmo quando a sua vida corria perigo em frente às feras selvagens.Há uns tempos tive uma conversa longa com aficionados da tourada e com forcados e não vi neles falta de respeito para com os animais, nem me pareceram jogadores de wrestling ou de box em busca de validação da sua virilidade.
O Museu do Circo em Sarasota (Flórida) que tem uma magistral maquete de um circo antigo e muito do espólio do Circo Ringling é uma delícia de visitar  e imaginar outros tempos em que o conhecimento era feito por "contacto". Os circos na sua itinerância mostravam, ensinavam e divertiam. Da mesma forma que deixaram de mostrar aberrações humanas também podem deixar de mostrar animais selvagens.
Não conheço o senhor, mas o que passa da história do argentino que fundou o zoomarine no Algarve é coerente, ele faz o que sempre soube fazer. 
Onde quero colocar o foco não é nos jardins zoológicos, nos parques de diversões com animais em semicativeiro, nos tanques, nos circos, nas praças de touros, não gostava de colocar o foco no domador de leões, no amestrador de orcas, ou no forcado que se testam todos os dias de "espetáculo". Onde quero colocar o foco é no público que mantém esta situação e até a potencía, vibra e grita na busca de aberrações que alimentem a sua imaginação e quem sabe sua inconsciente perversidade. 
Acredito que tudo, quando deixar de ser um "negócio de milhões"  acaba. Por estranho que pareça (e não os coloco no lugar de vítimas nem lá perto) ponto de vista de onde vos escrevo, o que vejo de mais vulnerável é o lugar do domador, do treinador de orcas ou do forcado, gente que aprendeu e acredita que o seu lugar na história está certo, que quer fazer bem o seu "trabalho". Estes vão ficar "desempregados" porque muita gente em muitos anos comprou bilhetes e os fez acreditar e desenvolver uma profissão de forma digna que lhes alimentou os filhos e os brilhos da roupa. 

A sociedade muda em grupo, em conjunto. Quando deixar de haver público e curiosidade pelo exótico a coisa muda. Hoje os programas de televisão sobre vida selvagem, a informação, os livros, a internet democratizam acessos e conteúdos.
Por exemplo, hoje as viagens para observação de baleias superam o volume de negócio da captura e transformação de cetáceos nos Açores e atraem mais pessoas e pessoas diferentes. Por isso, mais do que um post que expõe o nome de um homem (e que eu republiquei), que o condena pela morte de três orcas talvez não seja muito justo. É possível que este homem tenha sentido profunda dor pela perda, tal como de uma pessoa amada (quem nunca chorou a morte de um animal de estimação que atire a primeira pedra). 
Somos nós, público que temos de mudar, temos de deixar de ver espetáculos que atentam contra os direitos humanos, os direitos dos animais e a exploração da natureza e a mim parece-me que não estão só nos circos ou nos aquários gigantes. Se os espetáculos com aberrações humanas terminaram, se a mulher de barba ou os jovens de duas cabeças já não ganham dinheiro em barraquinhas de pano com franjas significa que estamos a fazer caminho e que o que aí vem será melhor. Mesmo com a convicção de que somos especialistas em encontrar e explorar aberrações novas e injustas a cada tempo.
Estejamos atentos e aprendamos juntos.  

domingo, 23 de julho de 2023

Lugares que somos

Recebi uma mensagem via facebook de uma pessoa que fez parte das minhas turmas do sétimo e oitavo anos, sem memória de encontros posteriores. Reconheceu-me numa publicação de um evento em que participei mais de trinta anos depois de uma adolescência em que não cabíamos no corpo que vestia roupas demasiado largas.

Ontem à noite no Uber que me trouxe àquela que é, cada vez mais, a casa dos meus pais e menos a minha, tive uma surpresa sem medida. Sou conduzida pelo namorado recente de uma amiga que a meados nos anos 90 me emprestava os livros que eu devorava com prazer e de cuja biblioteca eu li todos os volumes das Brumas de Avalon, numa juventude em que sonhava ser adulta desejosa de sair das borbulhas e do invólucro desconhecido que não se ajustava a nada e no qual não me reconhecia.

Às vezes o passado encontra-nos sem nos darmos conta. E tal como os monstros ou os medos é bom olhá-lo frente.

E que alegria sinto em ouvir as histórias de vidas que se cruzaram num tempo longínquo e que agora se visitam tão diferentes, tão vividas, tão reais.

Cumprimos-nos neste hiato e voltamos às vidas uns dos outros para lembrar que neste caminho de alguma forma seguimos fiéis a alguns sonhos de infância, resistimos à adolescência e saímos da juventude inteiros para a vida. E que vida, e que voltas não imaginadas.

Talvez esteja a entrar no estágio anterior à velhice e o que vivi na primeira parte da vida situe esta terceira num lugar de consciência e paz quando a comparo com uma memória que não é nítida, não é fílmica, mas é de sensações, flash desconexos, como os sonhos.

Que alegria em recordar um amigo que me transmitia paz e que me fazia sentir vista, que alegria recordar uma amiga que me emprestava livros e que sendo mais velha, bonita e com quem aprendia pelo espanto, representava o que desejava ser num futuro que não acreditava que acontecesse. Aconteceu.

Sinto-me profundamente grata pelas memórias que agora construo, baseadas em factos reais. Pela escola cheia de luz e portas que davam para a rua, em cujas salas, alguém reparava que me sentava à frente com uma atenção mais madura que a idade.
Pela estação rodoviária de bancos de madeira castanha polida, cheiro a tubo de escape e de altifalantes fanhosos onde me cruzava com duas irmãs altas, uma loura e outra morena, que apanhando o mesmo autocarro, me faziam companhia com sorrisos e curiosidades literárias.

Vamos ao encontro do futuro e também caminhamos ao encontro do passado, ressignificando e editando, trazendo à memória e construindo a partir do lugar onde nos encontramos agora.
O lugar onde escolhemos ser nós mesmos, e naquele em que nos reconhecemos e temos o dom ou a graça de ser reconhecidos. Só nesse reconhecimento tem lugar o amor, tem lugar o futuro.

Como sempre escrevo para mim, para não me esquecer do que não consigo colocar em palavras e não me esquecer da emoção de encontrar e ter sido encontrada por um Jorge, um Bruno, uma Teresa, uma Cecília... que já não conheço, mas com quem me cruzei naquele lugar onde as coisas não mudam, que é o coração.
A esperança, também, começa aqui.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Pontos

Voltei a caminhar. Como gosto deste tempo em movimento. 

Gosto de olhar para os campos e identificar folhagem que será moldura de futuros girassóis, folhagem que é oxigénio para as batatas ou flores que se perpetuarão através de ervilhas ou favas. Quando reconheço uma planta pela folha é como me lembrar do nome de alguém conhecido. Dar nome às coisas é manter com elas laços e presença.

Gosto de sorrir para as pessoas partilhando desta forma a piada do podcast ou do áudio deixado pelas amigas, sabendo que entre quem emite o som, ou quem recebe o sorriso apenas existo eu. Vejo-me um ponto de intersecção de rectas divergentes e desconhecidas. Não seremos todos isso? Pontos de encontro do desconhecido.

Hoje voltei a caminhar e a sorrir às pessoas, consciente de que me quero habituar a apanhar sol e chuva em cinco quilómetros de passo acelerado, descobrindo a ilha que também sou.


#ilhaterceira



segunda-feira, 29 de maio de 2023

O meu crush musical do Verão


Sou deste tempo e sou feliz por isso. Este último disco do Pedro Mafama é um espanto e um encontro bom. Aquelas coisas que vês e desejas ser amiga de quem as faz, de quem as vive. Sou fã.

Ao ouvir o disco transporto-me para os bailes dos Meios, Trinta e Fernão Joanes no início dos anos 90... Um tempo em que era muito envergonhada, mas também muito curiosa o que é um paradoxo problemático de conjugar no modo adolescência. 

No meu caso estava no abismo e nunca dei o passo em frente, ao contrário deste disco que não tem medo de alturas. Obrigada Pedro.

#EstavaNoAbismoMasDeiUmPassoEmFrente
 

terça-feira, 25 de abril de 2023

Encontros

Ao cair do dia ponho em ordem as respostas por dar às mensagens digitais que pedem tempo e coração à pena, que é como quem diz ao teclado.
É bom ter espaço para poder partilhar sem distância com quem está longe. Uma evidência que é medida em quilómetros deixa de ser mensurável se medida com o coração.
Num destes dias procurei por algum tempo uma palavra que sintetizava o que tinha sentido num encontro recente com uma grande amiga. Por mais que procurasse não encontrei nas letras que tinha uma conjugação ajustada ao momento. Escrevi várias e assim seguiu a mensagem fiel ao sentir e ao momento. Adormeci agradecida.
Na manhã seguinte, ao me aperceber dos primeiros sinais de luz a entrarem pela janela e ainda no limbo dos sonhos que nos acordam para a vida, a palavra veio delicada e sorridente ter comigo. Retribuí o sorriso ao ver chegar sem esforço aquilo que poderia ter escrito no dia anterior.
A palavra era "comunhão" e foi ela que me encontrou adormecida e sonhadora naquela manhã de feriado.
Os nossos tempos talvez sejam balanceados entre este procurar sem preguiça e este deixarmo-nos encontrar sem medo.
Abandonarmo-nos à confiança do encontro pode ser um desafio neste tempo de produtividade e imediatismo, porque exige mais descanço e presença no sonho que força na vontade dos músculos.
Confio nos encontros.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Viagens vs tatuagens

As viagens são como as tatuagens. Depois da última queres fazer logo outra. Quando aterras naquilo a que chamas casa, tens mil planos para novos horizontes.
Há uma diferença entre as tatuagens e as viagens, as primeiras mantêm-se quase inalteradas. Com os anos podem precisar de retoques ou de um "apagamento" (qualquer uma das intervenções é dolorosa).
As viagens mudam de forma ao longo do tempo, os contornos alargam ou estreitam conforme as entranhas se transformam e a memória as constrói, no meu caso esse processo não é doloroso, transforma todo o peso das malas ou das noites à espera de transporte em momentos leves sem atrito de qualquer gravação a ferros.
A tinta de que são feitas as viagens é muito diferente da tinta de que são feitas as tatuagens, mas ambas são viciantes.









Reencontros

No espaço de dois dias encontrei em sítios e contextos diferentes duas pessoas que não via há mais de 20 anos. O primeiro momento é aquele encontro de olhares de alguém que se reconhece, mas a quem a memória não é suficientemente rápida para decifrar factos, apenas sensações.
Estes poucos segundos são de curiosidade e incómodo. Normalmente são cortados com um sorriso (eu pelo menos não consigo estar muito tempo a olhar fixamente para uma pessoa sem estabelecer com ela alguma interação), rio para ganhar tempo.
Em ambos os momentos a pessoa à minha frente disse o meu nome e sorriu também.
Uma delas disse: "sabes Cláudia eu sabia que te conhecia, mas foi ao ver o teu sorriso que o teu nome saltou, os teus olhos continuam iguais."
Para uma pessoa que muda várias vezes de cor de cabelo, que foi mudando ao longo dos anos, que vive longe dos sítios que a viram crescer este tipo de encontros é uma benção.
Alguém me reconhecer pelo sorriso é de um conforto sem explicação.
Quero ainda fixar-me naquela fração de segundo que o cérebro não consegue apresentar factos, mas que o coração assegura que o que viveste com aquela pessoa foi bom, a sensação que vem ao de cima é de alegria e nessa infima fração de segundo sabes que já te riste com a pessoa, que ela te acolheu, te desafiou, que gostas dela. Podes não saber o nome nem fixar na linha cronológica o tempo exacto que partilharam, mas sabes, sem dúvida, que é um reencontro bom. Pode ser desta dimensão ou de outra, não precisas de factos para sorrir e agradecer o reencontro.



Sofia Areal

A vida nos filmes e a Juliette Binoche

Há dias vi o filme Clara and Claire com a Juliette Binoche que me tocou.
Acredito que as aplicações de encontros têm coisas boas. Democratizam os acessos.
Não se conhecem só as pessoas da mesma aldeia, da mesma idade, da mesma tribo ideológica, da mesma escola ou do mesmo trabalho, abrem-se novas possibilidades.
Mas a abordagem por "mensagem" é uma abordagem plana, em que lemos mais o que somos do que o que o outro é. Aqui a possibilidade de engano (ou de ilusão) é elevada ao seu expoente máximo.
Há pessoas que nas primeiras abordagens querem ouvir a voz do seu interlocutor o que dá (literalmente e metaforicamente) volume ao outro. Na voz adivinhas formas, trejeitos, origens, velocidades, mas ainda continuas no teu mundo. É bonita a ideia das pessoas gostarem de ouvir a voz umas das outras.
No meio disto tudo estão as carências e as projeções de todos os que vão a jogo com mais ou menos responsabilidade afectiva.
O filme Clara e Clare é surpreendente, por isso, tem diferentes níveis de leitura e a mim enquanto mulher tocou-me bastante.
A intimidade que podemos ter a falar com um desconhecido on-line é de uma superficialidade e facilidade surpreendentes, ao "fundo" só conseguimos ir com a presença, pois só ela nos permite podemos ser agarrados.
Acredito que o que dá densidade às relações são os encontros. Corpo e tempo conjugados no presente do verbo estar.




segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Gente (São Paulo 2022)

Quanto mais ando por São Paulo mais me parece uma imensidão, talvez porque a minha visão é condicionada por ter vivido sete anos num país com cerca de dois milhões de habitantes (um bairro aqui facilmente tem essa quantidade), ou por estar habituada a centros urbanos que percorro a pé, este parece-me um centro fora de escala ou com escala de gigantes. Gigante, aqui, é o número de pessoas. 

Não conheço o Brasil, apenas começo a conhecer um pouco de São Paulo e vou fixar esta primeira impressão para um dia me rir dela, como me costuma acontecer em situações idênticas. No princípio os olhos vêm os horizontes mais à nossa medida que à medida das coisas e para as “novas verdades do olhar” é importante a abertura para a mudança que só se consegue com o tempo. O tempo que torna as coisas e os sítios familiares…

Quando decidi rumar ao Brasil e aterrar em São Paulo o que mais ouvi foi: é uma cidade violenta, cuidado com os assaltos. Sente-se esse medo. Ver pessoas com armas na mão e dedo no gatilho não é uma coisa leve, mas a gente aprende a ajustar-se a esse peso.
O que me surpreendeu foi ver uma cidade cheia de mendigos e da gente remediadamente generosa que os sustenta. 
No metro vendem-se, balinhas, carteirinhas, máscaras, fones de ouvido, café, música e o mais que se possa imaginar. Não há alguém na carruagem que não compre alguma coisa ou que não dê dinheiro a outro alguém para o ajudar na cesta básica ou na refeição que é pedida de carruagem em carruagem. As pessoas compadecem-se do outro porque todos já passaram dificuldades, todos já viveram a escassez ou pelo menos, são tocados por ela.

No semáforo (farol) as pessoas pedem e dão com uma naturalidade desconcertante. 
Não se passa fome aqui e no entanto há tanta miséria.
A Praça da Sé, os entradas do metro, os viadutos perto de semáforos, as pontes, estão habitadas por gente que se abriga em tendas normalmente iguais se cobre com mantas de cor cinza e adormece perto de lixo. 
Os mendigos estão onde estão as pessoas que os podem sustentar.
Muita gente pede e muita gente dá, porque muita gente dá muita gente pede.
O lugar de onde vejo isto deixa-me muitas questões sem resposta, deixa-me por isso muito mais silêncio que razões. Por um lado é impressionante a generosidade das pessoas  é também impressiona-te a capacidade de comprar “coisinhas” das “lojas dos 300” em todo o lado que se vá, por outro o precedente que isto abre para a manutenção de uma franja da população constantemente excluída (ou auto-excluída).
Há muita gente. 








segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Terra

Hoje foi o dia das minhas árvores conhecerem o seu novo chão.

A Tília, o Castanheiro da Índia, o Ginkgo biloba, o Carvalho, uma outra árvore da qual não me lembro o nome, ganharam chão, consigam elas adaptar-se ao tempo e ao espaço. Sim, porque para mudanças não é só preciso ter vontade é preciso que vários factores se conjuguem...
Desejo muito que elas ganhem esta roleta das probabilidades e sejam felizes na sua nova terra.
Nem tudo correu como o programado, por exemplo, a mangueira ficou ainda em vaso, protegida, esperando mais resistência ao clima da Beira Baixa, ou pior algumas das mudas encomendas o ano passado não resistiram para se poderem acomodar a novos ventos.
Durante muitos anos nesta altura os meus pais visitavam dois cemitérios e honravam os seus pais, e nossos avós, enquanto eu e os meus irmãos ficávamos em casa a aproveitar a autonomia de adolescentes.
Este ano em honra dos meus mortos passo o dia de mãos na terra a afundar raízes, pois acredito de alguma forma as raizes se tocarão e insprarão os corpos a crescerem em direção à luz.

Ligo a terra ao céu antes de uma grande viagem. Deixo as árvores crescerem sozinhas enquanto eu viajo da mesma maneira.
No fundo queremos o mesmo, voar e chegar mais fundo... Que seja uma bela e óptima viagem para nós, queridas árvores.
Se tudo nos correr bem hei-de-me sentar à vossa sombra, agradecendo aos vivos e aos mortos o chão, a história e o tempo que nos faz maiores todos os dias.





terça-feira, 19 de julho de 2022

Escola de ouvido



Hoje tive uma ideia que me fez sorrir... Tenho ideias a conversar com as pessoas. Por isso talvez não sejam ideias só minhas são despertadas pelo coletivo que se encontra, são despertadas pela vontade de encontrar soluções ou pelo gosto de ver o mundo de outros pontos de vista.

Hoje inventei uma "escola de ouvido". Uma escola em que os alunos sentados da forma como entenderem aprendem de olhos fechados o som dos passáros que anunciam o amanhecer, aprendem a distinguir um rouxinal de uma rola, aprendem de ouvido a cor das aves e o movimento dos animais selvagens.

Aprendem a distinguir um didjirudú de uma flauta, um cravo de um piano e com isto aprendem o tempo de demorou a chegar de um ponto a outro.

Aprender os ritmos do djambé em contraponto com os timbalos e descobrem que se podem afinar instrumentos de percussão com sol ou com chaves de metal.

Aprendem que nem sempre existiu saxofone e com ele descobrem caves escuras onde se fazia música. 

Aprendem de ouvido a distinguir Viena de São Francisco, os aborisnes australianos dos indios da amazónia. Pelo som descobrem tempos e espaços, rituais e vulcões. Sobem às montanhas dos Andes ou descem ao Mar Morto ao mesmo ritmo do ar rarefeito ou da densidade do sal. 

Distinguem a lingua dos clics, o mandarim ou o russo, com a mesma facilidade que distinguem um tecido de algodão, seda ou lã. Ouvem falar de epopeis e nelas encontram Cavalos de Pau cujo interior, em silêncio, permitiu ganhar a guerra. 

Aprendem a distinguir poesia de prosa pelo ritmo das palavras e vão saber que nem tudo o que rima é poético e que também há narrativas escritas em verso.

Aprendem de ouvido o som dos passos com chinelos, salto alto, ou o simples ranger dos pés na areia molhada.

Não pensem os mais distraídos que não há testes nesta escola, porque os há. Os estudantes distinguem-se uns dos outros pelos sons e cada um deles partilha o som que mais gosta naquele momento e os outros adivinham de onde vem, e assim distinguem música barroca de música electrónica, jazz de blues, Bowie de Bjork.

Vai ser giro quando um deles decobrir um som novo que não está catalogado na memória e aí serão eles em conjunto a fazerem a história. Desses sons havemos de ouvir falar no futuro e espantar-nos-emos com a capacidade que os alunos têm de criar em conjunto, só porque aprenderam a ouvir.

Uns tornar-se-ão observadores de pássaros, uns músicos, outros afinadores de pianos, uns serão locutores de rádio, outros professores, uns serão pais de familia e outros serão viajantes solitários, não consigo imaginar o quanto farão tantos deles, sei apenas que a grande maioria será muito feliz.

terça-feira, 31 de maio de 2022

A chuva choveu.


Até ao último dia de maio a chuva não tinha chovido. Mostrava-se sem se chover. Muitos de nós somos assim, não vamos criticar a chuva por isso. 
Esta noite choveu. Choveu a sério. Hora e meia de chuva que chove. Chuva que se deixa cair. 
A primeira grande chuva noturna da estação. Virão outras maiores, muito maiores, mas a primeira marca-nos, ou molha-nos, conforme o lugar onde nos colocarmos.
Ainda não nos habituamos uma à outra, mesmo se nos desejamos, bom, eu desejo-a, ela talvez nem me conheça... É sempre assim com os amores platónicos.
Começou às 5 da manhã e lavou a noite antes de ela ir dormir. Lavou o dia antes de ele acordar. 
Arrefeceu os corpos que dormiam e os que acordaram para a cumprimentar. Eu acordei. 
Fiquei a ouvir chover. A ouvir os trovões envoltos em veludo num som que se arrasta como quem espreguiça.
Não consegui dormir perante a chuva e a sua força doce de quem procura caminho para crescer. Mesmo se mimada pelo vento que me tocava ao de leve a pele destapada  não consegui adormecer até que a força da chuva não se dissipou. 
A manhã acordou fresca, a rua molhada canta feliz quando os carros passam. 
Há uma leveza no ar que quero sorver porque sei que em breve a humidade vai tornar o ar irrespirável e ensinar à pele o que é chover. 

terça-feira, 24 de maio de 2022

Diz-me tu, de onde sou?

Muitas vezes me perguntam de onde sou. Não se responde a uma pergunta com outra pergunta, mas tantas vezes me apetece devolver com: Diz-me tu, de onde sou.

Não perguntamos "de quem somos" porque seria vermo-nos como posse de um outro, seria equiparar-nos a objecto possuído. Porque é que temos de ser posse de algum território?

Claro que temos gente em nós, como temos chão em nós. Temos um chão que nos viu nascer e talvez não sejamos de lá porque as "nossas gentes" apenas o pisavam por acaso. Temos gente que nos viu nascer e talvez não sejamos delas porque encontramos outros com quem pisámos mais chão ou descobrimos mais caminhos.

Secretamente quero ser do bem, do bom e do belo... O resto, se tem coordenadas geográficas, laços de sangue ou heranças, é só acessório deste território social composto por tempo, espaço,  tradições, língua, ofertas de consumo, fruições de diferentes tipos, tradições no mesmo número, educação, poder de compra, etc.

Uma certeza eu tenho, não sou de um ponto, sou de uma circunferência que alarga todos os dias como quem se espreguiça, num desejo constante de amplitude e elasticidade. O céu une isto tudo. Da próxima vez que me perguntarem, talvez responda: sou do céu... E aí volto a ter problemas porque o céu não é um lugar de vivos. Mas conseguiríamos viver sem céu? Não me parece. 


segunda-feira, 16 de maio de 2022

Sábado à noite


Já fui a festivais com menos concertos numa noite, mas, seguramente nunca com tanta variedade. 
Há noites em que vemos quatro concertos e o último é uma sinfonia em contratempo entre o piar dos pássaros que acordam o dia e o bater dos corações que continuam a desejar a noite.  
Olho para a curadoria e fico à procura do adjetivo para me caracterizar enquanto público. Claramente não é falta de flexibilidade nem de movimento. 

Amor e pertença

Tudo o que amamos nos pertence. É uma pertença para a liberdade. Não é como as "coisas" que nos pertencem para a utilidade.  Os qu...