sexta-feira, 2 de junho de 2023

Pontos

Voltei a caminhar. Como gosto deste tempo em movimento. 

Gosto de olhar para os campos e identificar folhagem que será moldura de futuros girassóis, folhagem que é oxigénio para as batatas ou flores que se perpetuarão através de ervilhas ou favas. Quando reconheço uma planta pela folha é como me lembrar do nome de alguém conhecido. Dar nome às coisas é manter com elas laços e presença.

Gosto de sorrir para as pessoas partilhando desta forma a piada do podcast ou do áudio deixado pelas amigas, sabendo que entre quem emite o som, ou quem recebe o sorriso apenas existo eu. Vejo-me um ponto de intersecção de rectas divergentes e desconhecidas. Não seremos todos isso? Pontos de encontro do desconhecido.

Hoje voltei a caminhar e a sorrir às pessoas, consciente de que me quero habituar a apanhar sol e chuva em cinco quilómetros de passo acelerado, descobrindo a ilha que também sou.


#ilhaterceira



segunda-feira, 29 de maio de 2023

O meu crush musical do Verão


Sou deste tempo e sou feliz por isso. Este último disco do Pedro Mafama é um espanto e um encontro bom. Aquelas coisas que vês e desejas ser amiga de quem as faz, de quem as vive. Sou fã.

Ao ouvir o disco transporto-me para os bailes dos Meios, Trinta e Fernão Joanes no início dos anos 90... Um tempo em que era muito envergonhada, mas também muito curiosa o que é um paradoxo problemático de conjugar no modo adolescência. 

No meu caso estava no abismo e nunca dei o passo em frente, ao contrário deste disco que não tem medo de alturas. Obrigada Pedro.

#EstavaNoAbismoMasDeiUmPassoEmFrente
 

terça-feira, 25 de abril de 2023

Encontros

Ao cair do dia ponho em ordem as respostas por dar às mensagens digitais que pedem tempo e coração à pena, que é como quem diz ao teclado.
É bom ter espaço para poder partilhar sem distância com quem está longe. Uma evidência que é medida em quilómetros deixa de ser mensurável se medida com o coração.
Num destes dias procurei por algum tempo uma palavra que sintetizava o que tinha sentido num encontro recente com uma grande amiga. Por mais que procurasse não encontrei nas letras que tinha uma conjugação ajustada ao momento. Escrevi várias e assim seguiu a mensagem fiel ao sentir e ao momento. Adormeci agradecida.
Na manhã seguinte, ao me aperceber dos primeiros sinais de luz a entrarem pela janela e ainda no limbo dos sonhos que nos acordam para a vida, a palavra veio delicada e sorridente ter comigo. Retribuí o sorriso ao ver chegar sem esforço aquilo que poderia ter escrito no dia anterior.
A palavra era "comunhão" e foi ela que me encontrou adormecida e sonhadora naquela manhã de feriado.
Os nossos tempos talvez sejam balanceados entre este procurar sem preguiça e este deixarmo-nos encontrar sem medo.
Abandonarmo-nos à confiança do encontro pode ser um desafio neste tempo de produtividade e imediatismo, porque exige mais descanço e presença no sonho que força na vontade dos músculos.
Confio nos encontros.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Viagens vs tatuagens

As viagens são como as tatuagens. Depois da última queres fazer logo outra. Quando aterras naquilo a que chamas casa, tens mil planos para novos horizontes.
Há uma diferença entre as tatuagens e as viagens, as primeiras mantêm-se quase inalteradas. Com os anos podem precisar de retoques ou de um "apagamento" (qualquer uma das intervenções é dolorosa).
As viagens mudam de forma ao longo do tempo, os contornos alargam ou estreitam conforme as entranhas se transformam e a memória as constrói, no meu caso esse processo não é doloroso, transforma todo o peso das malas ou das noites à espera de transporte em momentos leves sem atrito de qualquer gravação a ferros.
A tinta de que são feitas as viagens é muito diferente da tinta de que são feitas as tatuagens, mas ambas são viciantes.









Reencontros

No espaço de dois dias encontrei em sítios e contextos diferentes duas pessoas que não via há mais de 20 anos. O primeiro momento é aquele encontro de olhares de alguém que se reconhece, mas a quem a memória não é suficientemente rápida para decifrar factos, apenas sensações.
Estes poucos segundos são de curiosidade e incómodo. Normalmente são cortados com um sorriso (eu pelo menos não consigo estar muito tempo a olhar fixamente para uma pessoa sem estabelecer com ela alguma interação), rio para ganhar tempo.
Em ambos os momentos a pessoa à minha frente disse o meu nome e sorriu também.
Uma delas disse: "sabes Cláudia eu sabia que te conhecia, mas foi ao ver o teu sorriso que o teu nome saltou, os teus olhos continuam iguais."
Para uma pessoa que muda várias vezes de cor de cabelo, que foi mudando ao longo dos anos, que vive longe dos sítios que a viram crescer este tipo de encontros é uma benção.
Alguém me reconhecer pelo sorriso é de um conforto sem explicação.
Quero ainda fixar-me naquela fração de segundo que o cérebro não consegue apresentar factos, mas que o coração assegura que o que viveste com aquela pessoa foi bom, a sensação que vem ao de cima é de alegria e nessa infima fração de segundo sabes que já te riste com a pessoa, que ela te acolheu, te desafiou, que gostas dela. Podes não saber o nome nem fixar na linha cronológica o tempo exacto que partilharam, mas sabes, sem dúvida, que é um reencontro bom. Pode ser desta dimensão ou de outra, não precisas de factos para sorrir e agradecer o reencontro.



Sofia Areal

A vida nos filmes e a Juliette Binoche

Há dias vi o filme Clara and Claire com a Juliette Binoche que me tocou.
Acredito que as aplicações de encontros têm coisas boas. Democratizam os acessos.
Não se conhecem só as pessoas da mesma aldeia, da mesma idade, da mesma tribo ideológica, da mesma escola ou do mesmo trabalho, abrem-se novas possibilidades.
Mas a abordagem por "mensagem" é uma abordagem plana, em que lemos mais o que somos do que o que o outro é. Aqui a possibilidade de engano (ou de ilusão) é elevada ao seu expoente máximo.
Há pessoas que nas primeiras abordagens querem ouvir a voz do seu interlocutor o que dá (literalmente e metaforicamente) volume ao outro. Na voz adivinhas formas, trejeitos, origens, velocidades, mas ainda continuas no teu mundo. É bonita a ideia das pessoas gostarem de ouvir a voz umas das outras.
No meio disto tudo estão as carências e as projeções de todos os que vão a jogo com mais ou menos responsabilidade afectiva.
O filme Clara e Clare é surpreendente, por isso, tem diferentes níveis de leitura e a mim enquanto mulher tocou-me bastante.
A intimidade que podemos ter a falar com um desconhecido on-line é de uma superficialidade e facilidade surpreendentes, ao "fundo" só conseguimos ir com a presença, pois só ela nos permite podemos ser agarrados.
Acredito que o que dá densidade às relações são os encontros. Corpo e tempo conjugados no presente do verbo estar.




segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Gente (São Paulo 2022)

Quanto mais ando por São Paulo mais me parece uma imensidão, talvez porque a minha visão é condicionada por ter vivido sete anos num país com cerca de dois milhões de habitantes (um bairro aqui facilmente tem essa quantidade), ou por estar habituada a centros urbanos que percorro a pé, este parece-me um centro fora de escala ou com escala de gigantes. Gigante, aqui, é o número de pessoas. 

Não conheço o Brasil, apenas começo a conhecer um pouco de São Paulo e vou fixar esta primeira impressão para um dia me rir dela, como me costuma acontecer em situações idênticas. No princípio os olhos vêm os horizontes mais à nossa medida que à medida das coisas e para as “novas verdades do olhar” é importante a abertura para a mudança que só se consegue com o tempo. O tempo que torna as coisas e os sítios familiares…

Quando decidi rumar ao Brasil e aterrar em São Paulo o que mais ouvi foi: é uma cidade violenta, cuidado com os assaltos. Sente-se esse medo. Ver pessoas com armas na mão e dedo no gatilho não é uma coisa leve, mas a gente aprende a ajustar-se a esse peso.
O que me surpreendeu foi ver uma cidade cheia de mendigos e da gente remediadamente generosa que os sustenta. 
No metro vendem-se, balinhas, carteirinhas, máscaras, fones de ouvido, café, música e o mais que se possa imaginar. Não há alguém na carruagem que não compre alguma coisa ou que não dê dinheiro a outro alguém para o ajudar na cesta básica ou na refeição que é pedida de carruagem em carruagem. As pessoas compadecem-se do outro porque todos já passaram dificuldades, todos já viveram a escassez ou pelo menos, são tocados por ela.

No semáforo (farol) as pessoas pedem e dão com uma naturalidade desconcertante. 
Não se passa fome aqui e no entanto há tanta miséria.
A Praça da Sé, os entradas do metro, os viadutos perto de semáforos, as pontes, estão habitadas por gente que se abriga em tendas normalmente iguais se cobre com mantas de cor cinza e adormece perto de lixo. 
Os mendigos estão onde estão as pessoas que os podem sustentar.
Muita gente pede e muita gente dá, porque muita gente dá muita gente pede.
O lugar de onde vejo isto deixa-me muitas questões sem resposta, deixa-me por isso muito mais silêncio que razões. Por um lado é impressionante a generosidade das pessoas  é também impressiona-te a capacidade de comprar “coisinhas” das “lojas dos 300” em todo o lado que se vá, por outro o precedente que isto abre para a manutenção de uma franja da população constantemente excluída (ou auto-excluída).
Há muita gente. 








Amor e pertença

Tudo o que amamos nos pertence. É uma pertença para a liberdade. Não é como as "coisas" que nos pertencem para a utilidade.  Os qu...