Na rua cruzo-me inconscientemente com histórias. Histórias que caminham, incógnitas, lado a lado com a minha, rostos e formas de andar aos quais imagino enredos, amores, superações e sonhos.
Depois descrevo-as nas conversas com os mais íntimos e só volto a mim quando a pergunta surge: isso é verdade? Não sei, nem sei o nome daqueles a quem construo passados, presentes ou futuros... Pouco interessa se a história é de facto assim, o que interessa é onde me levam os olhares e os passos daqueles com quem me cruzo, a quem sorrio e a quem desejo que sejam felizes.
A realidade, essa, tem nome e não se compadece com distrações. É preciso estar atenta para me lembrar que o sr. António começou a vender nas feiras há uns cinco anos depois de ficar desempregado, nunca antes se imaginou nesta vida e hoje não se imagina noutra. É um vício isto de comprar e vender... Ele lembrar-se sempre do objecto que eu peguei na última vez que conversámos. Quero lembrar de lhe perguntar, para a semana, como correu a viagem até ao Alentejo em que a filha se vai estrear na condução. Tirou a carta por estes tempos mas ainda não se atreve a acelerar pelas ruas de Lisboa. Por isso o Sr. António continua a ir buscar todos os dias a sua menina ao trabalho e não esconde o entusiasmo de ser conduzido por ela até à casa de família.
Também fiquei entusiasmada com o pretexto que o vai fazer não montar a banca no sábado, e para a semana vou saber onde os levou esta nova aventura automobilística. Isto se os motoristas de matérias perigosas não me atrapalharem as histórias que não invento.
Um armazém ao serviço da curiosidade e da alegria... da curiosidade por tudo, da alegria por encontrar o que é meu ou aquilo que me espanta os sentidos. Um armazém da vida ou da parte dela que faz sentido partilhar.
quinta-feira, 18 de abril de 2019
segunda-feira, 1 de abril de 2019
A Ana Teresa mandou uma mensagem...
Este foi um texto que eu li esta semana aos explicandos da mãe de uma amiga, eles têm entre 13 e 14 anos e vão ter de escolher a área de estudo no ensino secundário.
Escrevo para a Carolina, para a Marta, para os dois Vascos e para o João,
Uma amiga que encontrei num dos muitos caminhos que percorri, e que já não via há anos, quase tantos anos como aqueles que tem a vossa memória, mandou-me uma mensagem pelo whatsapp, para um número de telefone que é muito mais velho que vocês. A mensagem era o convite para uma conversa com os cinco!
Eu e ela nunca mais nos vimos, e apenas vamos mantendo o contacto fugaz e filtrado, das redes sociais, que tem como base os sorrisos e as conversas que trocámos nos meses que fizemos caminho juntas.
Queria a Ana Teresa, que eu partilhasse o meu percurso em 20 minutos. Fiquem a saber que uma das coisas que define uma amizade é a disponibilidade e eu arranjei disponibilidade hoje para mudar o contador da electricidade lá de casa e vir falar convosco com muita energia!
Vocês não mais se vão lembrar desta conversa, porque vão ter na vida muitas conversas interessantes que vão guardar nos sítios onde se guardam as coisas importantes, e esta não é de todo. Eu apenas gostaria de deixar lá duas palavras. Que quando saíssem daqui ou quando a vida vos colocar perguntas difíceis, pudessem lembrar-se destas duas palavras! Imaginam que palavras são essas?
Uma é flexibilidade e outra é atenção.
Vou-vos contar resumidamente parte da minha história e vão ver que estas são duas das palavras que estão na base de tudo mesmo sem eu saber e são aquelas que eu desejo também nunca me esquecer.
Quando tinha a vossa idade não sabia em que queria trabalhar, "o que queria ser" como nos fazem acreditar quando somos pequenos, iludindo-nos que somos os que fazemos, e na verdade não somos, o que fazemos está sim, ao serviço do que somos! Somos muito para lá do que fazemos.
No sétimo ano decidi que queria ir para artes e esse agrupamento só tinha uma turma numa outra escola e era concorrido entrar na dita turma, na altura davam preferência às médias aos alunos da escola, então, com a ajuda da minha mãe, decidi mudar de escola no 9.º e entrar naquela onde no 10.º ano havia artes, nesse ano (no nono) a única vaga disponível era em desporto e por isso fiz o novo ano na turma de desporto (e foi bem diferente do que eu estava habituada), na esperança de isso me dar acesso no 10.º à área que me fizera mudar de escola. Assim aconteceu e eu terminei o secundário na área das artes, com boas notas e o corpo tonificado.
Depois estava um pouco perdida e quando estamos perdidos fazemos coisas malucas e eu concorri à Escola Superior de Teatro e Cinema para formação de actores, sem nenhuma base de representação e uma timidez do tamanho do mundo! Claro que não entrei e que foi muito penoso este processo. Mas foi ele que me mostrou que havia mais cursos naquela escola e no ano seguinte concorri para Realização Plástica do Espectáculo. Fiquei assim um ano a trabalhar em muitos biscates, a inserir inquéritos, a tomar conta de crianças ou a trabalhar num atelier de restauro. No ano seguinte, quando concorri ao "conservatório de teatro" (como os antigos chamavam), num concurso de admissão com provas na escola, concorri também à escola de restauro com provas também na escola e ao concurso geral de acesso ao ensino superior para cerâmica na ESAD das Caldas da Rainha. Três caminhos completamente diferentes. Sabem uma coisa? Entrei nas três escolas, nos três cursos e com boas médias! Tinha de escolher um. Escolhi a Escola Superior de Teatro e Cinema. E sou muito grata e feliz pelo que aprendi lá, mesmo não seguindo a carreira. Criei o meu próprio emprego em sociedade com outra pessoa e comecei a trabalhar em publicidade. Fiz muitas coisas diferentes na agência de publicidade e sonhei com outros, novos negócios e formas de trabalho colaborativo.
E como nada é definitivo 15 anos depois comecei uma nova carreira sozinha, voltei à escola, aprendo e faço coisas novas todos os dias. Hoje não trabalho em teatro, nem em agências de publicidade, trabalho em comunicação para o desenvolvimento e em produção cultural. E sabem que mais? Acredito que os empregos onde vocês vão trabalhar ainda nem têm nome, ainda estão por criar, como acredito que eu vou fazer coisas que hoje nem imagino! E no intervalo tenho experiência de vários desportos, vender aspiradores, fazer censos, servir casamentos, baptizados e servir à mesa, mesmo se ainda preciso de aperfeiçoar a minha técnica de fazer cappuccinos hehheh!
Por isso miúdos bonitos, escolham uma área de que gostem, não se preocupem se é um curso profissional ou outro ramo de ensino, preocupem-se em ter prazer em aprender, e procurem divertir-se com isso! Tenham curiosidade, um pouco de disciplina e ocupem algumas das horas que passam a tentar passar de nível nas jogos que eu já não sei o nome, a fazer algum tipo de voluntariado, ou biscate, ou trabalho, nos bombeiros, no canil, na colectividade, no lar de uma tia mais velha, na igreja ou no mecânico da rua (para quem gosta de carros), foi com este pretexto que eu fui pedir trabalho ao atelier de restauro que falei em cima, e onde aprendi muitas coisas, ganhei uns trocos, fiz bons amigos e mantenho o gosto pela "bricolage".
Acima de tudo, mantenham tatuadas estas duas palavras na vossa memória e sejam alegres e criativos! Leiam mais, vejam programas de natureza, estejam abertos a mudar de opinião, a mudar padrões de consumo, a comer menos carne, a sorrir mais, a fazer coisas diferentes todos os dias, a aprender todos os dias!
Quais foram as duas palavras que vos falei em cima?
Flexibilidade e atenção!
Desejo-vos o melhor e que não tenham medo, sejam inteligentes e escolham um curso que gostem e que vos estimule a conhecer mais, a saber mais do mundo... Invistam tempo em saber mais de vocês próprios e invistam nas amizades. Garanto-vos que as amizades que fazemos na escola são muito mais importantes do possam imaginar. Assim, acredito que daqui a trinta anos, um amigo que já não veem há muito, vos mande uma mensagem e vos convide para contarem a vossa história a meninos com a idade que vocês têm hoje! Obrigada por fazerem parte deste futuro bonito que todos desejamos construir, a vossa felicidade é fundamental para ele. Boa sorte, bom caminho!
Sugestões de leitura para os próximos dias:
Escrevo para a Carolina, para a Marta, para os dois Vascos e para o João,
Uma amiga que encontrei num dos muitos caminhos que percorri, e que já não via há anos, quase tantos anos como aqueles que tem a vossa memória, mandou-me uma mensagem pelo whatsapp, para um número de telefone que é muito mais velho que vocês. A mensagem era o convite para uma conversa com os cinco!
Eu e ela nunca mais nos vimos, e apenas vamos mantendo o contacto fugaz e filtrado, das redes sociais, que tem como base os sorrisos e as conversas que trocámos nos meses que fizemos caminho juntas.
Queria a Ana Teresa, que eu partilhasse o meu percurso em 20 minutos. Fiquem a saber que uma das coisas que define uma amizade é a disponibilidade e eu arranjei disponibilidade hoje para mudar o contador da electricidade lá de casa e vir falar convosco com muita energia!
Vocês não mais se vão lembrar desta conversa, porque vão ter na vida muitas conversas interessantes que vão guardar nos sítios onde se guardam as coisas importantes, e esta não é de todo. Eu apenas gostaria de deixar lá duas palavras. Que quando saíssem daqui ou quando a vida vos colocar perguntas difíceis, pudessem lembrar-se destas duas palavras! Imaginam que palavras são essas?
Uma é flexibilidade e outra é atenção.
Vou-vos contar resumidamente parte da minha história e vão ver que estas são duas das palavras que estão na base de tudo mesmo sem eu saber e são aquelas que eu desejo também nunca me esquecer.
Quando tinha a vossa idade não sabia em que queria trabalhar, "o que queria ser" como nos fazem acreditar quando somos pequenos, iludindo-nos que somos os que fazemos, e na verdade não somos, o que fazemos está sim, ao serviço do que somos! Somos muito para lá do que fazemos.
No sétimo ano decidi que queria ir para artes e esse agrupamento só tinha uma turma numa outra escola e era concorrido entrar na dita turma, na altura davam preferência às médias aos alunos da escola, então, com a ajuda da minha mãe, decidi mudar de escola no 9.º e entrar naquela onde no 10.º ano havia artes, nesse ano (no nono) a única vaga disponível era em desporto e por isso fiz o novo ano na turma de desporto (e foi bem diferente do que eu estava habituada), na esperança de isso me dar acesso no 10.º à área que me fizera mudar de escola. Assim aconteceu e eu terminei o secundário na área das artes, com boas notas e o corpo tonificado.
Depois estava um pouco perdida e quando estamos perdidos fazemos coisas malucas e eu concorri à Escola Superior de Teatro e Cinema para formação de actores, sem nenhuma base de representação e uma timidez do tamanho do mundo! Claro que não entrei e que foi muito penoso este processo. Mas foi ele que me mostrou que havia mais cursos naquela escola e no ano seguinte concorri para Realização Plástica do Espectáculo. Fiquei assim um ano a trabalhar em muitos biscates, a inserir inquéritos, a tomar conta de crianças ou a trabalhar num atelier de restauro. No ano seguinte, quando concorri ao "conservatório de teatro" (como os antigos chamavam), num concurso de admissão com provas na escola, concorri também à escola de restauro com provas também na escola e ao concurso geral de acesso ao ensino superior para cerâmica na ESAD das Caldas da Rainha. Três caminhos completamente diferentes. Sabem uma coisa? Entrei nas três escolas, nos três cursos e com boas médias! Tinha de escolher um. Escolhi a Escola Superior de Teatro e Cinema. E sou muito grata e feliz pelo que aprendi lá, mesmo não seguindo a carreira. Criei o meu próprio emprego em sociedade com outra pessoa e comecei a trabalhar em publicidade. Fiz muitas coisas diferentes na agência de publicidade e sonhei com outros, novos negócios e formas de trabalho colaborativo.
E como nada é definitivo 15 anos depois comecei uma nova carreira sozinha, voltei à escola, aprendo e faço coisas novas todos os dias. Hoje não trabalho em teatro, nem em agências de publicidade, trabalho em comunicação para o desenvolvimento e em produção cultural. E sabem que mais? Acredito que os empregos onde vocês vão trabalhar ainda nem têm nome, ainda estão por criar, como acredito que eu vou fazer coisas que hoje nem imagino! E no intervalo tenho experiência de vários desportos, vender aspiradores, fazer censos, servir casamentos, baptizados e servir à mesa, mesmo se ainda preciso de aperfeiçoar a minha técnica de fazer cappuccinos hehheh!
Por isso miúdos bonitos, escolham uma área de que gostem, não se preocupem se é um curso profissional ou outro ramo de ensino, preocupem-se em ter prazer em aprender, e procurem divertir-se com isso! Tenham curiosidade, um pouco de disciplina e ocupem algumas das horas que passam a tentar passar de nível nas jogos que eu já não sei o nome, a fazer algum tipo de voluntariado, ou biscate, ou trabalho, nos bombeiros, no canil, na colectividade, no lar de uma tia mais velha, na igreja ou no mecânico da rua (para quem gosta de carros), foi com este pretexto que eu fui pedir trabalho ao atelier de restauro que falei em cima, e onde aprendi muitas coisas, ganhei uns trocos, fiz bons amigos e mantenho o gosto pela "bricolage".
Acima de tudo, mantenham tatuadas estas duas palavras na vossa memória e sejam alegres e criativos! Leiam mais, vejam programas de natureza, estejam abertos a mudar de opinião, a mudar padrões de consumo, a comer menos carne, a sorrir mais, a fazer coisas diferentes todos os dias, a aprender todos os dias!
Quais foram as duas palavras que vos falei em cima?
Flexibilidade e atenção!
Desejo-vos o melhor e que não tenham medo, sejam inteligentes e escolham um curso que gostem e que vos estimule a conhecer mais, a saber mais do mundo... Invistam tempo em saber mais de vocês próprios e invistam nas amizades. Garanto-vos que as amizades que fazemos na escola são muito mais importantes do possam imaginar. Assim, acredito que daqui a trinta anos, um amigo que já não veem há muito, vos mande uma mensagem e vos convide para contarem a vossa história a meninos com a idade que vocês têm hoje! Obrigada por fazerem parte deste futuro bonito que todos desejamos construir, a vossa felicidade é fundamental para ele. Boa sorte, bom caminho!
Sugestões de leitura para os próximos dias:
domingo, 24 de março de 2019
O meu tio e o ciclone...
Os meus actos de homenagem são solitários, secretos e individuais, como sou colecionadora de coisas, encontro nas coisas a forma de me ligar aos outros tanto vivos como mortos. Quando há uma festa de família por exemplo, sem que ninguém saiba levo comigo a última prenda que ele me enviou de Moçambique, quando a coloco sorrio e sei que vamos juntos para a festa.
Tenho vários objectos assim, vários objectos para os quais sorrio e digo, sem que ninguém saiba: Vamos juntos! E são tantos os afectos que transporto nas viagens, nos caminhos, nas festas, que é quase impossível sentir-me sozinha.
Este é o desejo que tenho para todos os que na Beira (Moçambique) são vítimas das alterações climáticas, para todos os que ficaram sem chão e por todo o "futuro" que foi levado pelo vento. No imediato estas pessoas precisam de cuidados de saúde, precisam que a epidemias e as doenças como a malária e a cólera sejam controladas, precisam de ser vistos por profissionais especializados e habituados a situações de emergência. Eu e a minha família optámos por apoiar nesta fase da catástrofe os Médicos Sem Fronteiras e por isso hoje o presente de aniversário do meu tio vai para os profissionais especializados que em regime de voluntariado (remunerado), estão a trabalhar naquela região e que podem com a nossa ajuda fazer a diferença entre a vida e a morte.

Os Médicos Sem Fronteiras têm um fundo de emergência para o Ciclone Idai e actuam na região, porque este não é só um problema de Moçambique, é também do Zimbabue e do Malawi. Escolho os MSF porque conheço o trabalho e pela transparência que nos comunicam. Sabemos que o nosso donativo há-se ser utilizado em 83% e que o remanescente é repartido em despesas de estrutura (5%) e de angariação de fundos (12%). Sabemos também que sem estrutura e sem fundos os trabalhos não podem ser executados.
Opto pelo site francês, porque ainda não está operacional o site português, e porque foi o mais simples de fazer o donativo directamente para o Fundo de Emergência do Ciclone Idai. Comecei pelo espanhol mas não consegui formalizar o donativo por causa do NIF e por isso passei ao país seguinte, como faço de carro. Optei pelo pagamento por cartão de crédito e depois de formalizada a transação recebi um agradecimento do presidente dos MSF.
Assim nós celebramos a vida e agradecemos a presença do meu tio António! Desejamos que as vítimas do Ciclone Idai resistam às águas e às doenças e que a saúde volte para que uma região inteira tenha a força de reconstruir o que o vento arrancou com violência. Nós também sabemos o que é isto. Que a força e a esperança nunca nos faltem.
Parabéns e obrigada Titó!
Filme Human:
quarta-feira, 6 de março de 2019
Vejo-te passar todos os dias...
O que escrevo em baixo passou-se em Bissau há umas semanas! E hoje estava aqui a pensar na vida que se cumpre e não se cumpre... A olhar para os últimos sete anos de uma história que conheço por dentro e veio-me este episódio à cabeça, como me vieram todas as pessoas que me amam, todas as que permanecem e todas as que habitam o meu coração (pelas quais sou tão grata e feliz).
Chegava a casa depois de um jantar de amigas carregada, sem sacos (porque os plásticos são coisas que evito e os sacos de pano nem sempre estão à mão), trazia as compras de artesãos locais nos braços e uma fatia de bolo que acompanharia o antibiótico tomado a meio da noite.
Chegava a casa depois de um jantar de amigas carregada, sem sacos (porque os plásticos são coisas que evito e os sacos de pano nem sempre estão à mão), trazia as compras de artesãos locais nos braços e uma fatia de bolo que acompanharia o antibiótico tomado a meio da noite.
O guarda da casa abriu a porta, disse-me boa noite e informou-me que havia um rapaz que queria falar comigo! Eu, que não tinha visto se não as mesmas pessoas que costumam ver filmes no computador em frente ao meu portão, fiquei espantada! Já um dia a irmã de um amigo me esperara por horas, quem teria hoje aguentado até à meia noite o meu regresso a casa?
Voltei à rua e ele apontou para um dos seguranças que se levantou com tranquilidade. Mantive-me na rua em pé com a minha trouxa nos braços, cumprimentei-o e fiquei de ouvidos. Eu e todos os guardas das casas da rua que se juntam ali para passar o tempo.
Disse-me que queria falar em privado, o que não é inédito, já a semana passada uma das mulheres que trabalha num projecto que eu acompanho me pedia, em privado, ajuda para chegar a Portugal. Convidei-o para o lado de dentro do portão e ele disse que se chamava António, que me via passar todos os dias, que eu sou uma mulher muito bonita, alegre e que gostava muito de mim. Por isso queria ser meu namorado. A conjugação dos verbos é minha interpretação livre para resumir a conversa, contudo o conteúdo era exactamente este. E depois disto ficou calado, como se me estivesse a vender uns metros de pano e agora era só preciso eu escolher o padrão.
Sorri-lhe meio aparvalhada porque não queria comprar nada e não fazia a mínima ideia o que responder... Estava grata a tudo o que trazia nos braços e que sentia como protecção de um amor que me era estranho e desconfortável. Abordagens destas não são novas e não há quem não tenha uma história num táxi, no mercado ou na vida do dia a dia! Mas de um "desconhecido" que me via todos os dias, sabia os meus horários e a minha forma de andar, pareceu-me um tanto ou quanto "original" e isso deixou-me desconfortável.
Se me distraio tenho a tentação de pensar que é possível que ele saiba mais de mim que eu própria, afinal isto também é terra de feiticeiros heheh!
Estendi-lhe a mão num "passou-bem", mais espantada com o pragmatismo que pela declaração.
Agradeci a coragem e a objectividade da abordagem e disse-lhe que já tinha namorado (que é como se resolvem as coisas aqui, não por opção mas por falta de espaço...) e disse também que naquela rua passam mulheres muito bonitas e que ele vai encontrar uma mulher que goste de verdade (descartando logo a veracidade daquele sentimento...).
Se me distraio tenho a tentação de pensar que é possível que ele saiba mais de mim que eu própria, afinal isto também é terra de feiticeiros heheh!
Estendi-lhe a mão num "passou-bem", mais espantada com o pragmatismo que pela declaração.
Agradeci a coragem e a objectividade da abordagem e disse-lhe que já tinha namorado (que é como se resolvem as coisas aqui, não por opção mas por falta de espaço...) e disse também que naquela rua passam mulheres muito bonitas e que ele vai encontrar uma mulher que goste de verdade (descartando logo a veracidade daquele sentimento...).
Ele reagiu, não ao facto da possibilidade de eu ter namorado mas, ao facto de ele não estar interessado em mais nenhuma das mulheres que passavam. Claro que eu identifiquei logo esta minha velha mania de arranjar soluções para os problemas que não são meus... Só depois me dou conta desta reacção quase inconsciente e fico com vontade de morder a língua. - Estavas tão bem calada, digo para os meus botões.
Tocou-me o gesto deste homem. Esta coragem naif de alguém se dirigir ao desconhecido e simplesmente dizer-lhe: gosto de ti, quero ser teu namorado, "quero comprometer-me contigo". (Bom, claro que aqui o sentido de comprometimento é muito diferente do que eu estou habituada e isto é uma outra longa conversa que para o caso não interessa nada.) E também me tocou a minha tentação de quase lhe querer provar que ele estava enganado... E também para esta faz sentido olhar.
Confesso que nunca tinha visto o António, e nem imaginava que era vista por ele.
Nas minhas orações peço para o António o mesmo que peço para mim, que o amor o encontre e que ele se deixe encontrar. É o efeito que este acto de descaramento e coragem tem em mim.
Que dizer-lhe, se não, sorrir-lhe desejar-lhe uma noite feliz e todo o bem do mundo?
Falar-lhe que cada dia acredito mais que as relações precisam de fortes denominadores comuns, de propósitos que são maiores que a soma das partes e que para isso precisamos de ver e ser vistos... seria uma perda de tempo para ambos ainda para mais, estando eu tão carregada de tralhas, de febre e de sonhos!
Passei a cumprimentar o António sempre que passava por ele na rua, a sorrir-lhe e a tratá-lo pelo nome, e sempre que me cruzei desejei aprender com ele a não ter medo de dizer o que me vai no coração e a acreditar nos corações dos outros!
E depois de contar a história deste e doutro António à Marta ela escreveu:
"...aparecerão mil e um Antónios como as mil e uma noites mágicas em que te seja importante escutares essa voz de dentro: um grande Amor está em Ti! Entre TU e a tua Alma!! E nós os Anjos dançamos e celebramos contigo!!"
Está tudo perfeito, não há falta alguma, os anjos, esses, veem-me todos os dias sem que eu tenha a capacidade de os ver ;-)
Falar-lhe que cada dia acredito mais que as relações precisam de fortes denominadores comuns, de propósitos que são maiores que a soma das partes e que para isso precisamos de ver e ser vistos... seria uma perda de tempo para ambos ainda para mais, estando eu tão carregada de tralhas, de febre e de sonhos!
Passei a cumprimentar o António sempre que passava por ele na rua, a sorrir-lhe e a tratá-lo pelo nome, e sempre que me cruzei desejei aprender com ele a não ter medo de dizer o que me vai no coração e a acreditar nos corações dos outros!
E depois de contar a história deste e doutro António à Marta ela escreveu:
"...aparecerão mil e um Antónios como as mil e uma noites mágicas em que te seja importante escutares essa voz de dentro: um grande Amor está em Ti! Entre TU e a tua Alma!! E nós os Anjos dançamos e celebramos contigo!!"
Está tudo perfeito, não há falta alguma, os anjos, esses, veem-me todos os dias sem que eu tenha a capacidade de os ver ;-)
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
Andar...
Na calçada havia uma pegada desenhada no mosaico de pedra. Uma sola e um tacão largo de calcário preto.
Parei com a certeza que faltava o par. Um esquecimento na poética do espaço...
Olhei melhor e entendi "por dentro" que em movimento, os pés não andam lado a lado. Nunca num movimento paralelo. Equilibram-se sem se tocarem... Cruzam-se e não param, alternando a carga com confiança um no outro. Um exercício dinâmico de equilíbrio e foco.
Sorri para a calçada a pensar que por aquela porta se entra com o pé direito e que efectivamente está tudo certo, e nada falta a quem caminha.
Segui para casa feliz, pé ante pé... para não acordar desta poesia urbana.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
Violência doméstica...
Violência doméstica é aquela que é praticada em casa contra conjures, crianças ou idosos num contexto "familiar" ou de "casa". Toda a violência é condenável e esta, que ocorre em contextos privados merece uma atenção especial até porque os exemplos de abusos, ineficácia da proteção social e injustiça são cada vez mais visíveis.
A violência a que a UMAR (ver edição do Jornal de Leiria de 7 de Fevereiro de 2019) se refere é baseada em questões de género e aqui as fronteiras vão muito para lá do doméstico. O importante no meu entender é que os juízes julguem os casos enquadrados nas limites máximos das penas e não nos mínimos (que possibilitam penas suspensas e outras situações de aparente impunidade), que se abandone este clima de injustiça e que a justiça e os sistemas de proteção social sejam cada vez mais céleres nos processos, no cuidado e nas respostas às vitimas. A verdade é que sabemos que as penas graves não são, por si só, dissuasoras de comportamentos ilícitos, por isso muito há a fazer em todos os sectores da sociedade.
O mais importante é que todos ganhemos consciência que a violência não é caminho para nada nem para ninguém. Assumindo que em diferentes fases da vida, todos somos potenciais vítimas e/ou agressores, ou estaremos perto de vítimas e/ou agressores, teremos de estar atentos a comportamentos compulsivos e percebermos que não podemos tolerar abusos nem infringir abusos de nenhuma espécie, combatendo e abandonando o padrão de normalidade que a violência ocupa, ainda hoje, na nossa sociedade.
Colectivamente é importante que condenemos este tipo de comportamento (e aqui o sentido colectivo é fundamental) que sejamos alavanca para uma efectiva mudança social, consistente e continuada. Denunciar situações, apoiar as partes, estar perto das vítimas, não desresponsabilizar o agressor, são caminhos possíveis para a construção de uma sociedade mais pacífica e respeitadora da diferença e onde as relações de poder sejam justas, equilibradas e geradoras de bem estar.
A mutilação genital feminina, a violência no namoro, o assédio, os salários desiguais para o mesmo trabalho, os abusos sexuais de várias espécies, a violência doméstica, têm de sair da esfera privada ou da responsabilidade do "outro" e serem assumidos como um problema de todos, que todos somos chamados a actuar, condenar e principalmente prevenir, falando sobre ele, trazendo-o à luz e educando homens e mulheres, em todas as idades, para o respeito próprio, para o respeito mútuo, para o feminismo e para o cuidado com a pessoa humana independentemente de género, condição social, recursos, origem geográfica entre outras.
O Jornal de Leiria pediu-me um comentário para o Fórum da Semana, que na edição de 7 de Fevereiro de 2019 foi sobre "Moldura penal mais dura para crimes de violência doméstica?". Lá usei com parcimónia os 450 caracteres com espaços... Mas sobraram-me muitos que arquivo aqui em "casa" (para que todos possam ver), afinal a opinião era sobre coisas domésticas (que não podem ser caladas, escondidas ou dissimuladas)!
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
6x7...
O primeiro texto deste ano conta um episódio que vivi durante o ano que passou. É uma espécie de metáfora que resume a aprendizagem e a confiança que a vida me proporcionou nos últimos anos ou a disponibilidade que fui treinando, (ou acolhendo), para parar, entrar em relação, mudar os meus planos e seguir fazendo grandes amigos e juntos chegarmos aos sítios que desejamos, que nos fazem mais felizes... Para juntos chegarmos mais rapidamente a casa.
Conheci o João num dia de Outono em pleno centro de Leiria, num dia antes de uma viagem de regresso a Bissau! O João estava parado no meio de uma passadeira com o sinal vermelho para peões e carros à distância de braços. Eu quase corria no passeio perpendicular à passadeira mas chamou-me a atenção aquela cena, travei, voltei para trás e perguntei se precisava de alguma coisa. Estava desorientado. Procurava uma direcção.
Já no passeio conversámos um pouco, disse-me para onde queria ir e não consegui dizer simplesmente que era em frente, atravessando quatro estradas, nem todas no mesmo sentido, e percebi na pele o quanto é difícil explicar o caminho a um cego. Disse que o levava lá, e com isto aprendi a guiar um invisual. Percebendo que estava com presa, explicou-me que não chegaríamos lá, com rapidez, com o meu braço na posição onde segurava o dele, seria ele a segurar o meu. Tinha confiança quando falava do que dominava. Ri-me com ele dizendo: “quem não sabe é como quem não vê"! Naquela disciplina claramente a cega era eu. Na verdade era ele que queria ser guiado e não eu que o guiava, o caminho era do dele, o destino era o dele, a vontade era a dele... Guiar ou deixar-se ser guiado, um surpreendente jogo de diferenças.
Guiar um cego é como uma dança e o João sabe dançar bem. Anda no IPL mas não é de Leiria, está a fazer um trabalho sobre acessibilidades nos transportes públicos e tinha ido a uma reunião por causa disso. Deixei o João junto da vizinha com quem ia apanhar boleia para casa e o último gesto que lhe vi foi o de apertar o relógio e o levar ao ouvido para ouvir as horas. Tinha chegado a tempo.
Continuei correndo muito feliz por conseguir parar frente ao desconhecido sempre que é preciso. E aprendo tanto quando paro ou quando me deixo guiar pela vida e mudo o rumo para chegar mais perto de casa.
Obrigada de coração, querido João, fizeste-me ver coisas que nunca tinha visto.
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