segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Permanecer...

Andamos a tentar encontrar tantas coisas novas e surpreendentes, e as vezes o segredo é só permanecer.


Esta foi a grande lição da festa da aldeia do meu pai. Festa em honra de São Sebastião como pretexto de baile com organista e quermesse para as obras da Igreja dos Meios no Parque Natural da Serra da Estrela. 

Aprendi isto a dançar com o meu tio, com o José Teles, com a Ana, com a Angelina. Aprendi isso no sorriso e na calma da minha tia que me introduz como "a filha do Pedro" e na dedicação da mordoma que por promessa organizou a festa sozinha. 
Aprendi isto nas conversas com o Carlos, a Manuela, o Tó Bé, o Antero e com todos os que me sorriram ao som de um passado que me trouxe até aqui. 
Acolhi com espanto e sintonia uma herança que quero honrar, o gosto pela dança do meu pai, a alegria da minha avó que ao som do seu adufe animava as noites de São João. Uma memória construída é certo, construída na partilha com quem, sem me conhecer, me diz que sou daqui só de olhar para a minha cara, mesmo que não acredite na idade que lhe digo ter. Uma memória que construo olhando para o tear onde teceu o meu avô ou falando com uma menina que veio cedo encher canelas e mais tarde passou a urdir. Isto não se aprende em escolas ou museus nem se aprende com os nossos, aprende-se na casa que no fim da festa se abre para oferecer uma fatia de bolo (duas aliás) e sem olhar para o relógio insiste num brinde ao próximo ano, aprende-se nas conversas de café e com os cheiros do caminho.
Se não tivesse vindo, se não tivesse permanecido num baile que parecia terminar, se não tivesse dançado, sorrido ou conversado, nada disto seria possível. Se não tivesse permanecido esta história não permanecia em mim. Se não tivesse permanecido esta história não se teria construído, eu não me teria construído. Nada se teria perdido mas eu não teria ido um pouco mais ao encontro de mim.


sexta-feira, 27 de julho de 2018

Sinais...

Procurava o Centro de Saúde. Estava na rua certa não conseguia encontrar era o sítio.
Percorri aquilo que mais tarde percebi ser metade da rua, quando, pensava tê-la feito toda. Não havia sinal do Centro de Saúde. Estacionei o carro no início da rua. E decidi fazer a pé o caminho feito de carro. Comecei do início da rua olhando atentamente um lado e outro à procura de placas ou sinais que me dessem pistas, que me indicassem que estava no sítio certo. Nada dava sinal. 
Parou um carro. Um homem de barba branca óculos escuros e boné chamou-me.
- O que procura menina. Anda perdida? Percebi que estacionou ou carro e vejo-a desorientada. Posso ajudar? 

Sorri para ele. - Não estou desorientada, sei que a rua é esta, mas não encontro o Centro de Saúde.

Ele continua a sorrir confirmando que estou na rua certa, de facto. - Encontra o que procura a uns 300 metros à sua direita. É um espaço bonito com árvores e até pode levar o carro. Está calor para ir por baixo deste sol do meio dia. Mas andar faz bem. Não é longe.
A sorrir deixou que eu decidisse como chegar lá, desejou-me muitas felicidades e seguiu a vida dele. Eu optei por seguir a pé e fiz o caminho confiante e alegre até ao meu destino.


Esta é uma metáfora de muitos momentos da nossa vida. Sabemos onde queremos ir, estamos perto do que queremos alcançar mas andamos à toa procurando sinais que não encontramos. E depois alguém se dá ao trabalho de chamar, de nos sorrir, de se aproximar de nós. Esse gesto de generosidade, atenção e comunicação permite que continuemos o caminho seguros e sorridentes, com o foco e com a confiança nos espaços bonitos e com sombra que nos esperam no pico do Verão. 

Tocou-me a disponibilidade deste homem, o ter abrandado o carro numa cidade onde toda a gente apita a quem vai mais devagar. Toca-me a disponibilidade de todos os abraços, de todos os olhares e de todas as palavras que me dão alento para continuar. Sem elas fazemos caminho, até podemos fazer o mesmo caminho, mas seguramente não o fazemos da mesma maneira, com a mesma alegria, com a mesma firmeza ou rapidez.
É a generosidade de quem pára e a abertura de quem se deixa ver desorientado, que permite a conexão quase mágica e invisível que faz andar o mundo de forma mais segura, alegre e confiante.
Que nunca desperdicemos uma oportunidade de perguntar: Posso ajudar? E nunca desperdicemos uma oportunidade de responder: Sim, claro que pode!

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Dermografismo...

Um destes dias numa conversa sobre estética, depilação e pele, uma senhora perguntava-me se eu tinha dermografismo. Calei-me e ri-me pela pergunta e porque não sabia exactamente o que me perguntava. Interiormente respondi que sim, exteriormente a senhora comprovou, pelo toque, que não, e desta vez foi ela a rir aliviada.
No caminho para casa concluí que na verdade tenho dermografismo, não o dermografismo que ela me perguntou, não tenho nenhuma reação alérgica ou uma hiper-reação local à pressão que provoque inchaço ou que se deixe marcas de irritação. Tenho um outro tipo de "skin writing", ou seja, podia dizer à senhora que a vida escreve-me na pele sim.
Tenho marcas que não passam com anti-alérgicos, pomadas ou gelo. Há marcas que fui eu que desenhei, marcas tatuadas com palavras, há marcas de flores coloridas para alegrar os dias e há outras marcas que a vida deixou, arranhões que não escolhi e dos quais assumo parte da responsabilidade. Há macas de roupa apertada ou de vincos de lençóis. Há marcas de biquini e de creme mal espalhado deixadas por um sol que queima. Há marcas de Verão e marcas de Inverno, cicatrizes, manchas e olheiras.
Há sinais escuros, pontinhos pretos com e sem relevo que mais parece o inverso de um céu estrelado, pontinhos de diferentes tamanhos que muitas vezes me apetece unir. Pontinhos com os quais crio as minhas próprias constelações. E nesse sentido tenho dermografismo sim, porque esses sinais ou desenhos, marcas, cicatrizes ou nódoas negras não são sempre os mesmos, vão crescendo ou mudando com o tempo, e vão orientando-me o caminho como as estrelas. Sei, a partir das marcas que carrego, o que me amarrota, queima ou dá cor, sei principalmente para onde quero ir. Oriento a minha navegação por elas, mostram-me o norte e mostram quando é tempo de parar.
A pele que visto serve-me na perfeição e conta uma história que só eu sei ler.


segunda-feira, 23 de julho de 2018

Janelas...


Da minha janela vêm-se outras janelas. Dou por mim a pensar o quanto gosto de janelas. Vejo uma mulher a vestir-se, vejo camas feitas e por fazer. Vejo que neste frenesim de alugar quartos no centro de Lisboa os chariots ganham espaços e dão espaço aos quartos pequenos habitados por gente bonita. Gente que não tem problemas em fechar janelas, gente que deixa que a luz e os olhares possam entrar em espaços que dantes eram muito mais íntimos. Gosto de janelas e de portas... Gosto portanto de construções, gosto do que se edifica e se abre ao mundo.
É mesmo a abertura do edificado que me encanta. Construir para a abertura desafia, interpela e cria relação. Uma relação sem palavras. Uma relação sem toque. Uma relação de luz e de olhar. É por isso que não fecho as minhas janelas. Deve ser por isso que acordo com a luz do dia e não sinto necessidade de estores na maior parte dos dias. Estes são os dias bons, os dias em que a luz entra sem barreiras e me ilumina os sonhos e os desejos de ver cada vez mais longe e mais claro onde quer que me construa.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Portas...

Há dias na vida em que fechar a porta com as chaves lá dentro é a melhor coisa que pode acontecer. É um acto duro e solitário, feito com coragem, consciência e intencionalidade, um gesto contra-natura porque não ficam lá dentro por esquecimento, descuido ou desatenção. Ficam dentro porque não queres voltar a abrir aquela porta. Porque aprendeste na carne que não faz sentido voltar a entrar em espaços que não estão preparados para te acolher.
Não é o mesmo que sair para comprar cigarros e perder-se no mundo com as chaves no bolso. Sempre podes voltar e sempre alguém te esperará.
Sair e deixar as chaves lá dentro é entrar no mundo de mãos livres para agarrar o novo e o inesperado, sem pontas por coser ou rabos por esfolar.
Há dias na vida que temos de fechar portas para nunca mais as abrir, sem "mas", "talvez", ou "quem sabe" e seguir em frente sem nada nos bolsos, sabendo-nos apenas a voltar para nós próprios e para o Amor que nos espera sempre, sem portas.


sexta-feira, 15 de junho de 2018

in memoriam...

Fui ver um filme poético, daqueles que nos fazem sair do cinema a acreditar que o mundo vai ser melhor. Não há nada de mal em reduzir a vida a bons e maus e ver os bons ganharem. Na verdade, simplifica muito esta complexa realidade que habitamos diariamente. Tal como nos contos de fadas, só faz sentido que os bons sejam felizes para sempre e que o mal seja apaixonadamente derrotado. 
Também gosto de ir ao cinema para sonhar e descansar nas coisas belas.
A cereja no topo do bolo é sair da escuridão da sala e encontrar as ruas iluminadas com aquela luz amarela que nos aquece a imaginação por baixo de um céu que ainda não se despediu da luz do sol. Um céu claro, sem sombras que nos faz ver mais longe sem franzir os olhos, um céu que perdendo a energia do sol se deixa tranquilamente aquecer pela iluminação pública desejosa de dar brilho aos sonhos de quem passa.
O eléctrico segue estranhamente vazio, eu decido fazer parte do caminho a pé. Perto de casa sento-me no jardim a conviver mais um pouco com as luzes das dez da noite, admirando um céu que escurece sem pressa, desejando imitar-lhe o ritmo.
O jardim a esta hora é habitado por donos solitários atrelados a cães, só estes últimos com vontade de socializar e por cinco crianças que repartem entre si duas bicicletas. Fiquei feliz por ver crianças entre os 9 e os 11 anos a brincarem sozinhas na rua àquela hora. São daquelas crianças atinadinhas de óculos e roupa jeitosa que não são nem miúdos do gueto nem betos. São miúdos sem rótulos que encaixariam em qualquer definição de miúdos "normais", se isso fosse uma coisa que existisse. 
Andavam de bicicleta à vez seguindo uma ordem de inscrição informal baseada na vontade de uns e outros, dando voltas ao jardim.
A Madalena estava agora em cima a bicicleta, sem sair do mesmo sítio. O amigo gritou lá de baixo querendo saber o que se passava.
Ela respondeu: Isto é uma merda!
Ele sorriu, e perguntou se isso se dizia? E que raio de merda estava ela a fazer?
Ela respondeu com convição: A minha vida é uma merda.
Ele voltou a sorrir e perguntou-lhe divertido: Não são todas as vidas uma merda?
No meio desta pergunta ela ganha algum balanço, porque o jardim não é plano, é inevitável começar a ganhar velocidade. Quando passa à minha frente ouço-a confidenciar com a bicicleta que "desaprendeu de andar", e logo o declive se acentua e lá vai ela ganhando velocidade e controlando a trajectória com desembaraço, que o jardim exige que saiba virar e usar os travões.
Os miúdos continuam a brincar e a falar alto, mas eu já não os ouço. Fiquei-me na "merda" de vida de duas crianças de 10 anos e no "desaprender" de andar de bicicleta daquela miúda bonita.
Claro que ela não desaprendeu de andar, apenas duvidou que sabia, claro que a vida deles não é uma merda, apenas não têm consciência disso. E isto acontece com miúdos "normais", com adultos "normais", com todos. Duvidar do que somos capazes, duvidar do que já carregamos dentro, faz-nos pensar que vivemos na merda. Não há nada como a bicicleta dos amigos e uma boa descida para nos avivar a memória e nos fazer usar de forma natural e divertida o que nunca nos poderá ser tirado. 


in memoriam do Tomé (1984-2018)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Fachadas...

O senhor Jonas bateu à porta para pedir água e electricidade para as obras do prédio. É o encarregado da remodelação da fachada, simpático e educado que me trata por "senhora" e agradece sempre com extrema delicadeza e cortesia.
Não é fácil resolvermos a falta de electricidade e de água do condomínio, mas eu digo-lhe que havemos de encontrar a melhor solução (mesmo se ainda não sei qual será, ou até, se não existe de facto nenhuma solução cómoda que dependa de mim). Ele sorri a esta esperança e subitamente lembra-se que hoje não é dia de sorrir. 
- "Desculpe senhora, eu estou a rir, mas eu estou muito triste."
Mataram o sobrinho do senhor Jonas. 
As lágrimas escorrem pelo rosto moreno e são amparadas pelas mãos calejadas de pedreiro experiente. O senhor Jonas é brasileiro e trabalha em Portugal há 3 anos. A família continua no Brasil perto de Vitória no estado de Espirito Santo e ontem, no telefonema regular que faz para esposa, recebeu esta notícia.
O filho do irmão tinha 16 anos e foi assassinado. O senhor Jonas assegura que ele não se metia com drogas e era um miúdo que gostava muito de estudar, como se isso fosse o mais importante. Não me interessam os pormenores nem a bidimensionalidade da vida arrumada em bom ou mau, nem as curiosidades de tamanha brutalidade. Toda a morte é uma brutalidade. Seguro-lhe no braço e fico ali a ouvi-lo fazer o luto com uma desconhecida. 

Fala-me de quando o sobrinho era pequeno e ia ter com ele ao trabalho, faz o gesto para mostrar um menino de 80 cm "a pegar numa latinha com água e fingir fazer massa, ele brincava, dava-nos ânimo e nós a ele", suspira. "Hoje era um rapaz alto, bonito, olho azul, pele clara... Ninguém dá a vida e por isso ninguém devia tirá-la. Só Deus. Que Deus faça aqueles bandidos mudarem de vida". 
O senhor Jonas tem uma idade indefinida que eu imagino ter a forma do número sessenta. O que me disse no início destes trabalhos é que veio para Portugal em busca de uma vida melhor e mais segura, por causa da violência na sua cidade e que espera este ano trazer a sua família. Contou, na altura, a história de algumas mortes e assaltos violentos no seu bairro, na sua rua...
Hoje percebo que nunca antes havia sido assassinado ninguém tão próximo, mesmo tendo visto morrer alguns vizinhos. O senhor Jonas está triste, era chegado ao sobrinho e a distância amplia a tristeza da sua família, do seu querido irmão e de toda esta desgraça. 

O senhor Jonas está a trabalhar, como todas as segundas-feiras, e quem passa na rua e o vê energético a fazer cimento para revestir a fachada do prédio não imagina o que lhe vai por dentro. Nem eu, que lhe segurei o braço e lhe vi as lágrimas, consigo saber o que o habita. Imaginar o que vai dentro dos outros requer ir dentro de nós e revisitar as nossas histórias, as divisões onde guardamos experiências parecidas. Fui lá buscar referências para esta dor e lembrei as minhas perdas. Também me tocou aquela perda. 
Continua a ser importante tratar das fachadas. E para mim continua a ser cada vez mais importante "espreitar" lá para dentro, como permitiu hoje o senhor Jonas. Obrigada pela confiança.

Destroços...

Em Bissau, onde o Geba encontra o mar, está um barco encalhado em frente a um dos poucos espaços onde se pode tomar uma cerveja fresca a ...