segunda-feira, 16 de julho de 2018

Portas...

Há dias na vida em que fechar a porta com as chaves lá dentro é a melhor coisa que pode acontecer. É um acto duro e solitário, feito com coragem, consciência e intencionalidade, um gesto contra-natura porque não ficam lá dentro por esquecimento, descuido ou desatenção. Ficam dentro porque não queres voltar a abrir aquela porta. Porque aprendeste na carne que não faz sentido voltar a entrar em espaços que não estão preparados para te acolher.
Não é o mesmo que sair para comprar cigarros e perder-se no mundo com as chaves no bolso. Sempre podes voltar e sempre alguém te esperará.
Sair e deixar as chaves lá dentro é entrar no mundo de mãos livres para agarrar o novo e o inesperado, sem pontas por coser ou rabos por esfolar.
Há dias na vida que temos de fechar portas para nunca mais as abrir, sem "mas", "talvez", ou "quem sabe" e seguir em frente sem nada nos bolsos, sabendo-nos apenas a voltar para nós próprios e para o Amor que nos espera sempre, sem portas.


sexta-feira, 15 de junho de 2018

in memoriam...

Fui ver um filme poético, daqueles que nos fazem sair do cinema a acreditar que o mundo vai ser melhor. Não há nada de mal em reduzir a vida a bons e maus e ver os bons ganharem. Na verdade, simplifica muito esta complexa realidade que habitamos diariamente. Tal como nos contos de fadas, só faz sentido que os bons sejam felizes para sempre e que o mal seja apaixonadamente derrotado. 
Também gosto de ir ao cinema para sonhar e descansar nas coisas belas.
A cereja no topo do bolo é sair da escuridão da sala e encontrar as ruas iluminadas com aquela luz amarela que nos aquece a imaginação por baixo de um céu que ainda não se despediu da luz do sol. Um céu claro, sem sombras que nos faz ver mais longe sem franzir os olhos, um céu que perdendo a energia do sol se deixa tranquilamente aquecer pela iluminação pública desejosa de dar brilho aos sonhos de quem passa.
O eléctrico segue estranhamente vazio, eu decido fazer parte do caminho a pé. Perto de casa sento-me no jardim a conviver mais um pouco com as luzes das dez da noite, admirando um céu que escurece sem pressa, desejando imitar-lhe o ritmo.
O jardim a esta hora é habitado por donos solitários atrelados a cães, só estes últimos com vontade de socializar e por cinco crianças que repartem entre si duas bicicletas. Fiquei feliz por ver crianças entre os 9 e os 11 anos a brincarem sozinhas na rua àquela hora. São daquelas crianças atinadinhas de óculos e roupa jeitosa que não são nem miúdos do gueto nem betos. São miúdos sem rótulos que encaixariam em qualquer definição de miúdos "normais", se isso fosse uma coisa que existisse. 
Andavam de bicicleta à vez seguindo uma ordem de inscrição informal baseada na vontade de uns e outros, dando voltas ao jardim.
A Madalena estava agora em cima a bicicleta, sem sair do mesmo sítio. O amigo gritou lá de baixo querendo saber o que se passava.
Ela respondeu: Isto é uma merda!
Ele sorriu, e perguntou se isso se dizia? E que raio de merda estava ela a fazer?
Ela respondeu com convição: A minha vida é uma merda.
Ele voltou a sorrir e perguntou-lhe divertido: Não são todas as vidas uma merda?
No meio desta pergunta ela ganha algum balanço, porque o jardim não é plano, é inevitável começar a ganhar velocidade. Quando passa à minha frente ouço-a confidenciar com a bicicleta que "desaprendeu de andar", e logo o declive se acentua e lá vai ela ganhando velocidade e controlando a trajectória com desembaraço, que o jardim exige que saiba virar e usar os travões.
Os miúdos continuam a brincar e a falar alto, mas eu já não os ouço. Fiquei-me na "merda" de vida de duas crianças de 10 anos e no "desaprender" de andar de bicicleta daquela miúda bonita.
Claro que ela não desaprendeu de andar, apenas duvidou que sabia, claro que a vida deles não é uma merda, apenas não têm consciência disso. E isto acontece com miúdos "normais", com adultos "normais", com todos. Duvidar do que somos capazes, duvidar do que já carregamos dentro, faz-nos pensar que vivemos na merda. Não há nada como a bicicleta dos amigos e uma boa descida para nos avivar a memória e nos fazer usar de forma natural e divertida o que nunca nos poderá ser tirado. 


in memoriam do Tomé (1984-2018)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Fachadas...

O senhor Jonas bateu à porta para pedir água e electricidade para as obras do prédio. É o encarregado da remodelação da fachada, simpático e educado que me trata por "senhora" e agradece sempre com extrema delicadeza e cortesia.
Não é fácil resolvermos a falta de electricidade e de água do condomínio, mas eu digo-lhe que havemos de encontrar a melhor solução (mesmo se ainda não sei qual será, ou até, se não existe de facto nenhuma solução cómoda que dependa de mim). Ele sorri a esta esperança e subitamente lembra-se que hoje não é dia de sorrir. 
- "Desculpe senhora, eu estou a rir, mas eu estou muito triste."
Mataram o sobrinho do senhor Jonas. 
As lágrimas escorrem pelo rosto moreno e são amparadas pelas mãos calejadas de pedreiro experiente. O senhor Jonas é brasileiro e trabalha em Portugal há 3 anos. A família continua no Brasil perto de Vitória no estado de Espirito Santo e ontem, no telefonema regular que faz para esposa, recebeu esta notícia.
O filho do irmão tinha 16 anos e foi assassinado. O senhor Jonas assegura que ele não se metia com drogas e era um miúdo que gostava muito de estudar, como se isso fosse o mais importante. Não me interessam os pormenores nem a bidimensionalidade da vida arrumada em bom ou mau, nem as curiosidades de tamanha brutalidade. Toda a morte é uma brutalidade. Seguro-lhe no braço e fico ali a ouvi-lo fazer o luto com uma desconhecida. 

Fala-me de quando o sobrinho era pequeno e ia ter com ele ao trabalho, faz o gesto para mostrar um menino de 80 cm "a pegar numa latinha com água e fingir fazer massa, ele brincava, dava-nos ânimo e nós a ele", suspira. "Hoje era um rapaz alto, bonito, olho azul, pele clara... Ninguém dá a vida e por isso ninguém devia tirá-la. Só Deus. Que Deus faça aqueles bandidos mudarem de vida". 
O senhor Jonas tem uma idade indefinida que eu imagino ter a forma do número sessenta. O que me disse no início destes trabalhos é que veio para Portugal em busca de uma vida melhor e mais segura, por causa da violência na sua cidade e que espera este ano trazer a sua família. Contou, na altura, a história de algumas mortes e assaltos violentos no seu bairro, na sua rua...
Hoje percebo que nunca antes havia sido assassinado ninguém tão próximo, mesmo tendo visto morrer alguns vizinhos. O senhor Jonas está triste, era chegado ao sobrinho e a distância amplia a tristeza da sua família, do seu querido irmão e de toda esta desgraça. 

O senhor Jonas está a trabalhar, como todas as segundas-feiras, e quem passa na rua e o vê energético a fazer cimento para revestir a fachada do prédio não imagina o que lhe vai por dentro. Nem eu, que lhe segurei o braço e lhe vi as lágrimas, consigo saber o que o habita. Imaginar o que vai dentro dos outros requer ir dentro de nós e revisitar as nossas histórias, as divisões onde guardamos experiências parecidas. Fui lá buscar referências para esta dor e lembrei as minhas perdas. Também me tocou aquela perda. 
Continua a ser importante tratar das fachadas. E para mim continua a ser cada vez mais importante "espreitar" lá para dentro, como permitiu hoje o senhor Jonas. Obrigada pela confiança.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Coelhos...

Ofereceram-me um coelhinho de chocolate como presente de Páscoa. Gosto muito de presentes e de chocolates. Ainda assim, tirando a Páscoa e o Natal, penso que os chocolates não são presentes, porque são sempre passado... Desaparecem. Enfim eu ainda não comi o coelho, por isso ele continua presente.
Estava a olhar para ele e pensei que daria uma boa fotografia para a sequência de três imagens que uso no Instagram e lá vou eu conversar com o coelho que habita a cozinha e pergunto-lhe: estarás tu, querido coelhinho de chocolate, para os vegetarianos, da mesma forma que os cigarros de chocolate estão para as crianças? Ele não respondeu, sorri a imaginar-lhe a resposta numa voz fininha.
O primeiro cliché é pensar que o que conta é o interior. A forma é um mero artefacto da superficialidade. 
E não será a forma uma maneira de mostrar o interior? É e não é! 
O que seria do coelhinho sem a sua roupinha dourada que lhe define os olhos e o sorriso?
E o mais importante é que assim vestido eu sei que o coelho é de chocolate mesmo sem ver o chocolate.
Quando me dizem para usar decotes (que me favorecem) eu não mudo a forma (as mamas continuam as mesma) e também não mudo o interior... Ou mudo ambas?
Talvez isto venha explicado em algum dos livros que tenho aqui ao lado e seja um bom pretexto para uma boa, profunda e divertida conversa sobre arte e decoração. Sobre percepção e verdade, imaginação e desejo... Sem uma pulsão interior não há arte, e ainda assim a decoração de interiores é uma disciplina forte e importante no nosso contexto. (Um trocadilho de palavras e de sentidos heehhheh) 
Teorizo sem recorrer a fontes, sem ler outros textos que falem sobre isto, nem citar autores famosos, que a arte é um processo predominante individual (mesmo que partilhado), intencional (mesmo que espontâneo), com história (mesmo que único) que leva cada um mais dentro de si (estejamos nós de um lado ou de outro da obra), a decoração é um processo social que nos leva aos outros, um resultado para ser visto em contraponto com um resultado em si que penso ser o projecto artístico.
Dará o mesmo prazer um decote e um chocolate? Enquanto objecto um coelhinho de Páscoa sem o papel colorido que o decora é um objecto amorfo, já uma mulher com a camisola de gola alta pode ser chamada de amorfa? E de decote pode se tão apetitosa como um coelhinho de chocolate revestido a papel dourado?
Mas se o homem e a mulher não são obras de arte para que raio estou a fazer esta comparação? Não estamos a falar da mesma coisa, a menos que estejamos a falar só de mamas e por aí eu nem arrisco opinar, prefiro olhar para as obras do Jeff Koons.
Bom tempo de Páscoa para todos os coelhinhos e decotes desta complexa contemporaneidade da traição das imagens.



"A Traição das Imagens" de René Magritte (1929)







terça-feira, 6 de março de 2018

Paciência...

"A paciência é a chave para todos os problemas e a solução para todos os males."
Dizia-me um senhor na lavandaria self-service, indignado com o facto de um rapaz não ter esperado 10 minutos pela sua vez.
Aproveitava o pretexto para falar dos males do mundo e do que aprendeu com a sogra sobre "paciência" antes de ir "atestar os níveis de nicotina", enquanto esperava que a roupa acabasse o ciclo "natural" de secagem.
As lavandarias de bairro são os novos tanques comunitários, e este sinal dos tempos agrada-me porque não estraga nem mãos, nem costas, e principalmente porque permite conversar com muitos tipos de pessoas, homens e mulheres, novos e velhos... Passar do registo sociológico de comunidade a sociedade agrada-me muito e principalmente diverte-me.
Tempos bons estes, que nos fazem viver na diversidade e manter a roupa cheirosa.










sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Silêncios...

Hoje queria arrumar uma fotografia que anda no desktop há seis meses. É a fotografia de uma amiga que partiu cedo. Uma amiga cheia de vida e de luz que me inspirava à alegria e ao encontro. 
E porque é que escrevo isto agora? Porque ontem uma outra amiga se juntou a ela no céu.
Em seis meses duas mulheres fantásticas da mesma idade, e uma mão cheia de anos mais novas que eu, interrompem os seus caminhos e sonhos para ganharem horizontes que desconheço e sobre os quais tenho uma crença muito clara. Não é sobre esta crença que escrevo mas sobre este mistério da morte, que em qualquer idade é prematura, mas aos 34 e 35 anos me parece absurdo. Acredito (por causa daquela crença) que não é absurdo para quem parte, mas é definitivamente absurdo para quem fica. 
E como dar sentido a isto tudo?
Há coisas que não se conseguem explicar nem se conseguem rever em sentidos morais, religiosos, psicológicos ou filosóficos, a morte é uma dessas coisas que não encaixa pacificamente nas caixas da lógica em que arrumamos a vida.
A Rita e a Cláudia foram duas mulheres que conheci em países diferentes e em diferentes contextos de trabalho, que sempre me acolheram com uma simplicidade tocante, que sorriam à primeira interação e nesse semblante aberto descomplicavam os novelos dos dias. A Rita e a Cláudia inspiraram-me a viver, e hoje mais que nunca, inspiram-me à vida que vai para lá do acessório. Em momentos muito diferentes, em fases e idades muito diferentes, foram sempre testemunho de garra, independência, autonomia, energia, confiança, simplicidade e amor pela vida, e é isso que desejo honrar pelo privilégio que tive em cruzar-me nos seus caminhos.
Estas duas mulheres foram conforto e alegria, foram presença e festa, foram caminhantes e companheiras, foram Ubunto (eu sou porque tu és) e com isto geraram vida em mim.
E aqui me agarro e responsabilizo: a morte só faz sentido se gerar vida (como a semente). E por isso a única palavra que pode quebrar o silêncio neste momento é: OBRIAGADA!
E a crença que não se me desapega é a certeza de continuarmos juntas. 


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Setembro...

Setembro é o mês dos recomeços, ou será dos começos?
Na verdade começamos sempre a cada dia por isso talvez não haja mês para isso. E, ainda assim, 
há meses que são mais de começos que outros... Janeiro, Março e Setembro são os meus meses de recomeços, o ano novo e o meu natal, a primavera, e o tempo dos frutos maduros no final do verão, marcam o meu ritmo e as estações interiores que me regem.

Em todos estes momento há colheita e sementeira numa ordem que não é lógica nem biológica. 
Setembro é mês de recomeços e isso é maravilhosamente assustador como um salto para o vazio (onde nada falta).

Destroços...

Em Bissau, onde o Geba encontra o mar, está um barco encalhado em frente a um dos poucos espaços onde se pode tomar uma cerveja fresca a ...