O senhor Jonas bateu à porta para pedir água e electricidade para as obras do prédio. É o encarregado da remodelação da fachada, simpático e educado que me trata por "senhora" e agradece sempre com extrema delicadeza e cortesia.
Não é fácil resolvermos a falta de electricidade e de água do condomínio, mas eu digo-lhe que havemos de encontrar a melhor solução (mesmo se ainda não sei qual será, ou até, se não existe de facto nenhuma solução cómoda que dependa de mim). Ele sorri a esta esperança e subitamente lembra-se que hoje não é dia de sorrir.
- "Desculpe senhora, eu estou a rir, mas eu estou muito triste."
Mataram o sobrinho do senhor Jonas.
As lágrimas escorrem pelo rosto moreno e são amparadas pelas mãos calejadas de pedreiro experiente. O senhor Jonas é brasileiro e trabalha em Portugal há 3 anos. A família continua no Brasil perto de Vitória no estado de Espirito Santo e ontem, no telefonema regular que faz para esposa, recebeu esta notícia.
O filho do irmão tinha 16 anos e foi assassinado. O senhor Jonas assegura que ele não se metia com drogas e era um miúdo que gostava muito de estudar, como se isso fosse o mais importante. Não me interessam os pormenores nem a bidimensionalidade da vida arrumada em bom ou mau, nem as curiosidades de tamanha brutalidade. Toda a morte é uma brutalidade. Seguro-lhe no braço e fico ali a ouvi-lo fazer o luto com uma desconhecida.
Fala-me de quando o sobrinho era pequeno e ia ter com ele ao trabalho, faz o gesto para mostrar um menino de 80 cm "a pegar numa latinha com água e fingir fazer massa, ele brincava, dava-nos ânimo e nós a ele", suspira. "Hoje era um rapaz alto, bonito, olho azul, pele clara... Ninguém dá a vida e por isso ninguém devia tirá-la. Só Deus. Que Deus faça aqueles bandidos mudarem de vida".
O senhor Jonas tem uma idade indefinida que eu imagino ter a forma do número sessenta. O que me disse no início destes trabalhos é que veio para Portugal em busca de uma vida melhor e mais segura, por causa da violência na sua cidade e que espera este ano trazer a sua família. Contou, na altura, a história de algumas mortes e assaltos violentos no seu bairro, na sua rua...
Hoje percebo que nunca antes havia sido assassinado ninguém tão próximo, mesmo tendo visto morrer alguns vizinhos. O senhor Jonas está triste, era chegado ao sobrinho e a distância amplia a tristeza da sua família, do seu querido irmão e de toda esta desgraça.
O senhor Jonas está a trabalhar, como todas as segundas-feiras, e quem passa na rua e o vê energético a fazer cimento para revestir a fachada do prédio não imagina o que lhe vai por dentro. Nem eu, que lhe segurei o braço e lhe vi as lágrimas, consigo saber o que o habita. Imaginar o que vai dentro dos outros requer ir dentro de nós e revisitar as nossas histórias, as divisões onde guardamos experiências parecidas. Fui lá buscar referências para esta dor e lembrei as minhas perdas. Também me tocou aquela perda.
Continua a ser importante tratar das fachadas. E para mim continua a ser cada vez mais importante "espreitar" lá para dentro, como permitiu hoje o senhor Jonas. Obrigada pela confiança.
Um armazém ao serviço da curiosidade e da alegria... da curiosidade por tudo, da alegria por encontrar o que é meu ou aquilo que me espanta os sentidos. Um armazém da vida ou da parte dela que faz sentido partilhar.
segunda-feira, 9 de abril de 2018
quarta-feira, 4 de abril de 2018
Coelhos...
Ofereceram-me um coelhinho de chocolate como presente de Páscoa. Gosto muito de presentes e de chocolates. Ainda assim, tirando a Páscoa e o Natal, penso que os chocolates não são presentes, porque são sempre passado... Desaparecem. Enfim eu ainda não comi o coelho, por isso ele continua presente.
Estava a olhar para ele e pensei que daria uma boa fotografia para a sequência de três imagens que uso no Instagram e lá vou eu conversar com o coelho que habita a cozinha e pergunto-lhe: estarás tu, querido coelhinho de chocolate, para os vegetarianos, da mesma forma que os cigarros de chocolate estão para as crianças? Ele não respondeu, sorri a imaginar-lhe a resposta numa voz fininha.
O primeiro cliché é pensar que o que conta é o interior. A forma é um mero artefacto da superficialidade.
E não será a forma uma maneira de mostrar o interior? É e não é!
O que seria do coelhinho sem a sua roupinha dourada que lhe define os olhos e o sorriso?
E o mais importante é que assim vestido eu sei que o coelho é de chocolate mesmo sem ver o chocolate.
Quando me dizem para usar decotes (que me favorecem) eu não mudo a forma (as mamas continuam as mesma) e também não mudo o interior... Ou mudo ambas?
Talvez isto venha explicado em algum dos livros que tenho aqui ao lado e seja um bom pretexto para uma boa, profunda e divertida conversa sobre arte e decoração. Sobre percepção e verdade, imaginação e desejo... Sem uma pulsão interior não há arte, e ainda assim a decoração de interiores é uma disciplina forte e importante no nosso contexto. (Um trocadilho de palavras e de sentidos heehhheh)
Teorizo sem recorrer a fontes, sem ler outros textos que falem sobre isto, nem citar autores famosos, que a arte é um processo predominante individual (mesmo que partilhado), intencional (mesmo que espontâneo), com história (mesmo que único) que leva cada um mais dentro de si (estejamos nós de um lado ou de outro da obra), a decoração é um processo social que nos leva aos outros, um resultado para ser visto em contraponto com um resultado em si que penso ser o projecto artístico.
Dará o mesmo prazer um decote e um chocolate? Enquanto objecto um coelhinho de Páscoa sem o papel colorido que o decora é um objecto amorfo, já uma mulher com a camisola de gola alta pode ser chamada de amorfa? E de decote pode se tão apetitosa como um coelhinho de chocolate revestido a papel dourado?
Mas se o homem e a mulher não são obras de arte para que raio estou a fazer esta comparação? Não estamos a falar da mesma coisa, a menos que estejamos a falar só de mamas e por aí eu nem arrisco opinar, prefiro olhar para as obras do Jeff Koons.
Bom tempo de Páscoa para todos os coelhinhos e decotes desta complexa contemporaneidade da traição das imagens.
Estava a olhar para ele e pensei que daria uma boa fotografia para a sequência de três imagens que uso no Instagram e lá vou eu conversar com o coelho que habita a cozinha e pergunto-lhe: estarás tu, querido coelhinho de chocolate, para os vegetarianos, da mesma forma que os cigarros de chocolate estão para as crianças? Ele não respondeu, sorri a imaginar-lhe a resposta numa voz fininha.
O primeiro cliché é pensar que o que conta é o interior. A forma é um mero artefacto da superficialidade.
E não será a forma uma maneira de mostrar o interior? É e não é!
O que seria do coelhinho sem a sua roupinha dourada que lhe define os olhos e o sorriso?
E o mais importante é que assim vestido eu sei que o coelho é de chocolate mesmo sem ver o chocolate.
Quando me dizem para usar decotes (que me favorecem) eu não mudo a forma (as mamas continuam as mesma) e também não mudo o interior... Ou mudo ambas?
Talvez isto venha explicado em algum dos livros que tenho aqui ao lado e seja um bom pretexto para uma boa, profunda e divertida conversa sobre arte e decoração. Sobre percepção e verdade, imaginação e desejo... Sem uma pulsão interior não há arte, e ainda assim a decoração de interiores é uma disciplina forte e importante no nosso contexto. (Um trocadilho de palavras e de sentidos heehhheh)
Teorizo sem recorrer a fontes, sem ler outros textos que falem sobre isto, nem citar autores famosos, que a arte é um processo predominante individual (mesmo que partilhado), intencional (mesmo que espontâneo), com história (mesmo que único) que leva cada um mais dentro de si (estejamos nós de um lado ou de outro da obra), a decoração é um processo social que nos leva aos outros, um resultado para ser visto em contraponto com um resultado em si que penso ser o projecto artístico.
Dará o mesmo prazer um decote e um chocolate? Enquanto objecto um coelhinho de Páscoa sem o papel colorido que o decora é um objecto amorfo, já uma mulher com a camisola de gola alta pode ser chamada de amorfa? E de decote pode se tão apetitosa como um coelhinho de chocolate revestido a papel dourado?
Mas se o homem e a mulher não são obras de arte para que raio estou a fazer esta comparação? Não estamos a falar da mesma coisa, a menos que estejamos a falar só de mamas e por aí eu nem arrisco opinar, prefiro olhar para as obras do Jeff Koons.
Bom tempo de Páscoa para todos os coelhinhos e decotes desta complexa contemporaneidade da traição das imagens.
"A Traição das Imagens" de René Magritte (1929)
terça-feira, 6 de março de 2018
Paciência...
"A paciência é a chave para todos os problemas e a solução para todos os males."
Dizia-me um senhor na lavandaria self-service, indignado com o facto de um rapaz não ter esperado 10 minutos pela sua vez.
Aproveitava o pretexto para falar dos males do mundo e do que aprendeu com a sogra sobre "paciência" antes de ir "atestar os níveis de nicotina", enquanto esperava que a roupa acabasse o ciclo "natural" de secagem.
As lavandarias de bairro são os novos tanques comunitários, e este sinal dos tempos agrada-me porque não estraga nem mãos, nem costas, e principalmente porque permite conversar com muitos tipos de pessoas, homens e mulheres, novos e velhos... Passar do registo sociológico de comunidade a sociedade agrada-me muito e principalmente diverte-me.
Tempos bons estes, que nos fazem viver na diversidade e manter a roupa cheirosa.
Aproveitava o pretexto para falar dos males do mundo e do que aprendeu com a sogra sobre "paciência" antes de ir "atestar os níveis de nicotina", enquanto esperava que a roupa acabasse o ciclo "natural" de secagem.
As lavandarias de bairro são os novos tanques comunitários, e este sinal dos tempos agrada-me porque não estraga nem mãos, nem costas, e principalmente porque permite conversar com muitos tipos de pessoas, homens e mulheres, novos e velhos... Passar do registo sociológico de comunidade a sociedade agrada-me muito e principalmente diverte-me.
Tempos bons estes, que nos fazem viver na diversidade e manter a roupa cheirosa.
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018
Silêncios...
Hoje queria arrumar uma fotografia que anda no desktop há seis meses. É a fotografia de uma amiga que partiu cedo. Uma amiga cheia de vida e de luz que me inspirava à alegria e ao encontro.
E porque é que escrevo isto agora? Porque ontem uma outra amiga se juntou a ela no céu.
Em seis meses duas mulheres fantásticas da mesma idade, e uma mão cheia de anos mais novas que eu, interrompem os seus caminhos e sonhos para ganharem horizontes que desconheço e sobre os quais tenho uma crença muito clara. Não é sobre esta crença que escrevo mas sobre este mistério da morte, que em qualquer idade é prematura, mas aos 34 e 35 anos me parece absurdo. Acredito (por causa daquela crença) que não é absurdo para quem parte, mas é definitivamente absurdo para quem fica.
E como dar sentido a isto tudo?
Há coisas que não se conseguem explicar nem se conseguem rever em sentidos morais, religiosos, psicológicos ou filosóficos, a morte é uma dessas coisas que não encaixa pacificamente nas caixas da lógica em que arrumamos a vida.
A Rita e a Cláudia foram duas mulheres que conheci em países diferentes e em diferentes contextos de trabalho, que sempre me acolheram com uma simplicidade tocante, que sorriam à primeira interação e nesse semblante aberto descomplicavam os novelos dos dias. A Rita e a Cláudia inspiraram-me a viver, e hoje mais que nunca, inspiram-me à vida que vai para lá do acessório. Em momentos muito diferentes, em fases e idades muito diferentes, foram sempre testemunho de garra, independência, autonomia, energia, confiança, simplicidade e amor pela vida, e é isso que desejo honrar pelo privilégio que tive em cruzar-me nos seus caminhos.
Estas duas mulheres foram conforto e alegria, foram presença e festa, foram caminhantes e companheiras, foram Ubunto (eu sou porque tu és) e com isto geraram vida em mim.
E aqui me agarro e responsabilizo: a morte só faz sentido se gerar vida (como a semente). E por isso a única palavra que pode quebrar o silêncio neste momento é: OBRIAGADA!
E a crença que não se me desapega é a certeza de continuarmos juntas.
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
Setembro...
Setembro é o mês dos recomeços, ou será dos começos?
Na verdade começamos sempre a cada dia por isso talvez não haja mês para isso. E, ainda assim, há meses que são mais de começos que outros... Janeiro, Março e Setembro são os meus meses de recomeços, o ano novo e o meu natal, a primavera, e o tempo dos frutos maduros no final do verão, marcam o meu ritmo e as estações interiores que me regem.
Em todos estes momento há colheita e sementeira numa ordem que não é lógica nem biológica.
Setembro é mês de recomeços e isso é maravilhosamente assustador como um salto para o vazio (onde nada falta).
Na verdade começamos sempre a cada dia por isso talvez não haja mês para isso. E, ainda assim, há meses que são mais de começos que outros... Janeiro, Março e Setembro são os meus meses de recomeços, o ano novo e o meu natal, a primavera, e o tempo dos frutos maduros no final do verão, marcam o meu ritmo e as estações interiores que me regem.
Em todos estes momento há colheita e sementeira numa ordem que não é lógica nem biológica.
Setembro é mês de recomeços e isso é maravilhosamente assustador como um salto para o vazio (onde nada falta).
segunda-feira, 3 de julho de 2017
Buracos...
As estradas de terra ficam com buracos feitos pelas chuvas e pela passagem de carros e carros... As estradas de alcatrão também ficam com buracos e na verdade os buracos na estrada de alcatrão são muito mais "duros". Sentem-se mais, também, porque a velocidade é maior neste tipo de piso no qual o impacto dos pneus pode ser brutal.
Ainda assim só quero falar das estradas de terra batida e de velocidade.
Tenho uns amigos que moram num bairro em Bissau. Chego a casa deles por uma estrada de batida terra vermelha que até parece que nem levanta pó de tão calcada. Um destes dias estavam a arranjar a estrada. Camiões grandes descarregavam terra e pedra para taparem os buracos e duas grandes máquinas de terraplanagem, uma niveladora e um daqueles compactadores vibratórios com cilindros gigantes alisavam o pavimento vermelho vivo.
Fiquei encantada com aquele andar direito, sem solavancos que baralham fígados com baços e segui para casa aproveitando lentamente a calmaria.
Passada uma semana quando voltei à dita estrada, haviam levantado "quebra molas" de 20 em 20 metros... Quebramolas é o nome dado às lombas na Guiné-Bissau, pequenos muros que controle de velocidade, desta feita da mesma cor do pavimento e sem sinalização que desde logo faz subir o nível de surpresa... Já não são os buracos que nos desarranjam as entranhas, são agora as lombas que também se podiam chamar quebra costelas ou quebra cabeças, se não estivermos muito atentos ou agarrados a alguma coisa fixa dentro do carro..
É certo que a estrada deixou de ter buracos, ainda assim o incomodo para o corpo é o mesmo. Esta brincadeira "concavóconvexa" deixa-me perplexa.
Talvez seja mais barato aceitar os buracos como medida de limite de velocidade e sinalizar devidamente tal intencionalidade. Em todo o caso as estradas "desarranjadas" são o melhor controlo de velocidade que conheço.
Talvez seja mais barato aceitar os buracos como medida de limite de velocidade e sinalizar devidamente tal intencionalidade. Em todo o caso as estradas "desarranjadas" são o melhor controlo de velocidade que conheço.
domingo, 11 de junho de 2017
Caminho...
Saio da casa, fecho o portão da rua, arrumo a chave no bolso direito da mochila e sigo pela esquerda em direcção a um dos escritórios. Para este, faço um atalho por um campus universitário, um espaço com uma arquitectura da qual gosto muito. Um espaço a precisar de cuidado e no qual passo como que a viajar no tempo, imaginando uma herança de outros (ou minha também). Subo e desço, pequenos lances de escadas protegidos do sol por alpendres que trazem sombra ao caminho, habitado por alunos que esperam aulas. Estas passagens frescas cruzam jardins interiores, com árvores e arbustos onde se pavoneiam os mais variados animais, dos quais sempre me encantam as galinhas pretas com pintas brancas...
Neste caminho é frequente que desconhecidos me cumprimentem, pois também eu pareço uma ave rara naquele caminho. Mesmo se vou muito metida comigo imaginando histórias em rostos ou espaços desconhecidos, sigo segura ultrapassando todos os que seguem na mesma direcção que eu, não é raro ouvir um bom dia, ou um, como é que está?
Um destes dias, alguém encostado a uma parede, acompanhando a troca de passos rápidos e o anormal movimento acelerado, olha para mim e pergunta:
- Porquê tanta pressa?
Sorri sem abrandar e sem resposta. Aquela pergunta ficou-me a ressoar!
Porquê tanta pressa?
Não vou atrasada, mas sigo apressada.
A pergunta continua a fazer sentido colocar-se, até num domingo.
Porquê tanta pressa?
Neste caminho é frequente que desconhecidos me cumprimentem, pois também eu pareço uma ave rara naquele caminho. Mesmo se vou muito metida comigo imaginando histórias em rostos ou espaços desconhecidos, sigo segura ultrapassando todos os que seguem na mesma direcção que eu, não é raro ouvir um bom dia, ou um, como é que está?
Um destes dias, alguém encostado a uma parede, acompanhando a troca de passos rápidos e o anormal movimento acelerado, olha para mim e pergunta:
- Porquê tanta pressa?
Sorri sem abrandar e sem resposta. Aquela pergunta ficou-me a ressoar!
Porquê tanta pressa?
Não vou atrasada, mas sigo apressada.
A pergunta continua a fazer sentido colocar-se, até num domingo.
Porquê tanta pressa?
Antigas instalações no Banco Nacional Ultramarino em Bissau
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