Um armazém ao serviço da curiosidade e da alegria... da curiosidade por tudo, da alegria por encontrar o que é meu ou aquilo que me espanta os sentidos. Um armazém da vida ou da parte dela que faz sentido partilhar.
Há um dia em que o carro não pega. Há um dia em que corres tanto que os sapatos, velhíssimos, te fazem bolhas nos pés.Há um dia em que não há ovos nem leite em lado nenhum. Há um dia em que chegas a casa e a chave não abre a porta. Há um dia que traz de presente 50 quilos de arroz, alheiras e manjericão. Há um dia em que encontras uma amiga na rua e vais com ela quebrar o jejum. Há um dia em que as salas de tratamento são corredores e tu contas as gotas de quinino que entram na veia de outros. Há um dia em que alguém te reconhece de longe e te chama pelo nome. Há um dia em que ouves os gritos de uma velha mãe que perde o filho na cama de um hospital e ao mesmo tempo no andar de cima, ecoam os gritos da mãe que traz ao mundo um filho novo. Há um dia em que chegas à cama tão de noite que não sabes quantos dias passaram desde a última vez que aqui estiveste. Já houve um dia assim em Bissau. E todos os dias agradeço os dias intensos e imensos que se materializam em abraços, em reuniões que passam a conversas, em boleias de sorrisos com direito a experimentar roupa emprestada. Dias de conversas sobre panos e sobre viagens, artistas, arte e música. Dias em que se sonha com chutney de manga ou de caju. Dias em que se encontram alguns daqueles que não víamos há semanas e desejávamos tanto. E digo isto no plural porque é de plurais que se alimentam estes saborosos dias, mesmo que seja só um.
Estava eu à procura de um sinónimo para uma palavra difícil e logo dou com os olhos na palavra desolhar. Que palavra estranha e que estranheza bonita... Eu posso tirar os olhos a alguém ou a alguma coisa, e no mesmo termo, esforçar-me para ver melhor e mais longe. É o paradoxo do que somos. "Vale tudo menos tirar olhos" dizíamos nós nas brincadeiras quando éramos mais pequenos, e podíamos dizer se soubéssemos esta palavra, ou não pensássemos que estávamos errados "vale tudo menos desolhar" sem sabermos que às vezes, tirar olhos, ajuda ao desenvolvimento. Desolhar parece que faz parte da família de desdescer ou des-subir que são palavras que não existem ainda, mas que podem vir a existir integrando o universo da palavra descobrir.
Vivo numa casa com varanda. Uma varanda que dá para a rua perpendicular à rua principal, com nome de músico, mesmo que ninguém saiba isso! Vivo numa casa que faz esquina com a rua principal em asfalto, que dá para uma rua desnivelada de terra batida que é o acesso a todas as casas que se encontram à minha esquerda e à minha frente. Mais ou menos a meio, no lado oposto à minha varanda, há um poço que serve as casas que não têm água canalizada. No lado de fora do meu muro há um poste de luz amarela que me doura as noites quando me sento sozinha na varanda protegida dos mosquitos por uma rede fina. E como gosto deste momento de solidão nocturna a admirar o mundo que fervilha aqui à volta. Pode estar-se em silêncio com tantos barulhos à volta? Sim pode. Passa uma aragem que alivia o calor dos dias e torna tudo mais leve e nítido na noite. Os sons são muitos, parece barulho... Mas se atentar melhor, se me calar por dentro, consigo ver outras realidades sonoras que já não entram no espectro do ruído mas numa outra dimensão que não sei agora nomear. Ouve-se constantemente música, umas vezes baladas lamechas, umas vezes quizomba entre um solo de saxofone e uma canção da moda. Há canções que se repetem... E o som integra-se perfeitamente na "paisagem" que pinto de olhos fechados. Ou porque me habituei ou porque de facto assim acontece... a fronteira é tão ténue. Ouço vozes de crianças a brincarem empolgadas, alguns gritos de espanto outros de raiva. Ouço amigos que fazem festa no bar da esquina, gente que passa falando alto, gente que ri num lado, gente que ralha e não sei se estão a 2 se a 20 metros, porque a noite tem esta magia de nos trazer sons sem referência das distâncias. Os carros passam na rua José Carlos Schwarza diferentes ritmos, como que a integrar a secção rítmica de uma orquestra moderna, com diferentes tilintares de chapa, roncares de motores, alguma travagem bruta, buzinas, cargas que se movem em "caixas abertas" de camionetas que contornam buracos. Imagino um arrastar de vento em forma de v que se vai esfumando no ar à medida que os veículos de afastam. E ouço também portas de carro que batem algures, como que se dum berimbau lento se tratasse. O Jó, o nosso segurança, faz as suas lições de Português e lê em voz alta o seu livro da escola, numa língua que tenho dificuldade em reconhecer como minha. Rendo-me a este esforço de aprender e a este som de quem repete mecanicamente um desejo profundo. Este o primeiro passo para o conhecimento... Há movimento nas casas em frente, um movimento tranquilo de quem aprecia a noite como eu e se senta nas suas cadeiras de plástico a conversar e a apanhar "uma calma" como se diz no Alentejo, afinal somos todos muito mais parecidos do que parece. Passam pessoas à minha frente, do outro lado do muro, rua acima, rua abaixo, e ao ver estes movimentos falta-me alguma coisa, percebo que a imagem não está de acordo com o som e imagino que não tenha colocado correctamente o jack nas colunas... Parece que flutuam, como que, se no meio daqueles sons todos, a rua fosse habitada apenas por espíritos, porque lhes falta o som dos passos no caminho que fazem à minha frente. Falta-me o som dos passos, e contudo aos passos não falta nada, nesta realidade imaterial que eu escrevo para tornar mais concreta em mim. O outro lado de enraizar é o flutuar, como a música. Os dois são precisos. E o som dos passos aqui, afinal, não faz falta nenhuma. Só uma nota para não me esquecer: a semana passada o Presidente da República passou por aqui e por isso taparam os buracos na estrada de asfalto que todos os anos fica ferida pelas chuvas e este ano não tinha visto ainda cura. Sabem o que isso significa? Significa que eu já não acordo de noite com o barulho das galeras dos camiões a saltarem por cima das crateras brutais e a caírem como morteiros. Significa que já nem me dou conta que tenho uma janela virada para a estrada. Significa que já nem me lembro dos buracos que por aqui havia porque deixaram de fazer barulho...
Entrei numa casa de banho pública, na verdade na casa de banho de um centro comercial no centro de Lisboa. Ao entrar já uma senhora, em frente ao espelho, olhava para dentro da carteira colocada em cima do lavatório. Entrei num cubículo ao lado de um outro cuja maçaneta segurava um casaco aos quadrados que seria daquela senhora, fechei a porta e quando saí a mesma senhora continuava a procurar algo na sua carteira, como se de um poço sem fundo se tratasse. Olhei para ela e sorri enquanto lavava as mãos. O reboliço estava instalado, as suas carteirinhas, lenços e um caderninho de argolas, usadíssimos e enrodilhados, ocuparam os lavatórios vizinhos... E ela continuava à procura. De repente como que vencida, mas tranquila, suspira e diz para mim: - Está no casaco. Rimos as duas, quando ela encontra o pentinho preto no bolso do casaco pendurado na porta atrás de nós. De volta ao espelho diz-me enquanto se penteia. - Isto é um vício que eu tenho... Lavar as mãos e pentear o cabelo, principalmente em casas de banho boas e bonitas como esta. O meu filho diz que eu tenho cabelo de rato e é verdade... Fraquinho e fininho que mal se vê, mas que quer? Ele diz que, se não pentear até fica com mais volume. E é verdade... Eu sorri enquanto secava as mãos com papel higiênico, sim, porque as máquinas de secar as mãos são as coisas mais anti-sociais que conheço nas casas de banho. Aprecio por demais a privacidade do meu cubículo com sanita que posso fechar e abomino as máquinas de secar as mãos, mas isso é outra história.... Continuando... Depois peguei no meu baton, como que a fazer companhia àquele ritual de beleza capilar sem dizer uma palavra e concordando com a opinião do seu filho. Aquele pente destruía agora, qualquer pretensão de volume naqueles finos fios cinzentos. Só me ri e desejei-lhe um bom dia ao arrumar o baton. A senhora agradeceu e respondeu: - Muito obrigada por ter estado comigo. Pelo seu sorriso. Que Deus lhe dê o dobro do que me deseja. E eu saí a pensar que conscientemente não desejei nada à senhora, apenas estive... E que o dobro de nada é nada... Mas se estar ali com ela aqueles momentos... Estar sem pensar em nada, só estar presente e prazerosamente. Se a acompanhar na busca do pente perdido, foi um momento de relação e empatia, então talvez Deus me dê em dobro, encontros, tempos, sintonias e silêncios que confortam... Em todo o caso, e mesmo que este acto não tenha rentabilidade futura na caderneta de pontos das boas obras, já recebi humildemente nesta casa de banho a gratidão de uma desconhecida, a generosidade dos votos, a gratuidade dos encontros que não se programam e não se voltam a repetir. A gratuidade e a fecundidade dos encontros são das coisas mais mágicas da vida e tantas vezes os perdemos no barulho das máquinas de secar as mãos ou na preguiça de gestos de "ficar"... E no fim de contas perdemos o que verdadeiramente nos embeleza a cara. Eu, pelo menos, tenho a certeza que saí mais bonita daquela casa de banho e não foi só por usar o baton que me deu a Stina.
As teorias, os grupos, as tribos, as estéticas, os pensamentos, as línguas, os tempos (...) têm palavras que os caracterizam. As palavras são como as roupas, vestem-nos... Dizem o que somos, mesmo que umas vezes não queiram dizer nada. Visto-me para ir à festa ou visto-me com as palavras "capacitação e empoderamento" se estou numa ONGD e por aí a fora, do "shanty shanty" colorido a cheirar a incenso, às tatuagens celtas que povoam um universo negro e introspectivo com cheiro a erva. É certo que as palavras são cheias de sinónimos e pesos diferentes e por isso, tal como a roupa, não são absolutos e estão sempre sujeitas à moda. Por exemplo, a expressão comum a todos os coachs do mundo é a bela utopia de "a minha melhor versão". Não consegues falar "coaches" se não usares no sítio certo a expressão "melhor versão". É inteligente a utilização destas palavras, reconheço isso. Pessoalmente cansa-me.
Repete-se continuamente e a todo o custo que "a minha melhor versão" depende de mim, do meu esforço, do meu investimento, do meu umbigo. Sou totalmente responsável por tudo e o meu mundo resume-se à minha força, vontade e responsabilidade. Nem discuto isto. Só sei que me cansa.
Estas palavras deixam de fazer sentido para mim principalmente depois da dúzia de horas que juntam estes dois dias, em que a gratidão e o espanto foram o motor para uma palavra que me é mais querida, luminosa, preciosa e ajustada.
A palavra do momento é inspiração.
Estar ao lado do Flora Gomes e ouvi-lo na sua simplicidade, acolhimento, inteireza e grandeza interior; ouvir o Mú Mbana, na sua pacifica melancolia que transmite respeito e ligação por um passado que se honra e nos constrói; sonhar com espaços onde a beleza, a reflexão, a alegria e a surpresa, possam ser acessíveis a todos os que desejam sonhar; amar quem termina uma mítica corrida na esperança de que "o inferno nos pode levar ao céu"; ouvir ELA do álbum Língua Franca deitada na solidão do meu querido sábado...
Menos de doze horas que me enchem de esperança no mundo e nas pessoas, ou melhor, no mundo que podemos (nós pessoas) construir, não só com as nossas melhores versões, mas com tudo o que somos. Um mundo que podemos construir inspirando-nos, conscientes das nossas contradições, idiossincrasias, incoerências e desconhecimentos...
Quando saio de um bailado saio sonhando ser bailarina e danço, por dentro, durante dias aqueles movimentos. Quem me vende o bilhete não imagina que não compro um lugar para me sentar naquele momento, compro a possibilidade de aquele espectáculo ter lugar em mim durante alguns dias.
Umas horas como estas ficarão em mim durante alguns dias a inspirar-me a vida, o olhar e o caminho... Sem esforço, só com abertura e leveza, como passos de bailarina em palco. Na certeza que depois disto passar a Vida me vai oferecer gratuitamente outro bilhete, e eu e Ela sorriremos uma para a outra exactamente pelo mesmo motivo. A isto eu chamo um maravilhoso presente. Obrigada.
Há dias em que batem à porta para saber se tens electricidade paga ou se é uma puxada. Há dias em que batem à porta para oferecer um serviço sério de limpeza. Há dias em que batem à porta para oferecer um aparar de árvore. Há dias em que batem à porta para oferecer um postal ou alguns folhados de peixe. Há dias em que batem à porta para pedir um copo de água. Por aqui não se "bate à porta". Por aqui chega-se ao portão e grita-se para dentro "Kom Kom". Por aqui não se chama "Ó da casa!". Por aqui fala-se alto à soleira de uma entrada com porta ou sem porta, sem sítio para bater a mão em algo que se faça ouvir. Aqui não se bate, não se chama, é-se a própria batida. É-se a porta e a mão, é-se a percussão que anuncia que se chega, que se quer saber quem está dentro... Que se quer entrar. Kom, koommm, kom, kooomm! Digo eu sempre que chego a casa.
Na Guiné-Bissau, a Cáritas tem Centros de Recuperação Nutricional ou Centros de Reabilitação Nutricional, conforme quem os apresenta. São quase 25 espalhados por todo o país, geridos normalmente por religiosas consagradas que empregam colaboradores locais. Entre outras valências muito importantes, são espaços que respondem aos problemas de desnutrição e de educação alimentar flagrantes por aqui. Num dos dias que visitei um dos centros longínquos, pois estão o mais perto possível das pessoas que precisam, o que quer dizer de difícil acesso, a irmã responsável partilhava uma constatação: - Em tempo de festas os casos de desnutrição diminuem drasticamente. No tempo da campanha do caju, quando todos têm trabalho, e até o mais pequenino vira patrão de si mesmo, é a mesma coisa. E fiquei a pensar como é profunda, e reflexo da nossa humanidade, esta constatação. Os momentos de alegria e de festa são sinal de saúde, dão saúde e fazem-nos imunes. O trabalho, o trabalho que tem retorno, reconhecimento, o trabalho que nos melhora a vida e nos ocupa mãos e cabeça, estejamos onde estivermos, dá-nos saúde, faz-nos mais fortes, mais activos e mais felizes. Não é nenhuma ideologia política, é uma constatação no interior de um dos países com o índice de desenvolvimento mais baixo do do mundo (claro que esse índice se define aos olhos de outras gentes que não estas). Não será uma verdade absoluta num pais em que a esperança media de vida não chega aos 50 anos e onde só os mais básicos problemas de saúde têm alguma (remota) possibilidade de resposta. Num país em que os governantes mandam as suas mulheres parirem noutros países ou eles próprios nunca entrarão nos hospitais que governam, para curar um dedo que seja. Num país como este, acontece o mesmo que em todos, a festa e o trabalho são sinais de saúde, ou pelo menos de diminuição dos casos de doença! Então que num país como este, (neste campo ao mesmo nível de todos), que o trabalho e a festa sejam uma constante e a todos nos curem dos males do corpo e da alma que se instalam pela falta (ou excesso) deles.