domingo, 5 de fevereiro de 2017

Chimpanzés...

O som dos chimpanzés numa noite escura, em selva desconhecida, dá-lhes mais dois metros e uma agressividade inimaginável. 
A escuridão e o desconhecido dão ao som a dimensão dos nossos medos.
O mesmo som com luz e a olhar para os chimpanzés a saltar de árvore em árvore, ganha contornos completamente diferentes e maravilhosamente doces.
A realidade não depende da realidade....

Avançar na escuridão no Mato de Lautende, para encontrar um sítio seguro onde possamos esperar sentados que a noite se vá deitar. Ver nascer o dia ao som de insectos e de barulhentos pássaros viajantes. Ser apresentada a Coopeaferasalicundas, Albizias, Pau de Veludo ou Poilões gigantes. E depois sentir os belos chimpanzés acordarem, fazerem chichi e cocó, saltarem para as árvores, comerem mamp'tass, arreliarem os colombos e moverem-se com graça perante as diferentes flexibilidades das árvores e palmeiras que lhes servem de ninho, alimento e diversão. 
Outra realidade... Com a dimensão do respeito (e da distância) que nos faz espectadores de uma mágica realidade, que não é nossa, e onde não devemos intervir. Só estar com (e em) todos os sentidos.


@Nacho Morales (Nadju)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Táxi...

20h00 - Quero apanhar um táxi, ao meu sinal param todos e nenhum vai para onde quero ir.
Passados quinze minutos (e quinze minutos à beira de uma estrada é uma eternidade), "nó bai" entro para o banco da frente de um táxi vazio.
-Sabe, ninguém quer ir para a Praça a esta hora, por causa do engarrafamento. Muito movimento… muito tempo. Vê? Aponta para os carros parados lá ao fundo enquanto procura passageiros que queiram entrar nesta espera onde agora estamos juntos. Todos se podem juntar à espera, e contudo ninguém entra.
A maior parte das pessoas que nos fazem parar querem ir para Antula.
- Para Antula ainda é pior, uma hora de tempo ou mais. A esta hora ninguém quer ir para lá. Fica o tempo todo no trânsito. “Antula ká bai” ouvem resignados os candidatos a transporte, com cara de quem já espera há mais tempo do que eu.
As ruas estão cheias de gente, o taxista aponta para os magotes de pessoas que esperam o toca-toca… E lá vai dizendo que não há dinheiro e que as pessoas não podem andar de táxi, muitas vão a pé porque não têm dinheiro e que há poucos transportes… Sendo que eu me vejo metida no caótico trânsito da Chapa em hora de ponta e não me parece nada pouco.
Volta a insistir que não há dinheiro e há minha volta, mesmo aqui à beira da estrada e à vista de todos o mercado da "fuca" está cheio de gente a pegar e largar, lanternas a apontar os artigos, pregões a chamar os fregueses. Então explique-me por favor o que está esta gente toda na rua a fazer?
- Hummmm… vem comprar sapatos. Mil francos, dois mil francos. Mas não há dinheiro.
- Pelos vistos não há dinheiro em lado nenhum, (digo para o ar, sem esperar resposta).
O taxista boceja violentamente, esfrega a cara, mexe-se no lugar e eu pergunto:
-A que hora começou a trabalhar?
-As cinco da manhã. Estou no táxi desde as cinco da manhã e ainda não comi nada. Apenas aquela fruta pequena, mancarra e assim… Está difícil.
Eu fico com os meus botões a pensar na falta de táxis num país com trânsito caótico, na compra massiva de sapatos num país onde a maioria anda de chinelos, na falta de comida de quem trabalha de sol a sol, e a justificação do taxista não se arruma imediatamente na minha cabeça, claro que não vou questionar, vou dizer que sim com a cabeça e sorrir, afinal os taxistas não têm de ser especialistas em todas as matérias e esta parece-me complexa.
- O troco é "pa bo", digo eu no meu melhor crioulo (que é uma nódoa), ao sair do carro…

Sigo caminho pesando que talvez gaste neste simples jantar de "estrangeiro", para onde me dirijo, o que ele, alimentado por mancarra, levará duas semanas a juntar… E isto também não se arruma imediatamente na minha cabeça, e nem digo que sim, nem me sorrio. Esta é mesmo uma realidade muito complexa e o problema não estão nos chocos grelhados com salada que me esperam, mas sim no tão pouco que alguns ganham nestes mundos de diferenças abissais entre as pessoas. 
Os problemas complexos de que fala Rui Marques, em conversas que inspiram a caminhos colaborativos, sem a presunção de os resolver imediatamente. Treina-se a humildade e clareza de os desenhar para que por cima deles se invente um novo mapa ajustado e tranquilo, que nos fará chegar juntos e por estradas movimentadas, a novos e justos horizontes. "Nó bai".



terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Espera...

Espero uma amiga à porta da universidade. Espero trabalhando, arrumando fotos e respondendo a emails atrasados. 
Dou-me conta de um movimento de caminhantes sem pressas, sou estranhamente despertada por ele, um despertar diferente daquele a que estou habituada. Um despertar inverso ao que reconheço em mim. Não assusta, não abana, não me faz reagir muscularmente... E no entanto desperta-me, retira-me do que estou a fazer... Permite-me ser tocada por outro ritmo tão diferente do compasso em que me acerto e me reconheço nos dias.  
Toda a gente se move lentamente debaixo deste sol. Mesmo que a aula já tenha começado não há urgência no andar, não há sofreguidão nos passos nem velocidade nos gestos. Estive bastante tempo e não vi uma única pessoa a correr. 
Ou vêm todos demasiado cedo ou isto do tempo não lhes toca como a mim.
Olho para mim. Olho para o que corro diariamente e reconheço-me acelerada e forte. 
Dou-me conta que nem o meu esperar é esperar... Encontro sempre o que fazer, o que ler, o que escrever... O que pensar ;-)
Olho para mim e desejo este desaceleramento interior, explorar o movimento slow que tanto admiro. Acolher o ser caracol que há em mim e deixar-me deslizar na vida. Sem pressa, como estes que vejo seguirem para as aulas já começadas.
Ao mesmo tempo que observo o ritmo de quem entra, toca o telefone. Atendo. E combino com uma amiga ir correr no estádio depois do trabalho. 
Contradições, paradoxos e incoerências que me queimam os sentidos e me iluminam a alma. 



sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Perguntas secretas…

O site das finanças tem uma forma muito "humanizada" e profunda para confirmar a nossa identidade e recuperar dados. Louvo as escolhas das "perguntas secretas" que incidem na sua maioria em matéria cultural e recreativa normalmente não dedutivel em sede de IRS. Talvez estejam a pensar em algum incentivo fiscal às artes, ou seja um estudo a longo prazo para justificar o 1% do próximo orçamento de estado para a cultura. Seja como for parece-me inteligente a estratégia de usar como alavanca na identificação singular no sistema tributário a literatura, o teatro, a música, ou o cinema tão desprezados noutras opções estatais.  
Confesso que ficaria muito mais aborrecida que me perguntassem pelo mecânico ou cabeleireiro preferido, marca de carro ou hipermercado de eleição ou animal de estimação, podendo parecer mais coerente, encontro lógica não se seguir por este caminho, afinal estas não seria perguntas secretas, porque as finanças teriam alguma forma de saber a resposta.
Voltando às perguntas reais, colocam-nos de facto mais perto do que nos caracteriza e distingue enquanto pessoas, e atrevo-me a dizer que, no que toca ao que se pode fruir, nos aproxima do que é essencial para alimentar o corpo e o espírito, contudo no meu entender parte de um princípio um pouco perverso. Imaginam os senhores das finanças que nós nunca mudamos.
Devem partir do principio que entrando nós num sistema justo de redistribuição de riqueza nunca teremos poder de compra ou liberdade mental para superar o ordinário dos dias e vislumbrarmos novos horizontes.
Isto tudo porque eu já não sabia que pergunta tinha escolhido há 13 anos, a quando do meu registo na plataforma. O meu destino de férias preferido em 2004 pode ser o mesmo hoje?
Qual a minha cor preferida? E se estava naqueles dias em que me apetecia "atrapalhar e ser engraçada" e dizer todas, ou arco-íris… Naquela altura eu gostava de amarelo, hoje talvez esteja indecisa entre um amarelo torrado e um verde seco, o que escreverei daqui a 5 anos?
E se a pergunta é, qual o meu livro preferido? Em nenhum sítio aparece o ano em que fiz esta escolha (a menos que consiga entrar para alterar os dados e aí já não preciso desta resposta). Bom, de 2004 para cá já li pelo menos mais de 30 livros dos quais gostei, muitos deles melhores do que tinha lido até então e de certeza a minha resposta de hoje está aqui neste conjunto e não no noutro.
A pergunta devia ser: qual o seu livro preferido até 2004? E pronto eu faria imediatamente outro exercício de flashback e upsss! Talvez nunca chegasse à resposta certa porque hoje raleio livros que li quando era jovem e uns surpreendem-me mais que na altura e outros me desiludem profundamente. Claro isto só acontece comigo e o problema é inteiramente meu, porque não se pode agradar a todos os excêntricos da vida,muito menos num site das finanças. Ninguém me manda reler nada e o que eu tenho de fazer é escolher uma pergunta simples uma resposta para toda a vida, e não estar aqui com devaneios.

A pergunta que eu escolhi foi: Qual a minha peça preferida? Acho que ninguém ia pensar que seria a peça de roupa, pois não?
Em 2004 teria mais ou menos oito anos de visitas regulares a teatros, de 2004 até agora passaram treze anos… Em treze anos vi mais espectáculos, felizmente tive mais poder de compra (sempre reflectido nas declarações anuais de IRS) para ver outras produções e mais liberdade para entrar em propostas mais arriscadas ou fora dos circuitos. Mas pronto Tchekov é Tchekov e As Três Irmãs, ainda um texto que ecoa emocionalmente em mim sempre que volto a ele, e em todos os palcos. Confesso que se não fosse um amigo a lembrar-me da resposta talvez ainda hoje procurasse os critérios que usei naquela altura, e por isso é que ajuda (mesmo on line) ir às finanças acompanhada. É a história da humanização...

O que eu gostava de dizer aos senhores das finanças ou pelo menos o que os senhores das finanças suscitaram em mim própria, é que as perguntas são bonitas, sim senhora, ajudam a humanizar um site que é funcional e cómodo, mas que infelizmente tem a perversidade de substituir muito do apoio que pode ser dado com um sorriso àqueles que não têm internet. Por outro lado, e este é que o ponto que mais me toca, prevê que nós nos mantenhamos os mesmos, ignora que crescemos, evoluímos e que em 10 ou tantos anos possamos ter mudado de gostos, de autores e de destinos preferidos. No meu entender, seria um óptimo sinal para a economia portuguesa que tal acontecesse.
Por isso uma das sugestões é de que os programadores programem estas perguntas para que em algum lado apareça o ano em que foram respondidas, a outra sugestão é que tenhamos a possibilidade simples de as alterar assumindo e desejando que nos possamos reinventar e espantar a cada dia com novos destinos, cores, espectáculos ou livros, que cada vez nos surpreendam mais e que amemos mais. 
Também podem deixar tudo na mesma, afinal as pessoas não mudam assim tanto e como diz o meu amigo daqui a uns tempos seremos identificados para íris (e eu imagino que pelo cheiro), ou apenas incluir estas perguntas que talvez sejam mais difíceis de responder:
"Qual é a repartição de finanças preferida?" ou "Sabe para onde vão os seus impostos?"

Para o caso de alguém ficar com dúvidas ou ideias parvas informo que mudei a minha pergunta e claro está a resposta. Espero não me esquecer disso e voltar a mudar em breve.



terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Pistolas...

O caminho para o trabalho é feito de olhares e silêncios de sorrisos e de vazios... E de perplexidades. Há sempre muitas crianças na rua. Estou num nos países com uma das maiores taxas de natalidade do mundo e há sempre muitas crianças em todo o lado. Há dias cruzei-me com um menino que teria entre os oito ou os dez anos e na mão direita tinha uma pistola. Algo parecido com uma 9mm mas mais pequena e assim talvez tivesse menos milímetros... Uma pistola de plástico. Talvez uma pistola de fulminantes. No seu lado esquerdo acompanhava-o o amigo que segurava um saco de plástico por cima do ombro esquerdo. Iam descontraídos e como sempre eu seguia apressada... Talvez a pistola funcionasse com pequeninas pedras porque o vi parar para apanhar algumas do chão.
Eu tentei abrandar o passo mas ia embalada no meu ritmo de quem corre sempre para algum lado... Queria continuar atrás deles mais algum tempo, contudo era-me impossível parar com tempo, conhecem aquela sensação de parar um camião em andamento? Eu era o camião.
E na minha ultrapassagem pela direita ainda vi o miúdo a sacar da pistola, estender o braço levantá-lo à altura do ombro e fingir que atingia com um tiro, que lhe saia da boca, um outro miúdo que estava no lado oposto da estrada e que se dirigia a ele com alegria. 
Fiquei com um nó na garganta... Ou no cérebro. Lembro-me de ouvir o filho de uns amigos meus, pacifistas e sempre cuidadores da educação dos pequenos, dizer aos vinte anos que uma das coisas que mais o marcou na infância foi não poder brincar com pistolas com os amigos, porque o pai o proibia... e dizia isto com mágoa.
E lembrei-me dos índios e dos cowboys, dos piratas, das corridas e das apanhadas... 
E já de costas para os miúdos pensei que aquilo daria uma imagem fantástica, daqueles que ganham prémios no World Press Photo, que chocam e desinstalam o nosso lado burguês que apenas vê o mundo de um ponto de vista. Do ponto de vista certo, limpo, lindo, arrumado e feliz. 
Sei que também eu tirarei todas as armas aos "filhos" que me forem aparecendo na vida, e ainda assim o que desejo é não ser eu a apontar "armas" a quem brinca com elas, nem me "armar aos cucos" em assuntos que vão para lá do óbvio. 



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

De_coração...


Já ouviram falar da África Ocidental? É composta por 16 países, Benim, Burkina Faso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Libéria, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo. Dados da Wikipedia.
Uns são banhados pelo oceano atlântico, outros pelo deserto do Saara, outros pelas outras Áfricas irmãs. Esta é uma parte da África subsariana, uma parte de uma África que também é chamada de África Negra.
Uma miscelânea de culturas, etnias, histórias e um exagero de terra, céu e gentes…
Já ouviram falar de O Livro da Selva? Foi escrito em 1894, treze anos antes de Rudyard Kipling ganhar o prémio Nobel, o autor indiano que cresceu numa família inglesa, (tal como o Mogli cresceu com uma família de lobos). Há cinquenta anos a Walt Disney estreia o filme que adaptou parte do livro ao cinema. Conhecemos a selva indiana onde o Mogli cresceu.  Um menino corajoso que respeita a natureza e está do lado do bem… Defende com a sua vida valores como o fidelidade e o amor por quem sempre o ajudou, e sabe comunicar com animais.
A história é bonita e encantou… Influenciando os da minha geração e da minha cultura, maravilhados por pequenos “tarzans”, bons selvagens que nos aconchegam as mantas e habitam os sonhos, saltando livres e felizes de liana em liana.
E este é o meu enquadramento… Um clássico que ofereço ao meu afilhado quando o encontrar a bom preço numa feira do livro.
E depois desta introdução, entro no melhor hospital pediátrico de Bissau, e o que é que eu encontro?
Claro está! O Mogli, os seus amigos e muitos dos desenhos da Disney como o rato Mickey, a Mini, o pato Donald, e tantos destes intemporais clássicos das nossas vidas.
Eu percorro o hospital e a cada parede ver o Mogli e mais tarde encontrar uma menina que deve ter saído de uma versão falhada dos gremlins, deu-me assim um certo mau estar… E não era eu que estava doente.
Respira miúda e bebe água, o melhor remédio para tudo, diz-me sempre uma das minhas metades. Claro que não há em Bissau espaço melhor que este, mais arrumado, limpo e colorido, onde tudo está o melhor possível com duas grandes televisões e comodidades que fazem sentido em qualquer espaço na Europa.
E como é bonito ter havido um voluntário generoso (sim porque se este fosse um trabalho pago a minha outra metade estaria a hiperventilar) que tirou dos seus dias na fria Europa para pintar as paredes e construir com o seu tempo e dedicação o melhor hospital pediátrico de Bissau. O Walt Disney escreveria a partir daqui, uma bela história de amor por África e pelos pobrezinhos. Mas como já morreu vou continuar eu a dizer o que exigia ar e água.
Ninguém se terá questionado de ter uma criatura descorada, como o Mogli, num hospital da África Negra? Ninguém alguma vez pensou que isto pouco tem a ver com as referências das crianças que nunca viram um filme e estão demasiado longe das selvas indianas desenhadas por americanos? 
Não claro que não, imagino eu, num diálogo entre as duas que me habitam (feliz por aquele não ser um hospício, se não já por ali ficava). A outra de mim diz-me:
- Repara que os miúdos vêm coisas giras e coloridas, que todos os meninos em toda a parte do mundo vêm e gostam.
- Hummmm, não sei, talvez tenhas razão... Mas tu sabes que os elefantes Indianos são diferentes dos Africanos e os podemos distinguir pelas orelhas? E tu sabes que há histórias de meninos africanos que também podem ser contadas? Conheces o Kiriku, talvez fosse mais ajustado, se era um elemento decorativo que se procurava?
- Não comeces a inventar, está ou não está bonito?
- Está limpo, sim… E muito perto que do que eu costumo ver em Portugal ou Itália, em qualquer infantário suburbano e por isso me "entra" bem… Mas também me choca, choca-me porque estas crianças têm poucos estímulos visuais e todos os que "vêm salvar África" têm de fazê-lo pelo mais alto patamar e não pelo mínimo denominador comum. 
É preciso que estas crianças em vez de ursos polares e peixes balão vejam também as tartarugas verdes que desovam em Poilão, ou os hipopótamos de Orango. Se queres uma floresta fala-lhes dos Matos de Cantanhez, último reduto das florestas húmidas, e se queres uns macacos mostra-lhes os que passeiam nas savanas do Boé ou os Chimpanzés de Cufada. Podes fazer "mobiles" ou desenhares os milhares de pássaros coloridos e surpreendentes que passam por aqui todos os anos. E peixes? Queres falar comigo de peixes num país com mais de oitenta ilhas? Se queres estimular a relação e aliviar os tempos de espera, desenha “twists” no chão ou nas paredes para que brinquem com os pais e se distraiam estreitando laços. Se queres decorar os espaços, então usa jogos de cores onde eles descubram formas, nuvens onde inventem histórias e texturas onde se possam perguntar…
E lá estava eu embalada a falar comigo como se fosse a outra metade de mim que tivesse desenhado o Mogli e a prima dos gremlins, e na verdade foi. Foi alguém como eu que o fez, com muito boa vontade e a melhor das intenções, alguém que tem a minha cor mental (mesmo que não seja por fora), alguém que tem um jeitinho parecido com o meu e gosta de intervir nos espaços… Alguém que teve o azar de não estudar na mesma escola e a sorte de não ter a minha outra metade, que me dá sempre na cabeça e me faz perguntar para que serve isto tudo? É relevante para quem? Acrescenta o quê aos outros?
E depois ficamos as duas a olhar uma para a outra e a fã do Mogli diz com um sorriso feliz e confortado pela obra feita – É para ficar bonito e toda a gente gosta!
- E porque é que não fica? Olha bonito, bonito era ires pintar isto para o teu quarto, isso é que era bonito. E mais bonito era olhares para o que te rodeia com outros olhos, mas preferes fazer como o chimpanzé que tira o peixe da água para que não morra afogado… e não digo mais nada que felizmente chegaram os resultados das análises e já podemos ir embora. 
Não é paludismo.








sábado, 14 de janeiro de 2017

20 anos...

20 anos de estágio é algo muito bom e não é só no que toca a whisky ou vinho Porto.
Fazer 40 anos significa que vivi coisas conscientes e assumidas há mais de vinte, tenho amigos a sério (e dos bons) há mais de vinte anos, carta há mais de vinte anos… Fiz um curso sem computador, ouvia música no gira-discos, discava números, via patinagem artística na televisão, lembro-me de estreias que agora são clássicos, e participei na impressionante mobilização por Timor ou nas "manifs" contra as propinas.
É bom pertencer a uma tal geração X que acredita que o melhor está para vir, porque se compromete e envolve nisso.
Estes anos trouxeram muita coisa boa, muita coisa linda, muita coisa feliz e muita outra coisa! Trouxeram tudo o que levo na bagagem (o Pessoa diz isto mais bonitinho, é só procurar). Olho para trás e sou profundamente grata ao mistério da vida e aos milagres que me aconteceram, ao amor, aos perdões que consegui conquistar à consciência (e aos outros), e ao desprendimento que vou treinando (ou desejando) em cada passo.
O que mais me espanta são os milagres em forma de gente que foram e vieram neste mar de tempo. Umas de passagem, umas para sempre, umas que regressam com as marés, outras que eram para sempre e se afundaram, umas que não eram nada e passaram a ser, e já amo aquelas que ainda vão ser trazidas pelo vento.
Nestes vinte anos de tempo, nesta maré de vida que segue as luas e as estações, foram as pessoas os verdadeiros milagres, a partícula de Deus. Os verdadeiros portos de abrigo, embarcações seguras e remos fortes que possibilitaram dar novos mundos ao meu mundo, chegar a sítios nunca dantes visitados. Foi com gente real que tracei o mapa que me conheço… Gente feliz e gente triste, gente boa e gente à procura. Gente linda. Gente que me desinstalou, que amei e perdoei, gente que é de todo insubstituível na minha geografia.
Muitos não mais ouvirão falar de mim, uns terão más recordações, alguns quererão ainda entrar no barco e outros nunca sairão de mim como eu nunca sairei deles.
É isto que é fazer 40 anos… Conseguir rir das piadas de solteironas ou das músicas do Roberto Carlos, e dizer em voz alta, eu estou aqui e amo o que sou. Eu estou aqui inteira e feliz para o tempo que vier, sejam horas ou anos. Daqui até aos sessenta são mais vinte que se adivinham poderem ser ainda mais rápidos do que aqueles que me trouxeram até aqui… A sorte é que para os vivermos vamos ficando menos ágeis… menos rápidos na corrida e mais tranquilos de coração. O desacelerar é uma das grandes obras da criação…
Aos amores e desamores, a quem ralhei e a quem abracei, com quem ri e com chorei, a quem desiludi e a quem surpreendi, com quem caminhei, caí ou voei… Com todos celebro a vida e agradeço o tanto bem recebido, agradeço o que aprendo e o tanto que ainda está para aprender.
Nesta maré viva em que o presente é o mais eterno dos momentos, só faz sentido dizer obrigada e sorrir. Amo-vos, amo-me e quero que cresça em nós esta lamechice de nos sentirmos perto, vivos e livres todos os dias. Obrigada pelo mar que são em mim. Estamos todos de parabéns. Obrigada. 




sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Porquês...

Há muitos adultos na idade dos porquês. Viver aos quarenta aquilo que é ajustado viver aos quatro anos é muito mais comum do que imaginava... Com estes adultos em “período pré-operatório” (roubado a Piaget) é impossível manter uma conversa linear que cresça e se aprofunde na confiança e na partilha. Todo o discurso é interrompido pela suspeita...
Sim, aquilo que me parece que distingue estes adultos das crianças é a suspeita… Quando uma criança nesta altura pergunta alguma coisa move-a a vontade de conhecer coisas novas, aceita a resposta, mesmo que não a retenha ou compreenda. É uma identidade em construção, um adulto na mesma fase é uma identidade em afirmação. Quando um adulto está nesta fase de desenvolvimento, mesmo que retenha ou compreenda, nunca ficará satisfeito com a resposta e voltará ao porquê como se nada houvesse sido explicado ou partilhado.
Claro que é dos porquês que se alimenta a ciência, o conhecimento e quem sabe a evolução da espécie. E ainda assim problematizar tudo de forma autista que pouco interesse mantém nas respostas que não sejam aquelas que certificam uma teoria previamente definida, é um pouco cansativo e não leva à evolução de nenhuma das áreas do conhecimento humano... a não ser a ironia ou a paciência.
Sim, porque nesta altura não é a curiosidade do cientista nem da criança de quatro anos que alavanca o "porquê"… É antes a busca de protagonismo, e um afirmar de um sistema previamente estudado que se quer ver edificado não pelo diálogo mas pela força. Não se procuram debates mas confrontos, não se procura partilha mas imposição, não se procura o outro mas a si mesmo.
O porquê do Natal, das diferenças de género, do mal no mundo, o porquê da fé, do amor, de haver ou não haver gente feia, bonita ou assim assim, (…) ou da cor rosada nos camarões depois de cozidos. O “porque sim” é algo impensável e uma resposta com base no que pensas, defendes, vives ou diz a ciência, é sempre rebatível… Todas podem estar erradas para estes adultos que têm em si as únicas respostas possíveis aos seus porquês, embora tenham a generosidade e a insistência em “ouvir” a opinião dos outros.
Tenho cá para mim que, a grande vantagem de crescermos é aceitarmos que nem tudo se explica… Que há coisas que podem ser assim porque sim ou porque não. Sem palavras ou teorias. Que há espaços entre as respirações. Que há silêncios.
Acredito (de crença) que aceitar o abstracto da vida seja um acto de maturidade.
Também começo a pensar que estes adultos (pseudo) curiosos talvez tenham sido muito enganados quando tinham quatro anos. Não sei, mas cheira-me… E se me perguntares o porquê desta ideia, direi que é pura imaginação. Posso?


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Cadernos...

Tenho um caderno com notas… um caderno na cabeça que uso sempre que vejo uma coisa que me chama a atenção (e são tantas). Com o tempo vou conseguindo ficar cada vez mais imóvel a anotar, sem mexer um único músculo sem desviar o olhar sem sair do momento… Hoje no táxi o motorista, talvez ao ver-me assim tão imóvel e espantada a tirar as minhas notas, disse-me com um sorriso como que a explicar o que eu via: 
- É África. 
Eu sorri para ele e queria dizer-lhe: 
- Não é África, não, amigo. É a Guiné-Bissau, mais que isso é Bissau, e mais que isso ainda, é a Rotunda da Chapa com o mercado da Fuca ao fim do dia. África não é isto, África é também isto. África é muito mais que isto e com isto se faz… Não amigo, isto não é África, África é muito maior.
A Fuca é o mercado da reutilização. O mercado dos Fardos em Moçambique e tantos outros que ainda não conheço… o comércio que elimina o excedente de uns e destrói a industria de outros.
Os do norte pensarão descansados e felizes: Que bom que alguém acaba por gastar as solas dos sapatos que pouco usámos, ou as camisolas de inverno que passaram de moda…
À luz de lanternas apregoam-se chinelos e gorros a “cenfran” e passa gente curiosa em tocar e experimentar a mercadoria que se amontoa no chão em cima de plásticos rectangulares que ocupam todo o passeio.
Retenho aquela azafama-me que surge com as primeiras estrelas e provoca o engarrafamento na Chapa. Respiro com dificuldade tal a concentração de dióxido de carbono no ar, volto ao meu caderno e permaneço imóvel, não vou dizer nada ao taxista, mantenho-me a olhar e rabisco milhões de contradições até que o carro começa a andar mais rápido e me esqueço de tudo, desejosa da aula de yoga e dos alongamentos que me farão entrar no silêncio de mim.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Baratas…

Matar uma barata é algo violento para mim, imaginem para a barata.
Quando estou acompanhada a coisa fica mais fácil porque eu posso gritar, saltar um pouquinho, esconder-me naquele ar feminino e sensível que também é meu, e há sempre alguém mais forte que avança e trata do assunto. Quando eu estou com alguém que tem a sorte de começar com este estardalhaço primeiro, aí sim, eu tenho de assumir o papel do mais forte a acabar implacavelmente e impecavelmente com o assunto.
A vida tende sempre para um cinza médio, nós estamos no meio e ajustamo-nos… Se há alguém mais fraco nós somos mais fortes… E vice-versa… Uma das graças da vida é a de estamos sempre rodeados de pessoas diferentes, o que faz com que para uns sejamos fortes e para outros sejamos fracos. Uns protegemos e outros protegem-nos. Não sei como é com as baratas.
Quando estamos sozinhos e principalmente quando me encontro sozinha com uma barata… Enfim, a coisa complica, e ainda assim assumo que eu sou a mais forte e uso do meu poder.
Faço aquele gesto nervoso de "não sei se vou, não sei se fico”… ai que tenho de ser rápida, ai que é agora… tiro o chinelo faço pontaria, dou grito abafado, fecho um olho e lá vai. Crrrraaaaccc!!! Um som seco de algo estaladiço a esborrachar.


Bom, o pior que pode acontecer, e garanto que acontece, é a barata fugir para baixo de alguma coisa que depois de afastada não a mostra. Aqui imagino que ela é a encarnação do Houdini, sabendo como se libertar no último momento, e calço o chinelo, afinal "o que os olhos não vêm o coração não sente" e neste caso é mesmo verdade, ou pelo menos faço por isso.

Consumado o acto chegam as consequências… O primeiro passo é ir buscar outros chinelos. O segundo é imaginar que por artes mágicas o cadáver, entre o chão e a sola, subirá ao céu em corpo e alma e lá provará os prazeres do paraíso que tantas vezes adiou aqui na terra. O outro passo importante no imediato para superar o choque é não pensar mais no assunto e fingir que nada daquilo aconteceu. Até voltar a passar no corredor e ver o chinelo no mesmo sítio. Imagino que, não o ver seria ainda mais estranho, mas isso nunca me aconteceu. Dez vezes depois, entre beber água e ir à casa de banho, sou obrigada a tomar uma atitude, penso que não tenho 7 anos, que a barata (e felizmente o chinelo) não vai desaparecer e eu terei de enfrentar o assassinato que conscientemente perpetrei (talvez não entre na categoria de premeditação, mas sim de azar… É estar no sitio errado há hora errada, tanto para quem mata como para quem morre).

E lá vou buscar a vassoura e a pá e faço o cortejo fúnebre até ao caixote do lixo, séria, serena e rápida. Penso que "já está" e "já passou", penso no Kafka, por alguns instantes não penso em nada. No fundo desejo que este momento não se repita.
Será que é esta a atitude que temos sempre que damos de cara com a morte, quando matamos algo em nós?


NOTA: Por razões óbvias este texto não tem imagens.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Sábados...

Gosto de todos os dias da semana... e gosto particularmente dos sábados! Para ser verdadeira, os sábados são os dias de que mais gosto... Não falo dos sábados que parecem dias de semana ou domingos, não os sábados nas férias ou quando estou de viagem. Não são todos os sábados do calendário... Não falo dos sábados dos casamentos, da festa da aldeia, do passeio de clássicos nem da maratona da empresa. 
Não sou judia nem evangélica e por isso a dimensão sagrada deste dia vem da possibilidade de nele caber tudo, mesmo o nada.
Os sábados ordinários. Os sábados que permitem que não me preocupe com as horas a que me deito na sexta-feira, ou que me preparam para um noite sem horas. É aquele dia da semana em que o despertador toca para poder despertar apenas superficialmente.
Ter a manhã para sonhar, entre um rebolar na cama, tomar o pequeno almoço e voltar a deitar com um livro na mão que não é obrigatório acabar... leio até querer, até adormecer... voltar a acordar, voltar a ler, a comer... pegar no computador e ver só por ver, pegar no caderno e escrever...
Não ter de tomar banho, pentear ou vestir roupa... lavar os dentes sim e dormir a sesta, meditar... não me ouvir nem ouvir ninguém. Ficar.
Gosto de rituais, agendas, programo coisas e tenho sempre onde ir... contudo é o sábado que dá gosto e sentido ao que vivo com avidez... é o poder não fazer nada por opção, por gozo, por puro ócio, luxo, prazer ou simplicidade.
A minha vida tem de ter sábados... como tem de ter domingos e segundas e todas as feiras onde me vendo e compro como sou e o que sou. E nos sábados sou e não sou. Estou e não estou...  durmo, acordo, sonho, vejo, escrevo... e fico feliz e grata por não querer fazer nada, por fazer tudo por mim e comigo como se eu fosse a pessoa mais importante para mim e me bastasse para ser feliz com fruta no frigorífico e lençóis lavados. 
Os sábados são assim, entre o sagrado e o profano onde me encontro e partilho comigo própria. São tão bons por isso, são fundamentais por isso. Eu sou o que sou graças aos sábados. E ainda bem. Gosto.



sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Conversas...

É sabido que não falamos de tudo a toda a gente, que há conversas e assuntos que não se abordam com todos os nossos amigos… há pessoas do Sporting a quem não podemos falar do Benfica, pessoas de direita a quem não podemos falar da esquerda… e fazemos isso de forma natural e sem pensar. 
Ajustamos-nos para evitar algum desconforto ou confronto, quando desejamos viver comodamente nos “cafés ou almoços” ocasionais com gente bonita que desejamos perto. Quando o "não falar" é tranquilo e não se reveste de importância identitária para nós, tudo se mantém normal, socialmente e superficialmente confortável.
O aborrecido é quando aquilo que nos é natural tem de ser a todo o tempo suprimido… Quando o “não falar” ou “o falar” sobre alguma coisa se torna violento interiormente.
Quando entramos neste nível, em que o “não falar” e “o falar” têm o mesmo peso e requerem o mesmo esforço, aqui está a deixa que mostra não fazer sentido o “café ou o almoço”, deixa de fazer sentido a relação nestes moldes de "partilha" e proximidade.

Mantém-se a admiração, o amor, o carinho e desaparece a comunicação. 
Aqui a melhor e mais sábia solução é a distância, a memória e o sorriso por alguém que nos ajuda e desafia a crescer e a afirmar o que somos, pensamos e defendemos no momento. Na certeza que tudo isto muda de um dia para o outro.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Padrões..


Bissau, 18 de Janeiro de 2016

Em quatro meses na Guiné-Bissau, procuro padrões, procuro repetições que me ajudem a encontrar reconhecer a cada dia, um espaço mais familiar e mais próximo de mim própria. Quatro meses de um país completamente novo ainda não me permite identificar com clareza um padrão.
Encontrei algumas coisas, coisas se repetem nas minhas caminhadas para o trabalho, para o mercado, no regresso da missa, nas idas ao Bandim… 
Não há dia em que não ande a pé, não há dia em que não veja um homem a urinar na rua, não há dia em que não veja uma borboleta, não há dia em que não sinta o cheiro de algo que queima longe ou perto, não há dia que não ouça o som da vassoura a varrer o chão de terra... Vassourinhas pequenas feitas de junco que exigem as costas dobradas para chegar ao chão. 
Os sentidos estão abertos… E tudo tem uma dimensão diferente daquela que teria na minha cidade. As borboletas que sempre entendi como indicadores de boa qualidade do ar, voam abundantemente nesta capital, onde muitos táxis e toca-tocas, azuis e brancos ou azuis e amarelos, libertam estrondosas quantidades irrespiráveis de dióxido de carbono. As fogueiras ajudam a controlar os lixos e são uma forma de incineração “caseira” que controla a sujidade nas ruas e dá um tom fumado à paisagem. A terra varrida faz-me lembrar a minha infância e as brincadeiras que tinha na escola quando fazia casinhas com muros de folhas de oliveira, quando brincar aos pais e às mães fazia parte do meu padrão diário de aprender a ver o mundo e a ser gente.

Bissau continua a ser a cidade onde procuro rotinas, para continuar a crescer e aprender a ser mais pessoa, mais inteira, com gente nova todos os dias, num ano novo que desejo com belos e coloridos padrões para todos os sentidos. 



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Viagens...

A caminho da praia que fica a quase 5 horas de viagem (em condições normais)... O carro onde viajava com as minhas amigas, estragou-se (ficou sem óleo dos travões, porque os muitos buracos estragam os amortecedores e estes, estragados, rompem os tubos). Depois de alguns telefonemas de uma assistência em viagem feita de amigos, parámos no meio da estrada numa povoação onde havia uma "oficina".
Fiquei na berma a ver os miúdos que vinham da escola e as mulheres que vinham ou iam para algum lado... a dada altura passaram duas mulheres de burca. Uma das senhoras cumprimentou um dos homens que fazia parte do ajuntamento que arranjaria o carro.
Depois de passarem, ele disse num português muito "macarronico" que eu ouvi mais ou menos assim:
- Sabe, tem de ser ela a cumprimentar, eu conheço-a mas se ela não me cumprimentar eu não sei que é ela.
Sorri com aquela cara de quem espera mais conversa mas que deixa o outro seguir como e para onde quiser... Ele continuou:
- Sabe ela tem de andar assim, porque assim ninguém a vê, só ela é que pode ver por aquela (e fez o gesto... ficou um silêncio... imagino que deixou de falar da mulher e começou a filosofar)
- Dizem que se os homens vêm a Beleza se apaixonam por ela. E por isso as mulheres devem andar tapadas. Assim ninguém vê.
Eu sorri, queria mais conversa mas não queria perguntar fosse o que fosse, não me queria mexer, nem ouvir a minha voz num português tão diferente daquele, que iria mudar a conversa porque efectivamente não falamos na mesma língua e eu levaria a conversa para o meu horizonte.... e só queria ouvir o momento... ouvir aquele homem que trazia na mão dois tubos de cola numa embalagem novinha, de t-shirt amarela lavada, que sabia que no dia seguinte o Real Madrid jogaria com o Barcelona e que o Cristiano não está na sua melhor forma.
Faria ele mesmo, isso à sua mulher?
Pensará ele também, que quando alguém vê a Beleza se apaixona por ela?
(...)
Cada dia me parece mais claro que uma parte significativa de nós (ou de mim) não se consegue converter à Beleza! Por isso não se deixa, propositadamente, apaixonar por nada mesmo que tudo ande nu.
A burca integral como forma de evitar paixões é uma visão... hummm... de certa forma poética... porque pressupõe que as pessoas se apaixonam efectivamente pela Beleza e mais ainda que todas as mulheres são belas.
Uma coisa é certa, percebi na sexta-feira que a iniciativa de uma mulher de burca de comunicar está nas mãos dela... pode ser invisível se quiser.
Ouvir falar de Beleza e paixões... perdida no nada... a caminho de uma praia deserta ao lado de um carro avariado... é uma coisa que me faz sorrir, agradecer e calar...
Enfim... um dia escrevo sobre isto se a inspiração surgir e no fundo não foi nada de especial... foi tudo normal fluido e ajustado como teria sido em Espanha, Itália ou Portugal... apenas diferente, um pouco mais sujo, sem macacos hidráulicos, muitos homens a ver, sem preços afixados... e sem montras para passar o tempo ou bolachas para comprar... só bananas grandes a 75 francos e a hipótese de sermos vistas pelos olhares curiosos dos miúdos que vinham da escola e das senhoras que passavam vestidas com negras burcas ou panos coloridos... afinal as estranhas naquela paisagem éramos nós.

E tal como a senhora de burca, estava nas minhas mãos dar conversa ao homem, e dizer-lhe quem sou, através da minha opinião sobre beleza ou táticas futebolísticas... mas nestes sítios apetece-me mesmo é ser invisível... ver sem ser vista. Talvez um dia compre uma burca.

 😲😛😘







sábado, 24 de dezembro de 2016

Estatística...

O pensamento matemático e eu temos uma divergência desconexa que não sei explicar. É tipo aquela parte do cérebro que não trabalha, não porque não pode, mas pura e simplesmente nunca pensámos existir... E depois é como ir ao ginásio um dia e descobrir músculos novos que nunca imaginámos ter... Claro que o cérebro não é um músculo e eu também não encontrei a epifania na "estatística", e ainda assim consigo fazer conexões novas que dão um sentido mais objectivo e palavras diferentes ao que penso. 
A melhor definição de natal encontrei-a ontem numa aula de Excel:
"O Natal é uma frequência absoluta acumulada em que o último valor é sempre igual à amostra."  
No Natal olhamos com mais consciência e gratidão para tudo, os desvios padrão, variâncias ou modas assumem-se como parte integrante da amostra que somos.
E por mim nesta (e em todas) sou profundamente grata a tudo o que todos somaram e subtraíram, na minha vida. 
Os votos de boas festas multiplicados e divididos podem não ser eficazes, originais ou surpreendentes e ainda assim, sendo verdadeiros e sentidos, dão voz ao coração e confortam cada um que os escreve com a gratidão e o amor do tanto bem recebido no fim de cada ciclo. Escreve-los é um acto pessoal e egocêntrico, não os partilhar é um sobranceiro acto de egoísmo.
A todos os "natais" que me trouxeram até aqui, a todas as pessoas que os habitaram e me habitam, a todos os doces e amargos que fizeram da minha mesa um manjar de deuses, a tudo o que brilha por dentro e por fora eu tenho a dizer que vos sinto presentes e sou profundamente grata por isso. 
Abraço forte, demorado e cheio de amor!

Feliz Natal para o mundo... o meu mundo, o teu mundo e todos os mundos e dimensões que desconheço e me surpreendem tal como a matemática.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Vento...

É por causa da impossibilidade da visualização do invisível que não escrevo.
Como posso descrever o vento que antecede uma chuva tropical?
Não se vê um vento fresco que entra em todo o lado excitado, espaçoso e aleatório que tem volume e densidade e ao mesmo tempo me deixa leve e fresca quando me toca. 
Como se descreve um vento ágil e limpo que excita os sentidos na surpresa do que há-de vir?
Um vento que agita as palmeiras como fortes e frágeis bailarinas de dança contemporânea, arranca as folhas às papaieiras e ainda assim é redondo e maternal?
E como se falam de relâmpagos luminosos, faíscas sem fim, verdadeiros recordes por minuto, impossíveis de contar, que não são acompanhados por trovões audíveis? Surpreendentes espectáculos de luz e silêncio que me fazem entrar na dimensão da surdez a um ritmo de dança.
E como se falam de trovões que não trazem consigo relâmpagos e assim sozinhos parecem rasgar tudo, fazendo-me sentir pequena, cega e ofegante tal a força do seu grito?
E como falar da chuva? Da chuva que molha, lava, e seca num pestanejar de mulher bonita.
Chove como se mais não pudesse acontecer noutro dia, e também chove com doçura, abundância e serenidade como se todo um céu estivesse uniformizado num chuveiro imenso completamente calibrado e regular.
Ficam sulcos profundos na terra feitos pelas corridas das águas. Rugas de expressão de uma terra corada, que imagino feliz por se ver habitada. Ficam mais verdes os verdes, mais vermelhos os vermelhos, tudo fica alguma coisa mais... Garantidamente mais molhado, apenas no imediato.
Os cheiros e a temperatura são invisíveis e tão concretos que não há adjectivos, só sentidos.
E quando a chuva vem ao final do dia o céu ganha um fundo cinza iluminado por uma luz quente... E fica mais perto da terra. Sim, é isso que não consigo descrever de outra maneira... Há dias aqui em que o céu fica mais perto da terra.
Ontem foi um destes dias.

Palavras...

A realidade e o sonho nos mesmos corpos, nos mesmos olhos... Na mesma boca!
Aqui as pessoas amanhecem e as árvores falecem.
E pela manhã o "bom dia" é substituído por uma pergunta, o interesse em saber: como amanheceste?
Se a conversa dura e eu preciso de saber onde fica o sítio para onde quero de ir daqui a pouco... Recebo como indicação que é perto, ali ao lado do "falecido pé de mango".
Gosto da ideia de ser sol, da ideia de as árvores serem pessoas e gosto das tantas coisas que se dizem aqui que ajudam a desconstruir ou a construir a minha realidade! Estas não são as figuras de estilo da literatura... São figuras vivas de pés calejados e sorrisos matreiros que pensam de forma diferente da minha, reagem e sentem de forma diferente... Porque vêem o mundo de forma diferente, porque "falam" o mundo de maneira diferente.
A globalização pode chegar nos telemóveis, nos carros ou nas calças de ganga... Mas ainda não chega à forma de "falar" o mundo, e isso surpreende-me e agrada-me todos os dias. E também me faz calar todos os dias.
Que "anoiteçam" todos bem é o que eu desejo, e quando eu passar perto do falecido pé de mango invocarei aquela alma que proporcionou durante anos as melhores mangas do mundo, alimentando quem, com uma cana comprida se lança ao longo píncaro, que suspende no alto, o fruto doce e carnudo que nos lambuza a boca e os sentidos. Como as palavras...





Flores...

Na Guiné-Bissau o dia 2 de Novembro é o dia dos mortos. Há romaria aos cemitérios e levam-se coroas de papel colorido em vez de coroas de flores.
Eu gosto de flores mas aqui não há flores... Da forma como as encontramos em Portugal, nos campos ou nas lojas... e por esses inícios de Novembro comprei duas coroas de papel colorido que pendurei nas paredes da sala.
Hoje a Deolinda disse-me meia hesitante apontado para uma das coroas:
- Cláudia, sabes que isso é para colocar nos cemitérios não sabes?
Eu disse que sim que sabia, e expliquei-lhe que gosto das cores e imagino ter penduradas flores na parede. Gosto de flores e fazem-me falta... que os cartazes que coloco não duram muito por causa das ventoinhas...
Ela ficou a rir calada e eu acrescentei: e sabes Deolinda eu não fui ao cemitério ver os meus mortos, normalmente não vou, sabes porquê? Porque os meus mortos estão sempre comigo. Não estão enterrados, nem estão longe, estão aqui e agora ao pé de mim e eu acho que eles também gostam de ver as coroas de papel colorido nestas paredes.
Ela voltou a sorrir com vontade e disse: -Imaginava que me ias responder assim. E continuou a rir.
Perguntei se lhe fazia diferença ver as coroas. Sorriu, claro que não, ela também gosta de flores e plantas e só tem pena de não ter espaço em casa para as cultivar.

Fiquei a pensar, gostamos as duas de flores, acreditamos na comunhão dos santos e rimos juntas das nossas diferenças! Percebo que ela me acha um pouco estranha e ainda assim adivinha o meu pensar... até é bom ser estranhamente previsível para alguém com quem partilho uma pequena parte da vida. Para mim chama-se a isto "estar em casa".

Destroços...

Em Bissau, onde o Geba encontra o mar, está um barco encalhado em frente a um dos poucos espaços onde se pode tomar uma cerveja fresca a ...